O menino de rua que virou chef dos ricos e famosos no Canadá

Um dos chefs mais famosos do Canadá, Simpson abriu o próprio restaurante no ano passado, com todos os toques luxuosos que nunca poderia ter imaginado

Sash Simpson fez fama como chef de cozinha dos ricos canadenses, preparando lagosta embebida em chardonnay e hambúrgueres de foie gras de US$ 27.

Mas, há quatro décadas, ele era um menino de rua no sul da Índia, alimentando-se nas latas de lixo atrás dos restaurantes em Coimbatore, centro de produção têxtil no estado de Tamil Nadu.

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Quando tinha cerca de oito anos, os funcionários de um orfanato perceberam que ele estava pedindo esmola em uma parada de ônibus. Ele vivia em um cinema das redondezas e limpava o chão em troca de um lugar para dormir. Os funcionários do orfanato o convenceram a ir embora com eles e, de acordo com Simpson, foi naquele momento que sua vida realmente começou.

“Tudo é uma questão de momento. Se fosse um segundo antes, ou um segundo depois, eles não teriam me visto. Acredito em milagres. Aconteceu comigo”, disse Simpson, que completou 50 anos recentemente, embora não tenha certeza de sua idade.

Um dos chefs mais famosos do Canadá, Simpson abriu o próprio restaurante no ano passado, com todos os toques luxuosos que nunca poderia ter imaginado há 45 anos: serviço de valet para os carros, quatro tipos de caviar e vodca servida com gelo feito com ouro comestível.

O momento foi terrível. Os restaurantes de Toronto estão entre os mais prejudicados da América do Norte, e passaram por uma queda de 80 por cento no número de reservas em relação a 2019, segundo dados coletados pelo serviço de reservas on-line OpenTable. Os estabelecimentos ficaram fechados por quase cinco meses, durante a primeira onda do coronavírus, e, depois de dois meses de recuperação, foram fechados novamente em dez de outubro.

“Tudo que tenho está aqui”, disse Simpson em uma manhã de outubro, no restaurante vazio, sentado em uma cadeira de tweed feita sob medida, que custou US$ 600, enquanto olhava mais de duas dúzias de mesas vazias.

Sash Simpson com sua mulher, Robin

Sash Simpson com sua mulher, Robin (Kiana Hayeri/The New York Times)

As lembranças de infância de Simpson são uma mistura de retratos mentais desfocados: sua casa era um barraco em uma favela às margens dos trilhos do trem. O pai falava língua de sinais e trabalhava em uma fábrica de tabaco. Dois irmãos mais velhos. Muitas noites longas, subindo e descendo dos trens. Faz pouco tempo que ele teve acesso aos papéis da adoção, que diziam que sua mãe havia “fugido com outro homem” e que seu irmão o havia deixado na parada de ônibus. Simpson, porém, não se lembra de nada disso. “Não sei exatamente de onde vim. Costumo dizer que minha origem é o lugar onde me encontraram”, afirmou.

O orfanato foi criado por uma pequena ONG canadense, a Families for Children, para apoiar e educar crianças abandonadas. A maioria foi adotada quando era muito pequena. Os mais velhos ficaram e frequentaram a escola, até poderem viver por conta própria. A missão do jovem Sash era se tornar uma exceção.

Sempre que a fundadora do grupo, Sandra Simpson – que, em sua imaginação, era incrivelmente alta, loira e adorada no local “como se fosse o presidente” –, chegava ao orfanato, ele agarrava sua saia e repetia uma combinação de “mamãe” e “Canadá”.

“Ele me infernizou até me convencer a trazê-lo para o Canadá. Eu disse que procuraria uma família para ele, mas ninguém queria um menino daquela idade. Por isso, decidimos incluir Sashi em nossa família”, contou Simpson, de 83 anos, usando o nome oficial de Sash, em um e-mail enviado de Montreal, onde ainda é responsável pela Families for Children.

Depois de cinco dias de viagem, Simpson chegou a Toronto em meio a uma tempestade de neve em 1979. Sua primeira lembrança do contato com a nova família foi a imagem de uma caixa bruxuleante, que exibia uma mulher com botas vermelhas e um laço. Ele ficou pasmo. “Eu nunca tinha visto TV”, contou. Assistindo à TV, em volta de uma mesa de piquenique, havia “um milhão de crianças” – os novos irmãos e irmãs de Sash.

Algum tempo depois, a família Simpson apareceu em um comercial de Anacin, um analgésico, como “a maior família do Canadá”.

Quando a documentação que formalizava a adoção de Sash Simpson ficou pronta, em 1984, a família tinha 26 crianças: 20 das quais adotadas, além de quatro filhos biológicos e outros dois de criação. Todos vieram de países destruídos por guerras civis, por desastres naturais ou pela miséria, desde o Equador até a Somália. Muitas das crianças tinham deficiências graves.

Todos viviam em uma mansão de 22 quartos em Forest Hill, um dos bairros mais ricos de Toronto, emprestada por um investidor e filantropo. O primeiro emprego de Sash foi entregando jornais, aos 12 anos, para poder comprar as próprias roupas, diferentes do guarda-roupa comunitário da família.

O restaurante fechado de Sash Simpson

O restaurante fechado de Sash Simpson (Kiana Hayeri/The New York Times)

Aos 14 anos, começou a lavar pratos no restaurante onde a irmã mais velha, Melanie, era garçonete.

Embora tenha se adaptado perfeitamente à nova família, não se deu bem na escola depois de tantos anos vivendo nas ruas. Abandonou o último ano do ensino médio e passou a trabalhar em tempo integral na cozinha de restaurantes casuais, de estilo familiar.

Em 1993, viu o anúncio de uma vaga no North 44, restaurante de luxo na região norte da cidade. Simpson nunca havia comido em um lugar como aquele nem havia preparado aquele tipo de refeição.

Certa noite, foi até a cozinha, mas mandaram que saísse. Não apenas não possuía treinamento formal, como estava no auge de sua fase Michael Jackson – com madeixas caindo sobre os olhos e até a luva em só uma das mãos.

Contudo, ele adotou a mesma tática que garantiu sua adoção e voltou mais duas vezes, até que o chef concordasse em deixá-lo trabalhar lá por três meses, sem salário.

Simpson passou de uma estação de trabalho à outra na cozinha, até aprender a montar uma salada com cor e textura e a preparar um caldo de galinha durante a madrugada.

“Vi ingredientes que eu nem sabia que existiam. Comecei a comer steak tartare, foie gras e cogumelos, dos quais eu nunca tinha ouvido falar antes – porcini, chanterelle, morel”, contou.

Embora as irmãs garantam que ele sempre demonstrou um talento inato para a cozinha, Simpson acredita que foi sua ética de trabalho que o fez subir na carreira. Ele chegava cedo e trabalhava até tarde, ocupando todos os espaços que encontrava.

“Até hoje, ele se refere à área de empratamento como seu ‘escritório’ e faz todo o serviço sujo, como levar o lixo para fora”, contou a sous-chef Amanda Lambert, que trabalhou com Simpson durante cinco anos.

Em 2003, Simpson chegou ao cargo de chef executivo, responsável por supervisionar a cozinha e acompanhar eventos particulares e de gala.

Ficou conhecido pelo serviço impecável. Fazia os ricos da cidade se sentirem especiais, lembrando-se de quantos cubos de gelo gostavam de acrescentar ao uísque e quais deles preferiam sopa a salada.

Em um evento em 2008, conheceu a planejadora de eventos Robin Pitcher, 11 anos mais nova que ele. Eles estão casados há nove anos.

Três dias depois que a esposa deu à luz o segundo filho, Sawyer, Simpson inaugurou o Sash, com grandes elogios da imprensa.

Segundo ele, os últimos oito meses foram os mais estressantes de sua vida. O empresário pediu dinheiro emprestado para pagar os poucos funcionários que restaram, mesmo com a ajuda do governo. Agora, Simpson passa os dias no restaurante vazio, entrando em contato com os clientes para saber se estão interessados em pedir delivery ou se querem que ele prepare refeições para as festas de família.

Quarenta e poucos anos depois de comer em latas de lixo, Simpson percebe a ironia de alimentar as pessoas mais ricas do país. Mas, como sempre, seu foco é sobreviver.

“Este restaurante não vai fechar as portas. Eu era um menino de rua. Tenho de lutar por ele”, concluiu.

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