Como é viajar (e o que mudou) no 737 Max, que voltou a voar pela Gol

Após recertificação, companhia diz confiar na segurança do avião da Boeing; clientes que não quiserem voar nele poderão remarcar seus bilhetes sem custo
 (Array/Reprodução)
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Gabriel JustoPublicado em 10/12/2020 às 06:00.

Praticamente todos os aviões comerciais em operação já sofreram algum tipo de acidente em algum momento da história. Mas o caso do Boeing 737 Max é diferente. Em 2018, dois acidentes fatais em poucos meses forçaram diversas companhias ao redor do mundo a "groundear" (deixar no chão) os aviões do modelo. O processo de recertificação durou quase dois anos - arranhando não só a imagem da Boeing, mas a confiança dos passageiros no mais novo avião da fabricante americana.

Nesta quarta-feira (9), o Boeing 737 Max voltou a voar nos céus brasileiros pela Gol, única operadora do modelo no país e uma das primeiras do mundo a retomar sua operação. À convite da companhia, a EXAME voou no 737 Max em um dos últimos voos de teste antes da retomada comercial do modelo, entre Congonhas, em São Paulo, e Confins, na região metropolitana de Belo Horizonte.

Até mesmo para os aficionados pela aviação, os primeiros minutos do voo traziam um misto de apreensão e curiosidade - foi nessa etapa inicial do voo que os 737 Max da Lyon Air e da Ethiopian Airlines se acidentaram. Com exceção das solenidades típicas de um voo não-comercial, a decolagem aconteceu normalmente, e poucos minutos após a aeronave deixar Congonhas, a tripulação desligou o aviso de atar cintos - não sem antes reforçar que, quando ligadas, as sinalizações deveriam ser obedecidas no mesmo instante.

Na ida, tranquilidade; na volta, raios e trovões

O voo de ida enfrentou algumas poucas turbulências, permitindo aos jornalistas, influenciadores e comissários circularem normalmente pela aeronave, respeitando apenas as restrições de distanciamento relacionadas à Covid-19. As mudanças que, segundo a Boeing e as agências reguladoras, deixaram o 737 Max seguro para voar não são perceptíveis aos passageiros.

A principal dessas mudanças é que, nessa nova "era" do Max, o computador de bordo utiliza os dois sensores de ângulo de ataque (e não apenas um, como antes) para acionar o MCAS, o sistema de controle de estabilidade que operava erroneamente no passado.

As mudanças feitas no sistema de MCAS vão minimizar a possibilidade da transmissão de informações incorretas ao computador de bordo, porque serão utilizados dois sensores de ângulo de ataque [para aferir se o avião está muito inclinado para cima]. O sistema só entra em ação [ajustando o nariz do avião mais para baixo] caso haja concordância dos dados de ambos. Em caso haja divergência entre eles, o sistema MCAS não age, apenas avisa o piloto automaticamente. Além disso, o sistema também só atuará uma vez, e não repetidamente.

Landon Loomis, diretor-geral da Boeing no Brasil

"O escrutínio pelo qual essa aeronave passou nos últimos meses nos dá a completa certeza de que ela é a mais segura do mercado atualmente", explicou o comandante Vianna, Coordenador de Segurança de Voo da Gol, um dos primeiros a passar pelos novos treinamentos da Boeing para o Max em Miami, nos EUA.

A falha do MCAS que levaram aos acidentes fatais aconteceram algumas vezes em outros voos do Max antes e depois das fatalidades. Nessas outras situações, entretanto, os pilotos conseguiram evitar o pior. Por isso a Boeing aposta no treinamento adicional dos pilotos de 737 do mundo todo para garantir a segurança da aeronave. A dispensa de treinamento adicional da tripulação era uma das vantagens competitivas do Max à época do seu lançamento, o que economizaria milhões de dólares das companhias que o escolhessem para suas frotas.

A Gol informou que todos os custos extras trazidos pela paralisação do Max, incluindo o investimento em treinamento, está sendo compensado pela Boeing - mas nem a companhia e nem a fabricante americana divulgam os valores de suas negociações.

Após o voo tranquilo da ida, as condições meteorológicas do final da tarde colocaram o Max à prova. A volta de Confins para São Paulo enfrentou muitas áreas de instabilidade, mantendo o aviso de atar cintos aceso durante quase todo o voo. Um pouco antes do início da aproximação de CGH, um raio passou muito próximo da aeronave, provocando um clarão e um estrondo característicos - e um leve susto dentro da cabine. Apesar disso, o voo prosseguiu e pousou normalmente em Congonhas.

E quem não quiser voar no Max?

Antes da pandemia do novo coronavírus arrasar a aviação pelo mundo, a grande discussão do setor era como lidar com a desconfiança dos passageiros na volta do Max. Nesse sentido, a estratégia da Gol será de transparência e flexibilidade. Segundo Paulo Kakinoff, presidente da Gol, todas as aeronaves do modelo são seguem o padrão de identificação da companhia (com o nome "737 Max 8" escrito entre a porta dianteira e o nariz da aeronave).

Os passageiros também estão sendo ativamente avisados sobre a possibilidade do seu voo ser operado pelo Max - por enquanto, a companhia tem sete deles, numa frota de 130 aeronaves. Quem não quiser voar no modelo pode, a qualquer momento entre a compra e o embarque, solicitar remarcação sem nenhum custo adicional: basta usar o Max como justificativa para o pedido.

Nesta quarta-feira (9), o Max operou seu primeiro voo comercial após 20 meses de aterramento mundial, entre o aeroporto de Congonhas, em São Paulo, e Porto Alegre. A aeronave PR-XMB retornou à capital paulista e realizou, ainda, um voo de ida e volta entre Guarulhos e Florianópolis - novamente, com passageiros à bordo e sem incidentes de qualquer natureza.

Como reconhecer um Boeing 737 Max

No Brasil, o 737 Max só é operado pela Gol, cuja frota é composta apenas pelo 737 e suas variações. Além da tradicional identificação da aeronave, escrita entre o nariz e a porta dianteira esquerda (por onde normalmente é realizado o embarque), é possível reconhecer o Max por pequenos detalhes exclusivos do novo modelo: a ponta das asas e a parte traseira dos motores.

No 737 Max, a ponta das asas tem uma duplicação - os chamados winglets -, além de um serrilhado na parte traseira dos motores. Ambas características são exclusivas do Max, e ajudam a aeronave a reduzir o consumo de combustível no ar. Outros aviões novos da Boeing, como o 787, também contam com esses detalhes - mas não fazem parte da frota da Gol.

*O jornalista viajou no Boeing 737 Max à convite da Gol Linhas Aéreas