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As drogas vão derrubar o vinho?

Estamos bebendo menos em busca de saúde e bem-estar — mas o Mounjaro, o CBD e hábitos mais solitários são o real estopim da crise

É o fim dos vinhos? (Catarina Bessell/Exame)

É o fim dos vinhos? (Catarina Bessell/Exame)

Alexandra Forbes
Alexandra Forbes

Colunista de Vinhos

Publicado em 11 de março de 2026 às 06h51.

Perdi a conta de quantas reportagens, entrevistas com especialistas e posts nas redes sociais vêm espalhando mensagens quase apocalípticas sobre o declínio vertiginoso no consumo de álcool — vinho, especialmente.

A Gen Z é mais preocupada com o bem-estar e avessa à ressaca. Medita, conta calorias, prefere kombucha a Cabernet. Some-se a isso a crise geopolítica, os custos crescentes de produção e as tarifas aduaneiras, que encareceram muitos rótulos. A maioria aponta esses fatores para explicar a crise — mas o buraco é mais embaixo.

A transformação comportamental vai bem além dos jovens desencantados pela bebida. O diagnóstico mais convincente até agora foi publicado pela revista The Economist, segundo a qual “o declínio do vinho reflete algo mais profundo: o desgaste do tecido social que antes mantinha unidas as sociedades ocidentais”.

O álcool sempre lubrificou a vida social, mas as pessoas no mundo rico vivem — e comem — cada vez mais sozinhas. A fatia de domicílios unipessoais deve subir de 28% em 2018 para 35% até 2050, segundo a ONU. Como resultado, mais gente faz refeições e relaxa diante de telas. A queda nas vendas de vinho refletiria, assim, um mundo mais solitário e atomizado.

A meu ver, há outro fator decisivo nessa equação: as drogas, desde as recreativas, como o CBD, até as canetas de Mounjaro e similares, para emagrecer. Além do apetite, reduzem a vontade de tomar vinho, segundo pesquisas e milhares de relatos nas redes sociais.

Quanto à Gen Z, apontada como estopim do declínio, ela não abdicou de se inebriar. Apenas prefere outros lubrificantes sociais. As festas são cada vez mais diurnas, como as raves matinais em cafés com DJs nas picapes e pista cheia. Vinho não combina com essa nova balada — CBD, sim. A geração que vive sob a pressão por pertencer prefere “CBD margaritas” em latinha às bebidas calóricas que dão ressaca.

Erra quem diz que o vinho saiu de moda. Rótulos caros e famosos seguem inabaláveis como símbolos de status. Importa qualidade, e não quantidade, o beber por beber. Perdem os vinhos baratos e industrializados; ganham produtores de versões “low alc” ou desalcoolizadas, novo hype.

Não foi o vinho que morreu, e sim quem não soube adaptar-se a esse admirável mundo novo.

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