Colunista
Publicado em 22 de agosto de 2026 às 10h02.
"Dadinho é o*, meu nome agora é Zé Pequeno". Se você se lembra de ter visto, em 2002, essa frase proferida em algum cinema do Brasil, provavelmente tem idade suficiente para ter visto, também, o assunto desta matéria. A expressão Pure Malt estampava, até aquele ano, diversas garrafas de uísque à venda em nosso mercado. Em especial um certo Glenfiddich, que circulava bastante pelo Brasil.
Entretanto, em 2002, a expressão foi proibida. E a história por trás dela é uma das mais curiosas do mundo do Scotch Whisky. Antes de narrá-la, entretanto, cabe uma explicação técnica breve. Uísques feitos totalmente de cevada maltada podem ser Single Malts ou Blended Malts.
O que muda é o número de destilarias. Se for produzido em alambiques de cobre, totalmente de cevada maltada, em um único lugar, é single malt. Mas, se for uma mistura de uísques de cevada maltada, destilados em alambiques, mas de destilarias distintas, é um blended malt. Simplificando: se você pegar dois single malts e misturar, terá um blended malt.
Este conceito, porém, apesar de não ser novo, ganhou bastante tônus a partir de 2002. E a personagem principal é a destilaria Cardhu, localizada em Speyside, na Escócia. De nome, a destilaria é pouco conhecida. Mas ela tem um papel vital para a Diageo. Ela fornece o uísque mais importante para compor o Johnnie Walker Black Label. Sem Cardhu, não há Black Label. Além disso, ela também engarrafa um Cardhu 12 anos.
Em 2002, por algum mistério mercadológico, o consumo de Cardhu decolou. A Espanha foi um dos países responsáveis. E, apesar de isso parecer um problema bom, é, também, um desafio.
Porque produzir uísque não é algo imediato. Não adianta simplesmente virar uma chave e, da noite para o dia, centenas de milhares de garrafas serem preenchidas. Uísque demanda tempo. O tempo de barril. Para que seja considerado scotch whisky, o mínimo são três anos em barris de no máximo setecentos litros. A Diageo, então, viu-se num curioso impasse. A curva de demanda claramente superaria o teto de produção – considerando os estoques da época – da Cardhu. Mesmo redirecionando parte dos maltes antes destinados à Johnnie Walker, a conta não fechava.
Cabe aqui voltar ao início da matéria. Em 2002, a legislação relativa à rotulagem de scotch whisky era um pouco distinta da atual. Era permitido usar a expressão “pure malt” ou “vatted malt”. A expressão podia tanto referir-se a um single malt quanto a um blended malt, explicados anteriormente.
A Diageo aproveitou aquela prerrogativa legal e lançou um novo produto no mercado. O Cardhu Pure Malt. Que era, basicamente, Cardhu, misturado com outros maltes de destilarias menos conhecidas do grupo, como Glendullan. O blend mantinha o perfil sensorial típico de Cardhu e Speyside.
Acontece que, percebendo a jogada de sua concorrente, a William Grant & Sons, outra gigante da produção de Scotch Whisky, acusou a Diageo de “enganar o público” e – espetacularmente, na minha opinião – “apostar em estar certa", algo que minha esposa faz com frequência, também.
Os dejetos finalmente atingiram o ventilador. A imprensa publicou uma série de artigos, transformando a mudança em um quase escândalo. Por fim, o Parlamento Escocês se envolveu. O líder do partido nacional, John Swinney, criou um comitê só para discutir a matéria e chamou a Scotch Whisky Association para chegar na voadora.
Pressionada por seus concorrentes, o parlamento e a SWA, a Diageo não teve alternativa senão retroceder de sua decisão. Em 2003, retirou o Cardhu Pure Malt do mercado. Mas a história teve enraizamentos mais profundos. Em 2008, a SWA alterou as Scotch Whisky Regulations e determinou que, em 23 de novembro de 2011, as expressões “vatted malt” e “pure malt” estariam totalmente proibidas na rotulagem de uísque escocês.
Então, está aí. Se pudesse falar, certamente aquela garrafa diria. Pure malt é o *. Eu sou um blended malt.