À esquerda, Chanel entre lavandas em La Pausa, em 1938; à direita, o Claustro visto por trás de uma das grades de ferro que estruturam a área. (Arquivo Chanel/Manolo Yllera/Architectural Digest)
Jonalista colaborador
Publicado em 12 de agosto de 2026 às 06h38.
Última atualização em 13 de agosto de 2026 às 10h38.
A propriedade de La Pausa, em Roquebrune-Cap-Martin, na Riviera Francesa, passou por uma restauração paisagística que devolveu ao terreno a configuração que Gabrielle "Coco" Chanel idealizou no fim dos anos 1920. O projeto foi conduzido pelo arquiteto americano Peter Marino, responsável há quatro décadas por boutiques e escritórios da grife, e teve como referência o ano de 1935, quando os jardins da estilista já haviam tomado a forma que ela buscava.
Chanel comprou o terreno de quase quatro hectares em 1928 com os lucros do perfume Chanel nº 5, lançado sete anos antes, e da moda que revolucionava a época. Ali, ela e o arquiteto Robert Streitz ergueram uma casa sóbria, inspirada no convento de Aubazine, onde a estilista foi criada. O nome La Pausa remete a uma capela do século XV que fica ao lado do terreno, ligada por tradição local à passagem de Maria Madalena pela região após a crucificação de Jesus. A propriedade serviu de refúgio a Chanel até 1953, quando foi vendida ao editor Emery Reves, pouco antes de a estilista reabrir sua casa de costura após quase quinze anos afastada do trabalho.
Vista aérea de La Pausa, com a Riviera Francesa e os campos de lavanda ao redor da casa. (Manolo Yllera/Architectural Digest)
A oliveira centenária no centro do Claustro, com vista para o Terraço Sul e o balanço de ferro ao fundo (Manolo Yllera/Architectural Digest)
Em 2015, a Chanel adquiriu La Pausa dos herdeiros de Reves. Com o apoio da equipe de patrimônio da marca, Marino revisou os arquivos da propriedade para reconstituir o desenho original dos jardins, que a estilista concebia como uma extensão de sua identidade. Segundo o arquiteto, em entrevista à Architectural Digest, a década de 1930 impunha um paisagismo discreto, condizente com o período de Depressão econômica vivido na Europa.
Durante a construção original, entre 1928 e 1929, Chanel pediu que duas oliveiras centenárias fossem preservadas, uma no caminho de entrada da casa e outra no centro de um pátio interno que lembra um claustro. A oliveira da entrada, que Chanel chamava de sua guardiã, foi devolvida ao local depois que Marino removeu plantações posteriores consideradas fora do estilo original, entre elas palmeiras e outras espécies que não pertenciam à vegetação nativa da região.
O Terraço Oeste, com pérgola de wisteria e mobiliário de ferro forjado recriado a partir de imagens de arquivo (Manolo Yllera/Architectural Digest)
Marino recuperou a vegetação típica da garrigue mediterrânea, com lavanda selvagem, íris, cactos e carvalhos, evitando espécies ornamentais que Chanel associava mais a Paris, como as camélias. As únicas exceções ficaram por conta de uma magnólia de folhas escuras e brilhantes, que lembram a camélia mas resistem ao calor, além de agaves e suculentas distribuídas pela casa e pelos terraços.
O arquiteto também redistribuiu parte das 250 oliveiras da propriedade, algumas com até 800 anos, e instalou pontos de luz de LED voltados para baixo nos galhos, criando um efeito de luar mesmo em noites nubladas. Nos campos, lavanda e íris foram plantadas em blocos de cor que remetem à pintura de Kandinsky, com a lavanda descendo em cascata pela encosta frontal em um estilo conhecido na jardinagem francesa como coulée. Os gramados foram deixados crescer de forma mais livre, misturando trevo e vegetação espontânea, na tentativa de reproduzir a textura característica dos tailleurs de tweed que se tornaram símbolo da estilista.
Caminho de grama entre canteiros de íris e oliveiras centenárias, algumas com até 800 anos (Manolo Yllera/Architectural Digest)
A propriedade segue de uso privado da Chanel, reservada para eventos da marca e residências artísticas. A primeira temporada, voltada a escritores, ocorreu no outono de 2025, e a próxima edição, prevista para o próximo verão, será dedicada a compositores, com direito a um concerto nos jardins. Em maio deste ano, La Pausa também recebeu a apresentação de alta joalheria da marca. A casa já havia servido de cenário para a campanha da primeira coleção prêt-à-porter do diretor criativo Matthieu Blazy, estreada na primavera passada, com modelos fotografados na mesma oliveira que Chanel costumava escalar quase um século antes.