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O medo de perder o emprego virou comédia na TV

Sitcoms como 'Adults' e 'I Love LA' colocam no centro da tela os mesmos dilemas que atormentam jovens de 20 e poucos anos fora da ficção

Cena da série 'Industry', da HBO, que acompanha jovens em seus primeiros empregos no mercado financeiro (Divulgação)

Cena da série 'Industry', da HBO, que acompanha jovens em seus primeiros empregos no mercado financeiro (Divulgação)

Gustavo Frank
Gustavo Frank

Jonalista colaborador

Publicado em 21 de agosto de 2026 às 15h03.

Última atualização em 21 de agosto de 2026 às 17h33.

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Um grupo de jovens tentando se equilibrar entre a vida pessoal e profissional numa grande cidade é uma fórmula que a televisão já explorou à exaustão. Foi assim que sitcoms como Friends e How I Met Your Mother se tornaram sucessos que atravessaram gerações, com plateias que se reconheciam nas confusões amorosas e nas primeiras batalhas de carreira dos personagens.

A diferença é que os protagonistas daquelas séries nunca precisaram disputar espaço com algoritmos e modelos de inteligência artificial na hora de conseguir ou manter um emprego. Agora que a geração Z começa a entrar no mercado de trabalho, séries recentes têm capturado as dificuldades de uma geração que estreia na vida profissional durante um dos períodos mais desafiadores para quem busca uma vaga, marcado por custos crescentes, demissões em massa e a incerteza permanente sobre o avanço da IA.

Essa geração, que soma cerca de 70 milhões de pessoas nos Estados Unidos e representa o segundo maior grupo demográfico do país, atrás apenas dos millennials, se tornou um público estratégico para estúdios e emissoras que tentam entender o que ainda consegue prender sua atenção diante da concorrência de plataformas como TikTok e YouTube.

O medo como matéria-prima da comédia

Série 'Adults'

Elenco de Adults', sitcom da FX criada por Ben Kronengold e Rebecca Shaw (Divulgação)

Yalda T. Uhls, fundadora e CEO do Center for Scholars and Storytellers, organização sem fins lucrativos voltada à pesquisa sobre a representação da juventude na mídia, descreve o estado emocional desse público em poucas palavras. Em entrevista ao The Wall Street Journal, ela disse que "eles estão tão apavorados", ao comentar como a vida real desses jovens virou, segundo ela, "bem assustadora".

Esse tipo de insegurança, que poderia soar como um tema pesado demais para a comédia, tem se mostrado um terreno fértil para roteiristas de televisão. Séries como Adults, da FX, criada por Ben Kronengold e Rebecca Shaw, e I Love LA, da HBO, protagonizada e criada por Rachel Sennott, usam a sátira para tratar de situações que fazem parte do cotidiano de milhões de jovens trabalhadores, como demissões repentinas, a dificuldade de se encaixar em ambientes corporativos e a ambição profissional sem freios.

Um gênero que já vinha se formando

Série 'Industry'

'Industry'retrata as pressões da geração Z dentro de um ambiente corporativo competitivo (Divulgação)

Produções como Industry, da HBO, acompanham um grupo de jovens em seus primeiros empregos no setor financeiro, enquanto Hacks, também da HBO, constrói boa parte de seu humor a partir do choque geracional entre uma assistente da geração Z e sua chefe muito mais velha. The Bear, da FX, embora não seja construída especificamente em torno de personagens dessa geração, também ajudou a popularizar o retrato da ambição jovem dentro de ambientes de trabalho exigentes.

O tom escolhido por essas produções marca uma diferença em relação às sitcoms que definiram gerações anteriores. Enquanto Friends e How I Met Your Mother construíram seu apelo em torno do romance e das pequenas conquistas do dia a dia, como o primeiro emprego estável ou a compra de um apartamento, as séries voltadas à geração Z encontram comédia justamente na precariedade dessas conquistas.

Esse deslocamento de foco acompanha uma mudança mais ampla no mercado de trabalho americano, que se tornou um dos temas centrais na cultura pop voltada a esse público. A televisão passou a incorporar, com humor, as mesmas manchetes que preocupam economistas e recém-formados, transformando a insegurança profissional em enredo e em audiência para um público que segue de perto o próprio reflexo na tela.

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