Fábio Coelho: presidente do Google Brasil foi o primeiro candidato do 'Temos Vagas' (Google/Reprodução)
Repórter
Publicado em 18 de maio de 2026 às 07h15.
Última atualização em 18 de maio de 2026 às 19h21.
Quando deixou sua casa, no Espírito Santo, Fábio Coelho, presidente do Google Brasil, recebeu um conselho de sua mãe.
Ele tinha 15 anos, uma mala e um ônibus para pegar na direção do Rio de Janeiro. Na rodoviária, antes de embarcar, a mãe o chamou.
"Meu filho, tudo que você podia ter aprendido conosco, nós até agora nós te ensinamos. Daqui para frente você vai ser produto das suas decisões", ela disse. E lembrou a bandeira do Espírito Santo, com o lema gravado no centro: "trabalha e confia".
"[ela me disse] Trabalha como se as coisas dependessem de você. E confia que se você fizer as coisas certas ao longo do tempo, alguma coisa aí, algum agente grande vai te ajudar a ter sucesso e que as coisas funcionem para você", diz Coelho em entrevista à EXAME.
Décadas depois, o conselho parece ter dado certo. Há 15 anos como presidente do Google Brasil, o executivo foi o primeiro entrevistado do TEMOS VAGAS programa em vídeo da EXAME no qual grandes nomes dos negócios realizam uma entrevista... de emprego.
A trajetória que conecta a rodoviária capixaba ao escritório do Google em São Paulo passou por uma faculdade de engenharia, duas pós-graduações — uma no Brasil, outra no exterior —, dez anos morando fora do país e uma curva deliberada em direção a uma visão generalista de carreira.
O primeiro emprego veio aos 17 anos, como estagiário de engenharia numa empresa que já dava sinais de encolhimento.
No primeiro mês de trabalho, a pessoa responsável por acompanhá-lo foi demitida. O episódio, aparentemente banal, mudou a forma como Coelho pensaria sobre trabalho pelo resto da vida.
"Aquilo me ajudou muito a buscar ter autonomia intelectual", diz.
A lição que extraiu foi tripla: aprender continuamente, construir uma reputação que tornasse o seu nome o último a ser lembrado em momentos de corte, e gastar menos do que ganha. "Nos tempos bons eu guardava dinheiro para os tempos chuvosos", afirma.
Coelho tem uma fórmula pessoal para decidir quando é hora de mudar de emprego.
Segundo ele, é preciso se fazer três perguntas: você ainda consegue gerar impacto? Ainda está aprendendo? O ambiente e as pessoas ao redor são bons?
"Quando a gente tem que mudar de emprego, você muda quando ou você vai ter essas três coisas de um lado, ou você não tem alguma delas do outro", diz.
No Google, afirma ter as três. Por isso está há 15 anos e, também por isso, quando pensa nos próximos dois ou três anos — nunca em cinco —, ainda se vê no centro da transformação trazida pela inteligência artificial.
Entre ser temido, respeitado ou querido, a escolha de Coelho foi fácil: respeitado, sempre, e, se possível, admirado.
"Acho que a criação de medo não é exatamente a melhor forma de se trabalhar", diz. "No mundo de hoje, as pessoas valorizam mais quando você tem uma relação de confiança com elas. E essa relação não passa só por falar o que as pessoas querem ouvir, mas por mostrar como as coisas funcionam num ambiente onde sempre há escassez, dificuldades e opiniões diferentes."
Para ele, a confiança é o que sustenta uma liderança de verdade — e confiança não se constrói dizendo apenas o que as pessoas querem ouvir.
"Não somos todos necessariamente unanimidades", afirma.
Seu ponto mais forte, na própria avaliação, é a capacidade de melhorar os ambientes e as pessoas ao redor.
O mais fraco é a franqueza em excesso. "Sou radicalmente honesto e franco. Às vezes a franqueza excessiva pode assustar um pouco as pessoas", diz.
Uma característica que, segundo ele, ainda está aprendendo a dosar — especialmente porque, em posições de liderança, o peso de um feedback pode ser amplificado de formas inesperadas.
Há também a impaciência, que ele cita como algo que colegas reconheceriam imediatamente. "Tenho que controlar a minha impaciência, aprender a sofrer menos diante das coisas que me impacientam", afirma.
Cobrar resultados sem sufocar a autonomia das pessoas é, segundo ele, um aprendizado contínuo.