Tecnologia

Do Orkut à IA: os 15 anos de Fábio Coelho no Google Brasil

Desde 2011 no comando, executivo acompanhou a tecnologia sair do acessório ao centro da economia, agora impulsionada pela inteligência artificial

Fábio Coelho: presidente do Google Brasil está há 15 anos no cargo (Google/Reprodução)

Fábio Coelho: presidente do Google Brasil está há 15 anos no cargo (Google/Reprodução)

Publicado em 29 de abril de 2026 às 05h31.

Última atualização em 29 de abril de 2026 às 09h21.

Quinze anos atrás, o Google no Brasil ainda orbitava em torno da busca e de um país que começava, lentamente, a migrar sua atenção para o digital. O Orkut concentrava relações, o YouTube ainda ensaiava sua escala, e a publicidade online disputava espaço com a TV em passos curtos.

Foi ali, em 2011, que Fábio Coelho entrou na big tech. Engenheiro de formação, assumiu o cargo de presidente com a tarefa de aproximar o Google das grandes empresas brasileiras e transformar o digital em uma decisão de negócio e não mais uma aposta.

O tempo fez o resto. Plataformas mudaram, hábitos foram reescritos e o digital deixou de ser escolha para virar base.

"Quando você fica 15 anos em uma empresa, você passa a ter uma preocupação maior não só em construir, mas em deixar legados. Você se preocupa mais em abrir espaço para as pessoas que virão e ocuparão posições importantes", afirma Coelho, em entrevista à EXAME.

Agora, no ponto onde a inteligência artificial reorganiza mais uma vez esse tabuleiro, o executivo segue no mesmo lugar — mas em um Google que já não se parece em nada com aquele que encontrou.


EXAME: Você é presidente do Google Brasil há 15 anos — desde 2011. O que mudou, para você, desde então? E qual foi a maior mudança nesses 15 anos?

Fábio Coelho: Mudou tudo. Mudou a relação do brasileiro com a tecnologia, o entendimento de que a tecnologia, naquela época, era um acessório na vida das pessoas; depois ela passou a ser complementar e importante.

Durante a pandemia, ela passou a ser quase que única, na maneira como as pessoas interagiam com a sociedade e resolviam os seus problemas. E agora ela voltou a ter um papel preponderante, turbinado pela inteligência artificial.

Ao longo desses 15 anos, mudou o Google também, que hoje é muito maior, muito mais presente no Brasil, tem uma participação muito mais relevante na vida das pessoas, aumentou e ampliou a sua estrutura para atender esse mercado, participa ativamente do mercado publicitário brasileiro.

Isso significa que o Google hoje é um player digital que é importante para as empresas buscarem eficiência, seja pela parte de anúncios, seja na parte de nuvem também, porque a gente também começou a entender que havia a possibilidade de ter uma infraestrutura mais escalável.

E, em última análise, eu mudei também. O meu momento de vida já é diferente do que era 15 anos atrás.

Isso significa também uma visão totalmente renovada do que a tecnologia pode trazer para a vida das pessoas, e inclusive para a minha própria vida, ao entender como ela, em curta distância — como a inteligência artificial, que é a onda dos últimos 10 anos e dos próximos muitos anos — consegue empoderar pessoas, como consegue resolver problemas de uma maneira que nunca pensamos antes e de forma rápida.

É, então é uma onda de tecnologia rápida que está vindo e que funciona para que a gente possa começar a sonhar com o futuro onde as diferenças encolhem e as distâncias diminuem entre as pessoas, entre a forma de fazer, porque realmente nós passamos a ter a inteligência democratizada.

EXAME: Você falou que o seu momento de vida pessoal também mudou em relação a 15 anos atrás. O que mudou principalmente para você nesse período?

Fábio Coelho: Olha, 15 anos atrás eu tinha filhas que tinham 5, 8, 10 e 12 anos. Hoje elas são adultas.

Tenho uma filha que mora na China. Do ponto de vista pessoal, a possibilidade de participar da vida dela à distância só é possível por causa da tecnologia.

Meu momento de vida mudou. Hoje, eu e minha esposa somos empty nesters, sem filhos em casa. É uma mudança. Tenho também mais consciência de que posso viver mais se cuidar melhor da saúde e um novo entendimento da finitude.

Quando você fica 15 anos em uma empresa, passa a ter uma preocupação maior não só em continuar construindo, mas também em deixar legados.

Com o tempo, cresce a preocupação em abrir espaço e deixar caminhos para as pessoas que virão e ocuparão posições relevantes.

Tenho um novo compromisso com as pessoas que trabalham comigo — algumas há 10, 12, 14, 15 anos. Relações profundas, tanto com colegas no Google quanto com clientes, criam um nível diferente de compromisso, cumplicidade e intimidade.

EXAME: E no Brasil, o que mudou na forma de enxergar o futuro do país diante dos avanços tecnológicos e das transformações globais?

Fábio Coelho: Há também mais tranquilidade para conviver com um Brasil que tem momentos de turbulência. Ao entender esses ciclos, a reação passa a ser orientada por uma visão de longo prazo.

Mudou o meu entendimento sobre as potencialidades do Brasil, especialmente no uso da inteligência artificial para resolver problemas em setores nos quais o país é forte, como o agronegócio, a energia e a logística.

Mas uma das poucas coisas que não mudou foi a convicção de que há uma oportunidade de usar a tecnologia para tornar o Brasil um país melhor.

Existe a possibilidade de ampliar o acesso à educação. Crianças em regiões distantes podem estudar por meio de plataformas digitais.

O papel do YouTube também se fortalece nesse contexto. Há casos como o de um estudante da Bahia que foi aprovado em primeiro lugar em medicina após estudar pela plataforma.

O avanço tecnológico ocorre em várias frentes, mas o desafio é transformar casos isolados em escala.

No Brasil, há alguns dos melhores hospitais do mundo, mas são poucos. A aplicação de inteligência artificial pode ampliar esse acesso.

O país produz aeronaves de alta qualidade, como a Embraer. O desafio é expandir o número de empresas brasileiras com atuação global.

Nos últimos 15 anos, houve avanços como a expansão da energia eólica e o uso de dados para otimizar a produção energética e reduzir impactos ambientais.

As transformações continuam. O desafio é participar desse processo, direcionando a tecnologia para gerar impacto positivo.

EXAME: Você menciona inteligência artificial como uma "onda dos últimos 10 anos". Como o Google — e você— viam a IA antes e como enxergam agora? É algo que veio para ficar e vai aumentar, ou será uma onda passageira, uma bolha?

Fábio Coelho: Não, a inteligência artificial não é uma bolha.

A IA é uma forma de geração de inteligência, informação e conhecimento que, até pouco tempo atrás, não era possível, porque não havia a infraestrutura, não havia a capacidade de processamento de dados e não haviam os modelos disponibilizados para a sociedade.

A partir do momento que você tem esses elementos juntos — data centers, chips, cabos submarinos para conectar o mundo inteiro, modelos e uma quantidade de modelos muito bons acontecendo —, a inteligência artificial passa a ser o nosso segundo cérebro ou o nosso assistente pessoal turbinado, fazendo com que a gente possa exercer funções de uma maneira como a gente não exercia antes.

Isso turbina o cidadão, torna-o realmente mais capaz de resolver problemas. Isso é uma evolução que as pessoas às vezes tentam limitar ao mundo da busca, que é uma busca melhor, mas é muito mais do que isso.

É a capacidade de você resolver determinados problemas usando formas até hoje não existentes ou resolver problemas que até agora não eram solúveis. E isso é muito bacana porque também descentraliza essa decisão: cada pessoa passa a ter a capacidade de ter vários agentes ou assistentes que funcionam para as áreas que você determina. Eu diria que é uma transformação, como qualquer tecnologia de propósito geral.

"Quando você fica 15 anos em uma empresa, você passa a ter uma preocupação maior não só em construir, mas em deixar legados."

Em relação à tecnologia, tudo que é novo e não é conhecido, é visto como mágico. No momento em que ele já está na nossa vida, é visto como trivial.

Então hoje viajar para a Lua, descobrir metais novos, viver 150 anos... é tudo mágico. Assim como há 15 anos, 20 anos atrás, você falar que haveria um telefone com transmissão de vídeo de alta qualidade, de alta definição, parecia loucura.

Eu me lembro quando eu era menino, quarenta anos atrás, com os Jetsons, e eles tinham um relógio com televisão.

Aquilo era considerado o futuro. Como é que algum dia alguém vai ter um relógio de pulso com a televisão? E hoje estamos muito além disso.

Então, a inteligência artificial vai ser, com a computação quântica, o condutor desses próximos 20 e 25 anos de transformação.

EXAME: E como você usa a inteligência artificial no dia a dia?

Fábio Coelho: De todas as formas possíveis: para me informar sobre determinados assuntos, para organizar o meu dia, para organizar a minha agenda, para documentar as minhas reuniões de uma maneira praticamente automática, ao interagir com clientes para entender como a gente pode oferecer soluções.

Eu passo o meu dia inteirinho perguntando e conversando com a inteligência artificial, que é um complemento a todas as conversas que eu tenho. Eu converso com o cliente, eu converso com a equipe do Google, eu converso com pessoas que são de fora do Google.

Isso funciona maravilhosamente bem. Já está em um nível de avanço absurdamente melhor do que era há três, quatro anos, e vai continuar melhorando muito rapidamente.

EXAME: Que conselho você daria para você mesmo de 15 anos atrás, no seu primeiro dia como CEO do Google, com a noção que você tem hoje?

Fábio Coelho: Talvez o mais importante que eu não tinha naquela época fosse o entendimento de que a minha vida mudaria tanto. Trata-se de uma mudança social impulsionada pela tecnologia, que forma pessoas mais informadas, conectadas e esclarecidas — e que exige uma transformação no modelo de gestão.

Passei a entender que não é mais possível administrar no modelo de comando e controle, que funcionava bem até o início dos anos 2000. As estruturas eram essencialmente piramidais: alguém decidia, e os demais executavam.

Hoje, a orientação é ouvir pessoas diferentes e envolvê-las no processo de tomada de decisão. Esse processo pode levar mais tempo, mas tende a gerar decisões melhores. Ao mesmo tempo, não pode ser indefinido — em algum momento, a decisão precisa ser tomada, preferencialmente de forma coletiva.

O aprendizado mais relevante foi entender esse novo modelo com mais rapidez. Houve um período de adaptação. Minha trajetória anterior incluía posições como presidente de empresas no Brasil e nos Estados Unidos desde 2000, até a entrada no Google, em 2011.

Havia a percepção de que existia uma fórmula de sucesso consolidada. Com o tempo, ficou claro que experiências anteriores não garantem os mesmos resultados em novos contextos.

O principal ajuste foi ampliar a escuta e acelerar o aprendizado. Esse entendimento trouxe resultados, mas exigiu tempo para ser incorporado.

EXAME: E qual é, para você, sua receita de sucesso para a gestão?

Fábio Coelho: Pessoas certas e trabalho consistente para construir relações de confiança são a base. É necessário atuar com essas pessoas na construção de uma visão comum, com perspectiva de gerar valor no futuro.

Essa visão deve indicar que, com a contribuição individual, é possível alcançar um resultado melhor e compartilhado.

A criação de valor compartilhado depende de uma visão clara, de um time engajado e de pessoas competentes. O elemento central desse processo é o respeito.

É necessário respeitar opiniões e diferenças. O mercado atual é mais transparente, e há maior acesso a informações sobre ambientes de trabalho e lideranças.

Profissionais qualificados têm poder de escolha sobre onde trabalhar. Nesse contexto, a retenção está associada à manutenção de um ambiente de respeito, confiança, visão clara e execução consistente.

EXAME: Há muita discussão de que a IA vai roubar empregos ou transformá-los. Onde você enxerga o papel da IA nessa parte de carreira? Isso afeta especialmente os entry-level jobs — estagiários e posições júnior? Como você vê essa mudança?

Fábio Coelho: A inteligência artificial tem potencial para aumentar a produtividade das empresas ao tornar pessoas e processos mais eficientes e ao automatizar atividades.

Esse movimento não é recente. A automação começou décadas atrás, com avanços desde a Revolução Industrial e evoluiu ao longo do tempo, com exemplos como automação bancária, varejo e e-commerce, em ciclos que levaram de 30 a 40 anos.

Há funções mais expostas a transformações. Esse impacto depende de dois fatores: o componente intelectual do trabalho e o nível de destreza manual envolvido. Ainda não há consenso sobre até que ponto atividades intelectuais podem ser substituídas ou complementadas.

"Experiências anteriores não garantem os mesmos resultados em novos contextos."

Atividades que exigem alta destreza manual tendem a apresentar maior complexidade para automação.

A discussão sobre emprego permanece relevante, mas a inteligência artificial também pode ampliar a capacidade produtiva e gerar abundância.

No setor de construção, o alto custo e a escassez de mão de obra contribuem para o déficit habitacional. Tecnologias automatizadas, como robôs, podem viabilizar construções mais baratas, sustentáveis e eficientes.

Esse tipo de transformação já ocorreu anteriormente, com a evolução de métodos construtivos mais industrializados nas décadas de 80 e 90.

A aplicação de tecnologia pode ampliar a produção em diferentes áreas. Aumento da oferta de alimentos, melhor uso de energia e redução de desperdícios são exemplos de ganhos potenciais.

A perda de alimentos ao longo da cadeia logística ainda é significativa. Modelos como supermercados com produtos próximos ao vencimento mostram alternativas para reduzir desperdício e ampliar o acesso.

Iniciativas já existem, mas ainda operam de forma isolada. O desafio é escalar essas soluções.

A combinação de conectividade, dados e modelos estruturados pode ampliar a eficiência e gerar ganhos em larga escala.

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