O cérebro entra em modo de alerta ao projetar reuniões, cobranças e conflitos no ambiente de trabalho (BSIP / Colaborador/Getty Images)
Repórter
Publicado em 18 de janeiro de 2026 às 19h17.
Última atualização em 18 de janeiro de 2026 às 19h20.
A sensação de aperto no peito, irritação ou tristeza que aparece no fim do domingo deixou de ser apenas um incômodo individual. Popularizada como síndrome de domingo, ela se tornou um marcador do modo como o trabalho atravessa o tempo de descanso e antecipa, emocionalmente, a semana que ainda nem começou.
Embora o termo não exista como diagnóstico clínico, especialistas explicam que o fenômeno está ligado à ansiedade antecipatória — quando o cérebro começa a simular pressões, metas e conflitos futuros.
“A síndrome de domingo não é um diagnóstico formal, mas um sinal de alerta sobre uma relação adoecida com o trabalho”, afirma Thirza Reis, psicóloga e coach ontológica, com mais de 20 anos de experiência.
Mais do que um problema individual, a síndrome também é entendida como um fenômeno psicossocial. Ela emerge justamente no momento de transição entre lazer e produtividade, quando o silêncio do descanso dá espaço para a percepção de insatisfação com a própria rotina profissional.
“Não é uma patologia descrita no DSM, mas um fenômeno comportamental ligado a essa passagem entre viver e produzir”, diz Andrea Deis, especialista em carreira e neurociência e professora da FGV e da Fundação Dom Cabral.
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Os sinais associados à síndrome não se limitam ao campo emocional. O que começa como inquietação ou tristeza costuma avançar para manifestações físicas e cognitivas, muitas vezes antes mesmo da segunda-feira chegar.
Entre os sintomas mais comuns estão ansiedade intensa, irritabilidade, dificuldade para dormir, taquicardia, fadiga e dores de cabeça. Há também aceleração do pensamento e ruminação mental sobre tarefas pendentes.
“É como se o corpo reagisse antes mesmo do início da semana”, diz Reis.
O fim do domingo funciona como um marco simbólico. É nesse momento que a mente começa a antecipar o retorno a ambientes percebidos como desgastantes ou hostis, ativando respostas fisiológicas de estresse.
O cérebro entra em modo de alerta ao projetar reuniões, cobranças e conflitos. Quando o trabalho é vivido como ameaça, essa antecipação intensifica a ansiedade.
“O domingo se tornou uma espécie de planilha emocional”, afirma Cristina Cogo, psicóloga clínica, com mais de 20 anos de atuação em segurança do trabalho.
Nesse intervalo entre descanso e obrigação, muitas pessoas são confrontadas com frustrações profissionais que ficam abafadas durante a semana.
“No silêncio do lazer, a insatisfação com a carreira aparece com mais força”, afirma Deis.
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Sentir desconforto pontual é esperado em alguns momentos da vida profissional. O problema surge quando a sensação se repete, rouba o descanso e passa a impactar o sono, o humor e as relações pessoais.
O alerta se acende quando o trabalhador não consegue usufruir o fim de semana ou chega à segunda-feira mais cansado do que saiu da sexta.
“Quando a pessoa sofre o futuro antes de ele chegar, há um sofrimento que precisa de atenção”, diz Deis.
Sintomas como insônia frequente, sensação de pânico ou falta de ar persistente indicam que o limite entre ansiedade adaptativa e patológica pode estar sendo ultrapassado, exigindo acompanhamento profissional.
A síndrome não está necessariamente ligada ao domingo. Em jornadas como a escala 6x1, a ansiedade costuma surgir na véspera do retorno ao trabalho, independentemente do dia da semana.
Nesses casos, o impacto tende a ser mais intenso pela ausência de tempo real de recuperação física e emocional.
“Além do efeito individual, esse modelo amplia riscos coletivos, afetando segurança, clima organizacional e produtividade”, afirma Cogo.
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Sobrecarga, metas inalcançáveis, assédio, liderança baseada no medo e jornadas extensas aparecem entre os principais gatilhos da síndrome. A invasão do trabalho no tempo pessoal — por mensagens e cobranças fora do expediente — aprofunda o problema.
Quando não há desligamento real, o organismo permanece em estado de alerta contínuo. “Sem recuperação emocional, o corpo entra em exaustão”, diz Reis.
Com a atualização da NR-1, que deve começar a valer em maio deste ano, empresas passam a ter a obrigação de identificar e gerenciar riscos psicossociais dentro do Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO). Nesse contexto, a síndrome de domingo surge como um indicador de falhas estruturais no ambiente de trabalho.
A norma não busca diagnosticar indivíduos, mas mapear condições organizacionais adoecedoras.
“A inclusão dos riscos psicossociais amplia o olhar sobre o cuidado com o trabalhador”, afirma Cogo.
Quando a ansiedade antecipatória se torna crônica e não há recuperação, o risco de evolução para burnout, depressão e transtornos de ansiedade aumenta.
O estresse prolongado mantém o organismo em estado de alerta contínuo, levando ao esgotamento físico e mental.
“Os excessos de atestados, afastamento e o crescimento expressivo no uso de medicamentos para ansiedade e burnout indica que o problema não está restrito a indivíduos, mas reflete modelos de trabalho disfuncionais que se perpetuam dentro das empresas”, afirma Reis.
O ponto de virada acontece quando o trabalho passa a cobrar um preço alto demais — saúde, identidade e vida fora do expediente.
“Se o domingo se transforma em sofrimento recorrente e a segunda-feira é vivida como ameaça, algo precisa mudar”, afirma Deis.
Buscar apoio profissional é o primeiro passo, diz Cogo. Em alguns casos, a resposta envolve mudanças no ambiente; em outros, repensar a trajetória profissional.
“Cuidar da saúde mental, reforçam os especialistas, deixou de ser fragilidade, é estratégia de sobrevivência e de carreira”, diz Cogo.
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