Quer ser mais criativo no trabalho? Tire tempo para consumir arte e dormir

Para a neurocientista Daiane Golbert, criatividade é fruto da articulação de memórias — e dar vazão a atividades artísticas é um caminho para exercitá-la

Você está no trabalho, busca uma solução diferente para um problema (seja ele novo ou antigo), pensa numa saída e: nada. Por algum motivo, a cabeça não ajuda, e vem o bloqueio criativo.

Muitos funcionários enfrentam o problema da falta de criatividade — uma habilidade essencial não apenas para os cargos obviamente criativos (como os da área do design), mas para trabalhos de quaisquer outras áreas.

A transformação digital que diversas empresas vêm implementando nos últimos anos também deu mais importância à criatividade, uma das tão faladas “habilidades humanas” que ganharam protagonismo. A ideia é que, com a mecanização de várias funções, o profissional que for criativo, tiver uma boa inteligência emocional e poderosa capacidade de comunicação sairá na frente.

A criatividade não é abstrata

Apesar de parecer algo do campo das ideias, ou até mesmo do além, a criatividade é uma habilidade mapeada pela ciência. “A criatividade vem da articulação de ideias, e as ideias vêm das memórias. Quanto mais memórias, maior a capacidade de fazer conexões e melhor será a habilidade criativa”, diz a neurocientista Daiane Golbert, integrante do Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

Segundo ela, carregamos algumas memórias no DNA, o que explica, por exemplo, o fato de crianças terem grande poder criativo. “Estas memórias são relacionadas ao que costumamos chamar de instinto: nascemos sabendo respirar, é algo que carregamos de nossa ancestralidade”, diz.

À medida que crescemos, no entanto, passamos a registrar novas memórias e formar um repertório, que é o que pode nos fazer mais criativos enquanto adultos.

O efeito do estresse sobre a criatividade

A pressão que podemos vivenciar em ambientes de trabalho, no entanto, pode ser um fator negativo para o desenvolvimento da criatividade.

Isso porque, em momentos de estresse, o sistema nervoso simpático é ativado. Assim, o comportamento do cérebro é voltado para as reações de fuga ou de luta, e não sobra espaço para ativar as vias neurais que acessam as memórias.

“Ser criativo requer um compromisso, um tempo, uma concentração. Com o organismo voltado para lidar com o estresse, fica difícil conseguir concentração para elaborar novas ideias”, diz Golbert.

Neste sentido, em um contexto em que a síndrome de burnout é cada vez mais comum, a neurocientista alerta para o fato de que as pessoas devem ter consciência de que estão esgotadas, e, assim, partir para um relaxamento, que pode envolver meditação, atenção plena (mindfulness) ou até mesmo o uso de psicoativos, como a psilocibina, molécula presente em cogumelos mágicos.

As etapas da criatividade

Por mais que não nos demos conta, toda vez que passamos por um processo criativo, seguimos quatro etapas básicas.

A primeira é a preparação. É quando limpamos a mesa, pegamos papel e caneta para organizar os pensamentos, respiramos profundamente e começamos a focar em uma nova ideia.

Depois disso, vem o período de incubação. Nesta fase, há uma dedicação profunda, é quando realmente começamos a nos esforçar para conectar as memórias, pensar no objetivo daquela ação, recrutar ideias possíveis, considerá-las ou descartá-las.

Após este momento de esforço, chega a hora mais prazerosa, que Golbert chama de “momento AHÁ!”. Trata-se da fase da iluminação, quando a nova ideia vem à mente com grande clareza.

Por fim, vem a verificação, que é quando entendemos melhor a nova ideia, refletimos sobre seu uso e a validamos.

O caminho para ser criativo

O que fazer, então, para chegar ao “momento AHÁ!”? Segundo a neurocientista, é imprescindível ter um tempo livre para a concentração. “O processo criativo é algo muito pessoal: cada um sabe o que funciona como estímulo, como inspiração”, diz Golbert.

Ela orienta que não se pode deixar que a criatividade dependa do ambiente externo, já que é algo que, de fato, vem de dentro. “Mesmo que a pessoa esteja no meio de um furacão, se tiver autoconhecimento, vai conseguir olhar para dentro e fazer algo.”

A arte é tão importante para a criatividade que ela é considerada em experimentos científicos. Sabe-se que, quando há contato com música, com audiovisual, com uma obra de arte plástica, o cérebro pode entrar nas frequências theta ou gama.

Sendo assim, não existe receita mágica para a criatividade, mas uma boa dica é estabelecer uma conexão com a arte. Golbert sabe disso por conta própria: enquanto trabalha com protocolos em seu laboratório, mantém em seu campo de visão as mandalas que ela mesma desenha nas horas vagas. “Elas me estimulam, me impulsionam, trazem energias boas. Por meio delas, resgato coisas boas dentro de mim”, diz.

A arte é tão importante para a criatividade que ela é considerada em experimentos científicos. Sabe-se que, quando há contato com música, com audiovisual, com uma obra de arte plástica, o cérebro pode entrar nas frequências theta ou gama.

Enquanto gama fica ativa nos momentos de resolução de problemas, theta é, de fato, a frequência mais ligada à criatividade, à fluidez. É, também, a frequência dos insights, da meditação e dos sonhos — por isso, dormir bem é importante para que você se torne mais criativo.

Substâncias psicoativas

Para aqueles que se sentem confortáveis com experiências mais transformadoras, a neurocientista afirma que o uso de substâncias psicoativas pode funcionar como um caminho para melhorar a criatividade.

A ayahuasca, por exemplo, tem potencial antidepressivo e capacidades ansiolíticas comprovados pelo Instituto do Cérebro da UFRN. “Por essas questões — e outras que ainda não conhecemos —, sustâncias como essa nos ajudam a chegar a níveis mais elevados de consciência”, diz a cientista, destacando que há muitos relatos de melhora de criatividade a partir de usuários.

Ela comenta que o uso destas substâncias causam a expansão da consciência, propiciando novas interações neurais. “Com os psicoativos, é como se o ego sumisse. Sem a constante autocrítica, ficamos mais livres para testar caminhos, nos permitirmos ser criativos.”

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