Cerca de 4,6 milhões de brasileiros vivem atualmente no exterior, número que cresceu 15% nos últimos dois anos (dima_sidelnikov/Thinkstock)
Repórter
Publicado em 21 de abril de 2026 às 07h31.
Eles ainda são, em sua maioria, jovens em início de carreira, mas o perfil está longe de ser homogêneo. O brasileiro que decide sair do país hoje mudou, e o movimento revela mais do que uma busca por experiência: mostra uma transformação na forma de pensar trabalho, qualificação e futuro.
“Grande parte do nosso público tem menos de 35 anos, mas o número de pessoas acima dessa faixa tem crescido”, afirma Celso Garcia, fundador e CEO do Grupo CI.
Em entrevista exclusiva ao podcast “De frente com CEO”, da EXAME, Garcia diz que a faixa entre adolescência e início da vida adulta continua sendo a principal porta de entrada para experiências internacionais, especialmente por meio de cursos de idioma e programas educacionais. Mas o que antes era quase exclusivo desse grupo agora se expande para outros momentos da vida.
Se antes sair do Brasil estava ligado principalmente a um intercâmbio acadêmico, hoje o movimento é mais estratégico. O objetivo não é apenas estudar fora, mas ganhar vantagem competitiva no mercado de trabalho.
“O idioma faz um diferencial enorme na empregabilidade. Muitas pessoas só percebem isso quando perdem uma oportunidade”, diz Garcia.
A fluência em inglês segue como principal motivação, mas não é a única. Experiência internacional, vivência cultural e acesso a novos mercados passaram a fazer parte do pacote de interesses, especialmente em um cenário em que carreiras se tornam cada vez mais globais.
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Uma das mudanças mais relevantes está na idade de quem decide sair do país. Profissionais com mais de 35 anos passaram a buscar o exterior como forma de reposicionamento de carreira.
Esse público, segundo Garcia, costuma ter objetivos como acelerar a carreira, mudar de área ou resolver uma lacuna específica, como o domínio de um idioma.
Ao mesmo tempo, cresce também um grupo ainda mais inesperado: pessoas acima dos 50 e até dos 60 anos.
“Temos casos de pessoas com mais de 80 anos viajando para estudar. É um movimento que se ampliou muito”, afirma.
Nesse caso, a motivação vai além do trabalho e inclui autonomia, qualidade de vida e realização pessoal.
Celso Garcia, fundador e CEO do Grupo CI: “Eu sempre recomendo que as pessoas conheçam países que estão em evidência, como Estados Unidos, China, Finlândia e Estônia” (Grupo CI/Divulgação)
Outro dado que chama atenção é o perfil de gênero. As mulheres são maioria entre os brasileiros que buscam experiências internacionais, um reflexo de maior autonomia financeira e também de uma postura mais ativa em relação à própria carreira.
“A gente costuma dizer que é uma empresa feminina, porque a maioria dos nossos clientes são mulheres”, afirma o CEO.
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Os destinos continuam concentrados em países de língua inglesa, com destaque para o Canadá, que se consolidou como principal escolha nos últimos anos.
“O Canadá hoje é o destino número um. Ele se preparou melhor, tem estrutura e foi mais aberto ao estudante internacional”, diz Garcia.
Estados Unidos, Reino Unido, Irlanda, Austrália e Nova Zelândia também seguem entre os preferidos, especialmente os últimos três países citados por combinarem estudo com possibilidade de trabalho.
A escolha, no entanto, mudou. Hoje, fatores como custo de vida, facilidade de visto e oportunidades profissionais pesam na escolha do destino.
Apesar da percepção de “fuga”, Garcia faz uma distinção importante: a maioria dos brasileiros não está simplesmente deixando o país, mas buscando desenvolvimento.
“As pessoas não vão para fora só para trabalhar. Elas vão para crescer, se desenvolver”, afirma o empresário.
Isso explica por que o intercâmbio e a educação internacional seguem como principais caminhos. A lógica é de investimento, não de escape.
As mulheres são maioria entre os brasileiros que buscam experiências internacionais, segundo dados do Grupo CI (Halfpoint/Getty Images)
Quando o assunto é carreira internacional e empreendedorismo, Garcia defende que não existe um único destino ideal, mas sim escolhas estratégicas, de acordo com o momento e o objetivo profissional.
“Se você vai para tecnologia, os Estados Unidos ainda são uma referência importante. Mas a gente já começa a ver uma mudança, com a China ganhando muito espaço e podendo alterar esse cenário nos próximos anos”, afirma.
Para ele, mais do que escolher um país específico, o importante é ampliar repertório e entender diferentes modelos de desenvolvimento ao redor do mundo.
“Eu sempre recomendo que as pessoas conheçam países que estão em evidência, como Estados Unidos, China, Finlândia e Estônia. Cada um deles traz uma visão diferente de educação, inovação e mercado”, diz.
No caso da Finlândia, o executivo destaca o potencial de oportunidades, mas também os desafios culturais.
“A Finlândia, por exemplo, precisa de milhares de profissionais por ano. Todo mundo fala inglês, mas eles querem pessoas dispostas a aprender o idioma local. Cada país tem suas regras e é preciso entender isso”, afirma.
Com um movimento global cada vez mais dinâmico, acompanhar essas mudanças faz parte da construção de uma carreira mais competitiva.
“Visitar esses países e entender como eles funcionam ajuda muito a ampliar visão e tomar melhores decisões profissionais”, diz.
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Para o CEO do Grupo CI, o Brasil ainda está no início dessa transformação de educação internacional. A internacionalização da carreira, comum em países desenvolvidos há décadas, começa agora a ganhar força entre os brasileiros, porém ainda falta apoio.
“Investir em uma carreira internacional é um movimento recente no Brasil, mas que tende a crescer muito nos próximos anos”, diz o empresário que diz que o país ainda é carente de profissionais para ensinar idiomas.
Um dos caminhos que pode ajudar a muitos a realizar o sonho de uma carreira internacional é o apoio das empresas à educação no exterior, que, segundo Garcia, ainda é limitado.
“Lá fora as empresas investem no desenvolvimento internacional dos profissionais. Isso já acontece há décadas”, diz Garcia. “No Brasil existe a demanda, mas aqui as empresas ainda não têm esse conceito forte. Elas até liberam o funcionário nas férias, mas não participam financeiramente.”
No fim, o perfil de quem sai do país revela mais do que uma tendência de mobilidade: mostra uma mudança estrutural na forma como os brasileiros enxergam o próprio futuro.
E, cada vez mais, esse futuro não tem fronteiras.
Cerca de 4,6 milhões de brasileiros vivem atualmente no exterior, número que cresceu 15% nos últimos dois anos, segundo dados do Itamaraty. Entre os países mais buscados, de acordo com o último ranking do Belta, o Canadá lidera a lista desde 2017, seguidos pelo Reino Unido, Estados Unidos e Irlanda.