O casal brasileiro Cintia Cruz e Kleber Carrilho vivem no país mais feliz do mundo com o filho desde 2002 (Cintia Cruz e Kleber Carrilho/Divulgação)
Repórter
Publicado em 21 de março de 2026 às 14h30.
Última atualização em 21 de março de 2026 às 14h57.
“Na Finlândia, você aprende que a vida não gira em torno do trabalho, e isso muda tudo.”
Foi com essa percepção que a designer brasileira Jane Vita, de 47 anos, passou a enxergar a própria carreira de outra forma. Após mais de duas décadas de experiência e idas e vindas entre Brasil, Canadá e Europa, ela voltou a Helsinque pela terceira vez, agora com três filhos e uma nova leitura sobre o que significa qualidade de vida.
A escolha não é isolada. Um estudo da ONU divulgado nesta quinta-feira, 19, colocou, pela 8ª vez consecutiva, a Finlândia no topo do ranking dos países mais felizes do mundo, uma liderança que se sustenta por fatores que vão além da renda: confiança nas instituições, segurança, acesso à educação e, principalmente, equilíbrio entre vida pessoal e profissional.
“Mesmo em um momento de transição, em todos os meus trabalhos aqui, pude vivenciar uma cultura forte de work-life balance. Existe um respeito genuíno pelo tempo pessoal, o que permite maior comprometimento com a vida fora do trabalho, o que impacta diretamente o bem-estar”, afirma Vita.
Essa lógica aparece no dia a dia. No país nórdico, jornadas mais flexíveis, baixa hierarquia e uma cultura de confiança fazem com que o desempenho não seja medido por horas registradas, mas por entregas. O resultado é um ambiente menos pressionado, e, paradoxalmente, mais produtivo.
Jane Vita, designer brasileira: “Na Finlândia, você aprende que a vida não gira em torno do trabalho, e isso muda tudo" (Jane Vita/Divulgação)
A professora de idiomas Gabriela Barco, de 34 anos, que vive no país desde 2015, também confirma essa experiência.
“Trabalhar na Finlândia é saber que sua vida pessoal também é respeitada”, diz.
Ela conta que nunca precisou bater ponto e que a confiança é um valor central nas relações profissionais. “Sempre confiaram que eu cumpria minhas horas de trabalho”, diz.
Mas a felicidade finlandesa não se explica apenas pelo ambiente corporativo.
Gabriela Barco, professora de idioma na Finlândia: “Trabalhar na Finlândia é saber que sua vida pessoal também é respeitada” (Gabriela Barco/Divulgação)
Outro fator frequentemente citado por brasileiros no país é a sensação de segurança, algo que impacta diretamente a qualidade de vida.
Para Gabrielle Jordano Koskela, de 43 anos, trabalha com planejamento de projetos turísticos, e se mudou em 2024 por causa do casamento e da estabilidade que o país hoje oferece para a sua família.
"Eu vim por amor, porque o meu marido é finlandês. Aqui, além do suporte da família dele, de que agora faço parte, a nossa infraestrutura está bem consolidada aqui", afirma.
Para ela, a segurança pesa muito na decisão de viver no país nórdico.
“Podemos ir para qualquer lugar, a qualquer hora do dia, sem nos preocupar com roubo, violência ou assédio”, diz Koskela.
Gabrielle Jordano Koskela, turismóloga: “Na Finlândia o sistema de saúde não é público. A fatura chega em casa para pagamento, mas é um valor muito menor do que no sistema privado e funciona muito bem" (Gabrielle Jordano/Divulgação)
Essa base de segurança e confiança é reforçada por serviços públicos eficientes, baixa corrupção e uma rede robusta de proteção social. Educação gratuita, acesso à saúde e políticas de apoio às famílias ajudam a criar um ambiente de estabilidade raro no mundo atual.
Na prática, isso também se traduz em mais autonomia para as crianças e menos sobrecarga para os pais.
“Meus filhos têm uma liberdade que seria impensável no Brasil”, diz Jane.
Apesar da qualidade dos serviços, Koskela diz que o sistema de saúde na Finlândia funciona de forma diferente do brasileiro. O atendimento é público, mas não é totalmente gratuito, os usuários pagam taxas que variam de acordo com a renda, geralmente com valores limitados por um teto anual.
“A fatura chega em casa para pagamento, mas é um valor muito menor do que no sistema privado”, afirma.
A igualdade de gênero é outro pilar importante. Desde 2022, cada responsável na Finlândia tem direito a 160 dias úteis de afastamento remunerado, totalizando 320 dias úteis ou cerca de 13 meses para que ambos os pais estejam presentes no começo da vida da criança.
Para o casal brasileiro Cintia Cruz e Kleber Carrilho, que vivem no país desde 2022, e tiveram um filho no país nordíco, a experiência da parentalidade trouxe uma mudança profunda.
“A divisão de responsabilidades é incentivada. Isso me fez repensar o papel de pai”, diz Kleber. Já Cintia destaca que a flexibilidade permite conciliar carreira e maternidade sem a pressão de escolher entre os dois.
Esse cenário de igualdade de gênero no mercado de trabalho não é por acaso, afirma Laura Lindeman, diretora sênior da Work in Finland.
“A Finlândia acredita que o equilíbrio entre vida pessoal e profissional não é um benefício, mas um direito. Nossas políticas de parentalidade refletem esse compromisso com as famílias e com uma sociedade mais igualitária”, afirma.
Cintia Cruz e Kleber Carrilho, casal brasileiro que se mudou para estudar na Finlândia e vive a experiência do afastamento remunerado após o nascimento do filho (Cintia Cruz e Kleber Carrilho/Divulgação)
Apesar dos indicadores positivos, a vida na Finlândia não é isenta de desafios, e os próprios brasileiros fazem questão de destacar isso.
O custo de vida é elevado, especialmente em moradia e serviços, e os impostos são altos. O inverno longo e escuro também pode afetar o humor e exigir adaptação emocional.
Além disso, o idioma ainda é uma barreira importante para quem busca crescer profissionalmente.
“O inglês funciona no dia a dia, mas o finlandês faz diferença no longo prazo”, diz Koskela.
O mercado de trabalho, embora qualificado, não é necessariamente fácil para estrangeiros.
“As oportunidades não são automáticas”, afirma Vita.
Ainda assim, há demanda em áreas estratégicas, como tecnologia, saúde, energias renováveis e engenharia, setores em que o país combina inovação com escassez de talentos, abrindo espaço para profissionais internacionais.
No fim, o que explica o topo do ranking global não é apenas um conjunto de políticas públicas ou indicadores econômicos, mas uma visão diferente de sociedade.
Na Finlândia, felicidade não significa euforia constante, mas estabilidade, previsibilidade e tempo de qualidade.
Entre o silêncio das florestas, a cultura da sauna e uma rotina menos acelerada, o país propõe um outro ritmo, onde produtividade e bem-estar caminham juntos.
E, para quem decide ficar, como Jane, a mudança vai além do endereço.
“Aprender a viver de forma mais calma deixa de ser uma escolha, e passa a ser uma habilidade essencial,” diz.
Mais do que um título simbólico, o primeiro lugar no ranking global de felicidade reflete uma construção de longo prazo da Finlândia, segundo a finlandesa Lindeman.
“O país ser eleito novamente como o mais feliz do mundo é resultado de um trabalho contínuo para construir uma sociedade que funciona", diz.
Para ela, que nasceu e vive na Finlândia, a confiança entre pessoas e instituições, serviços públicos acessíveis, equilíbrio entre trabalho e vida pessoal, igualdade de oportunidades e uma relação próxima com a natureza ajudaram o país a conquistar novamente essa imagem.
Laura Lindeman, diretora sênior da Work in Finland: “O país ser eleito novamente como o mais feliz do mundo é resultado de um trabalho contínuo para construir uma sociedade que funciona" (Laura Lindeman/Divulgação)
Esse modelo, segundo a executiva, também se reflete na economia e impacta diretamente os negócios.
“Estabilidade, qualificação profissional e confiança criam um ambiente em que empresas operam com consistência e as pessoas se envolvem mais com o que fazem. Ao mesmo tempo, qualidade de vida pesa cada vez mais na escolha de talentos internacionais, o que coloca o país em uma posição clara na disputa por profissionais”, diz Lindeman.