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Para muita gente, volta das férias dá até depressão

Um em cada quatro profissionais brasileiros apresenta sintomas de depressão pós-férias. Entre as principais causas estão a insatisfação com o trabalho e a falta de perspectivas de crescimento

São Paulo - Quando alguém tira férias, deveria voltar ao trabalho feliz da vida e cheio de entusiasmo, certo? Todo gestor de pessoas sabe que, na prática, não é bem isso o que acontece. Ao contrário, muita gente demora para pegar o ritmo outra vez. E há os que vão além da dispersão e da falta de concentração: parecem desanimados, infelizes, até mesmo doentes. Trata-se de um problema que vem se tornando cada vez mais comum nas corporações, a ponto de ganhar até o status de distúrbio psicológico específico: a depressão pós-férias. 

De acordo com pesquisa feita recentemente pela International Stress Management Association no Brasil (Isma-BR), um em cada quatro profissionais brasileiros apresenta sintomas desse distúrbio. Há desde sintomas físicos — como dores musculares, dor de cabeça, cansaço constante e insônia — até psicológicos, como angústia, ansiedade e raiva. A pesquisa ouviu 540 profissionais que haviam acabado de voltar de férias, de ambos os gêneros e com idade entre 25 e 60 anos, e constatou que 124 deles manifestaram alguns dos sintomas típicos. 

Os gestores de recursos humanos devem estar especialmente atentos à parte da pesquisa que revela as “fugas” utilizadas pelos profissionais atingidos pela depressão pós-férias. Dos que apresentaram sintomas, 68% admitiram o uso de medicamentos ou drogas que supostamente ajudam a lidar com a situação, 52% relataram consumo de bebida alcoólica, 38% compensam as frustrações ingerindo comidas calóricas e 33% recorrem ao cigarro. “Nas duas primeiras semanas, é perfeitamente normal não estar se sentindo 100% motivado. Afinal, não é fácil lidar com a ideia de que vai demorar um pouco para que as próximas férias cheguem”, diz a psicóloga Ana Maria Rossi, presidente da Isma no Brasil. “A preocupação é quando essa sensação se prolonga e ganha sintomas mais intensos.” 

Dos profissionais identificados como portadores da depressão pós-férias, 93% apontaram a insatisfação profissional como principal motivo. As outras causas mais citadas têm relação direta com falhas nas estratégias de gestão de pessoas: 86% culparam a falta de perspectiva de crescimento e aprendizado profissional, 71% citaram o ambiente hostil ou não confiável como razão para a sensação de desânimo e 49% citaram conflitos pessoais. “São todas situações em que os gestores de pessoas têm o dever de identificar e combater dentro das empresas”, diz Ana Maria. 

Profissionais mais vulneráveis

A pesquisa identificou também o tipo de profissional que parece estar mais vulnerável à depressão pós-férias: aquele que trabalha no setor financeiro, de informática ou de saúde. Além disso, há uma maior predisposição de profissionais que estejam trabalhando fora de sua área de formação. Uma simples conversa do gestor com o subordinado pode ser um passo importante para superar o problema — daí a necessidade de permanecer atento a mudanças de comportamento. Essa iniciativa quase sempre precisa partir do gestor, pois, em meio a um ambiente de insegurança, o profissional que enfrenta o problema tende a ter receio de perder espaço caso admita vulnerabilidades.


   

Cada empresa desenvolve suas estratégias para lidar com o problema. Fundada em 2008, a companhia aérea Azul está lidando com a primeira geração de funcionários a tirar férias pela segunda vez. Para o diretor de RH, Johannes Castellano, o segredo para evitar desânimo de quem retorna ao trabalho é oferecer constantes desafios profissionais. “Nosso ritmo de crescimento não permite que esse tipo de sensação tome conta do pessoal. Quem não voltar das férias dando o máximo certamente vai ficar muito exposto pelo contraste com os demais”, afirma.

Ao longo de 2010, quem ficou um mês afastado encontrou uma empresa bem diferente do que quando saiu. Houve meses em que o número de funcionários aumentou 10% — os 2 700 colaboradores de janeiro vão se transformar em 5 000 até o fim do ano. Castellano percebeu a tendência, especialmente entre os executivos, de postergar ao máximo as férias. “Tento convencer o pessoal de que, nessa correria em que vivemos, o momento ideal não vai chegar nunca. E dou uma pressionada, dizendo que saber delegar é uma habilidade muito bem-vista pela companhia.”

Um dos grandes obstáculos para conseguir se desligar do trabalho durante as férias é o hábito de estar o tempo todo conectado aos negócios por meio de recursos tecnológicos. Mesmo quem está sob o sol de um paraíso tropical distante corre o risco de ter a tranquilidade abalada por notícias corporativas, caso insista em manter o celular ligado ou ter acesso aos e-mails durante o descanso. Para evitar esse risco, o executivo João Kepler, de 41 anos, investidor em novos projetos na internet, que se divide entre escritórios em Maceió e São Paulo, combinou com a mulher e os três filhos, com idade entre 6 e 11 anos, que ficaria totalmente “off-line” — inclusive com o celular desligado, o maior de todos os desafios para qualquer executivo — durante a semana em que a família viajou pelos Estados Unidos. 

“Inicialmente foi um esforço muito grande, porque sou muito conectado a todos esses aparelhinhos modernos. Mas deixei na empresa o telefone do hotel, com a orientação de que só me ligassem em caso de vida ou morte. Com isso, descobri que as coisas continuam andando sem mim”, diz Kepler. Para que não retornasse ao trabalho fisicamente extenuado, ele reservou mais alguns dias para a transição. “Quando voltamos para casa, tive tempo de curtir com as crianças os brinquedos que trouxemos da viagem e fazer mais alguns programas familiares, como ir ao cinema”, conta.

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