Os programas de MBA querem mais diversidade. Então, onde ela está?

Com a globalização do ensino superior, o desafio das instituições de ensino agora é aumentar a diversidade no corpo docente

Sentindo que a London Business School (Faculdade de Administração e Negócios de Londres) não estava dando apoio a alunos negros, Tabria Lenard e Cole Agbede fizeram o que qualquer candidato a MBA faria a respeito de algum problema: apresentaram ao Reitor François Ortalo-Magné um conjunto de slides para demonstrar seu ponto de vista. Um disse que a LBS não tinha professores negros.

Ortalo-Magné os corrigiu: Havia um.

“Ele reconheceu que não sabia se era pior não ter nenhum ou ter apenas um”, diz Lenard, 27, que escolheu a LBS em vez das escolas em seu país natal, os EUA. “Os números são assustadores. São assustadores para Londres e assustadores para 2020”. Lenard e Agbede, 29, fundaram o primeiro grupo Black in Business da LBS.

Mais de um em cada oito americanos são negros, de acordo com os dados do Censo dos EUA, um múltiplo dos 3.3% na Inglaterra e no País de Gales. No restante da Europa é mais difícil de quantificar, pois muitos países não coletam esses dados. Tampouco o fazem as associações comerciais das escolas de administração e negócios. Ainda assim, uma análise da revista Bloomberg Markets descobriu que homens e mulheres negros estão mal representados no setor de serviços financeiros – e nos programas de pós-graduação que fornecem essas competências.

Agora, desde que o assassinato de George Floyd, a custódia policial em Minneapolis gerou protestos em massa em todo o mundo, isso não é mais aceitável. “Aumentou muito o movimento em escolas e universidades de administração e negócios depois do movimento Black Lives Matter” (Vidas Negras Importam), diz Sally Everett, vice-reitora de educação da King’s Business School (Escola Real de Administração e Gestão de Negócios) em Londres e membro do comitê de igualdade, diversidade e inclusão da Associação Juramentada de Escolas de Gestão e Negócios (CABS).

As mudanças vêm de várias maneiras e não são uniformes. Algumas escolas estão se concentrando em aumentar o número de minorias sub-representadas em seus currículos e corpos docentes. Outras estão abordando a essência do próprio currículo da escola de administração e gestão de negócios: estudos de caso.

Tornar esses estudos de caso mais equitativos e destacar protagonistas de uma variedade de origens é uma parte da descolonização do currículo. Também faz parte de um movimento mais amplo nas universidades do Reino Unido para remover estátuas e ligações com patronos ricos que construíram suas fortunas com o protagonismo da Grã-Bretanha no comércio de escravos ou na exploração das terras colonizadas.

Alguns programas de MBA já melhoraram muito a representação entre as minorias étnicas. A Ross School of Business da Universidade de Michigan está relatando um número "sem precedentes" de minorias sub-representadas participando de seus programas, diz o Reitor Scott DeRue. Ross faz parte do Consortium, um grupo das 20 principais faculdades de administração e gestão de negócios dos EUA, da Yale à UCLA com o objetivo de incrementar a diversidade.

Dois terços dos 15 subordinados diretos de DeRue na Ross são mulheres ou membros de minorias étnicas. Em outubro, a escola nomeou seu primeiro reitor associado para Diversidade, Equidade e Inclusão, bem como um Diretor de Diversidade. A escola também lançou recentemente um concurso nacional para fomentar a diversidade nos estudos de caso.

Obviamente, ainda há muito trabalho a ser feito. O CABS entrevistou recentemente seus membros sobre as tentativas de diversificar seus currículos. Apenas 3% disseram que haviam concluído suas ações, enquanto mais da metade disse que não estava trabalhando ativamente para transformar seus quadros docentes.

Este se tornou um problema global. “Alguns desses casos estão ultrapassados, porque não há muitos deles para se falar sobre este novo ambiente demográfico, ou os desafios de liderar uma força de trabalho multigeracional, multiétnica e multigênero”, disse Sean Ferguson, negro, reitor associado e professor na Asia School of Business (Escola de Administração e Gestão de Negócios) em Kuala Lumpur, que está tentando melhorar a representação na região.

Enquanto isso, o segmento editorial deve se atualizar para fornecer materiais mais abrangentes de cursos agora com muita demanda. A Harvard Business School, que fornece quase 80% dos estudos de caso no mercado mundial por meio de sua ramificação, a Harvard Business Publishing, tem se apressado em diversificar os protagonistas em seus currículos desde que pesquisas com clientes nos Estados Unidos após a morte de Floyd em maio revelaram a diversidade racial como o principal foco.

“Nós entendemos que o que fazemos tem um impacto no resto da comunidade educacional”, diz Jan Rivkin, Copresidente da força-tarefa antirracismo da HBS criada em 1º de julho. Vários estudos com protagonistas não-brancos estão em desenvolvimento, diz. Rivkin “Queremos que os alunos de grupos sub-representados possam se ver nesses casos.”

Rivkin diz que áreas do plano de igualdade racial da HBS estão avançando em diferentes velocidades. Bolsas de estudo para alunos que trabalham em nome de comunidades marginalizadas estão disponíveis para os candidatos atuais, embora o trabalho de preparação de estudos de caso demore mais. “Começamos as coisas, mas ver os frutos do nosso esforço será algo que demandará muito mais tempo”.

O desafio de estudos de caso desatualizados é algo que Geethu Mattam, 26, vê em seus estudos na HEC Paris. Mattam faz parte dos 93% dos alunos da HEC que vêm de fora da França. Ela foi criada no Kuwait e trabalhou na Goldman Sachs em Bangalore, Índia, antes de decidir fazer um MBA. Ela desistiu de frequentar escolas de administração e gestão de negócios nos Estados Unidos, em parte porque sentiu um ambiente hostil fomentado pelo presidente Donald Trump. Ela também gosta de fazer parte de um diversificado corpo discente.

“Muito do aprendizado em seu MBA vem do aspecto experimental”, diz ela. “Ter um grupo bem diversificado – não apenas em termos de nacionalidades, mas também de origens – é incrível e tem sido uma incrível e enriquecedora experiência.”

Mesmo assim, Mattam deseja que aquilo que ela está estudando seja um pacote melhor para aqueles que o estão estudando. Os pontos cegos incluem Sudeste Asiático e América Latina – áreas geralmente mencionadas apenas com referência a empresas globais com operações nessas áreas. “Isso é algo que está faltando, mas não tenho certeza de quanto a escola seria capaz de mudar em pouco tempo”, diz ela.

Algumas escolas aproveitaram a oportunidade para fazer importantes mudanças. Nos Estados Unidos, a Owen Graduate School of Management (Owen Faculdade de Administração) da Vanderbilt University criou um curso de administração e gestão de negócios sobre como lidar com o racismo estrutural durante o verão, incluindo estudos de caso sobre o conflito envolvendo a Nike, o atleta dissidente Colin Kaepernick e a NFL .

A resposta dos alunos foi incrível. Eu tinha uma lista de espera e, no final das contas, 38 alunos participaram do curso ”, disse Mark Cohen, o criador do projeto. As avaliações dos alunos classificaram-no como o curso mais importante que já haviam feito. “Alguns até acharam que deveria ser obrigatório a todos os alunos.”

Quem leciona também importa. Ferguson está lutando para equipar a Escola de Negócios da Ásia com membros do corpo docente que se identifiquem e compartilhem as experiências dos alunos, que são, em sua maioria, do Sudeste Asiático. Dos 22 membros do corpo docente do ASB, apenas dois são de descendência malaia, em comparação com cerca de 30% dos alunos.

“O ensino superior se tornou muito globalizado”, diz Ferguson. “Todo mundo está procurando o melhor corpo docente.” É um problema que ele encontrou em seu cargo anterior na HKUST Business School em Hong Kong, onde os professores costumavam vir da China continental. “Há um bilhão de pessoas da China continental”, explica ele.

“O melhor dos melhores de lá pode ser demais para um lugar de 7 milhões de pessoas.” Isso também acontece nos Estados Unidos, onde a tendência de escolher professores no exterior deixa algumas escolas com poucos professores americanos. “Esse será um esforço de muito longo prazo”, diz Rivkin da HBS.

Lenard e Agbede montaram seu clube na LBS para acelerar o progresso. “Há educação e conscientização, mas qual é o plano de ação?” pergunta Lenard. “O que estamos fazendo para mudar a narrativa, e o que estamos fazendo para mudar o diálogo? Não podíamos mais ficar em silêncio e precisávamos medir e quantificar algumas dessas experiências para fazer algo a respeito, porque esse é o próximo passo. ”

O Reitor Ortalo-Magné, da LBS, reconhece a importância da mudança.

“Estamos em uma jornada, comprometidos em diversificar todos os nossos canais de talentos, que incluem funcionários e alunos, bem como professores”, diz ele.

Uma versão anterior deste artigo corrigiu o nome da escola de administração e gestão de negócios na legenda final da foto.

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