Com a nova NR-1, saúde emocional deixa de ser pauta pontual e passa a exigir mudanças que envolvem metas, processos, cultura organizacional e liderança (Malte Mueller /Getty Images)
Repórter
Publicado em 19 de fevereiro de 2026 às 09h09.
Durante anos, a saúde mental ocupou um espaço secundário nas empresas. O tema era frequente em campanhas internas ou iniciativas isoladas do RH, mas raramente tratado como parte da estratégia de gestão. A atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que entra em vigor em maio, muda esse cenário ao exigir que riscos psicossociais, como estresse crônico, sobrecarga, assédio moral e sexual e metas inalcançáveis sejam identificados e tratados de forma estruturada dentro do Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR).
Na prática, a norma amplia a responsabilidade das empresas sobre fatores que antes eram frequentemente atribuídos ao indivíduo. Agora, é a liderança que estará sob nova pressão.
Para Carla Martins, vice-presidente do SERAC, hub de soluções corporativas nas áreas contábil, jurídica, tributária e tecnológica, a mudança escancara fragilidades ainda presentes em muitos modelos de gestão.
“A NR-1 traz à tona algo que várias empresas evitavam enfrentar: estruturas baseadas em pressão constante e falta de organização cobram um preço alto das pessoas e do próprio negócio”, afirma.
No cenário global, a Organização Mundial da Saúde estima que 12 bilhões de dias úteis sejam perdidos anualmente por ansiedade e depressão, gerando uma perda de 1 trilhão de dólares para a economia mundo. No Brasil, seguno a Previdência Social, mais de 546 mil benefícios por incapacidade foram concedidos em 2025 por transtornos mentais e comportamentais, recorde histórico e alta em relação ao ano anterior.
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Com a nova exigência regulatória, saúde emocional deixa de ser pauta pontual e passa a exigir mudanças sistêmicas que envolvem metas, processos, cultura organizacional e, principalmente, liderança.
“Não se trata de transformar gestores em terapeutas, mas de exigir líderes mais preparados para organizar o trabalho de forma sustentável”, afirma Martins.
Ambientes marcados por urgência permanente, metas difusas e comunicação pouco clara tendem a aumentar erros, retrabalho e rotatividade. Neste contexto, programas de bem-estar desconectados da rotina real de trabalho tendem a perder eficácia.
“Não adianta falar de saúde mental mantendo metas incompatíveis com a capacidade das equipes. A norma força essa discussão”, diz a executiva.
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Martins aponta alguns movimentos que tendem a ganhar força com a nova norma nas empresas:
“A norma não cria um problema novo. Ela torna visível um custo que muitas empresas preferiam ignorar”, afirma Martins.
A nova regulamentação também impulsiona a demanda por programas de formação de líderes e consultoria organizacional. O SERAC, por exemplo, onde Martins trabalha, teve um aumento na procura por capacitação em temas ligados à gestão de pessoas, cultura corporativa e saúde emocional.
“A frente educacional respondeu por mais de R$ 40 milhões no período, com projeção de ultrapassar R$ 60 milhões em 2026”, diz a especialista.
Outras iniciativas também começam a surgir. A peopletech FairJob lançou neste ano a FairHealth, divisão voltada a programas corporativos baseados na chamada ‘Medicina do Estilo de Vida’. A proposta inclui acompanhamento multidisciplinar e espaços de escuta estruturada dentro das empresas.
“Muitas pessoas não encontram espaço no trabalho para falar sobre problemas familiares, financeiros ou emocionais. Quando esses temas ficam silenciados, acabam se manifestando no dia a dia da empresa”, afirma Fernando Brancaccio, diretor da FairJob.
A Chemitec Agro-Veterinária será a primeira empresa a implementar o chamado “Escritório do Cuidado”, espaço físico organizado pela FairJob e que contará com equipe multidisciplinar para acompanhamento dos funcionários.
“Desde 2019 realizamos pesquisas de felicidade interna e trabalhamos com pilares da Medicina do Estilo de Vida. O 'Escritório do Cuidado' reforça esse olhar e oferece suporte para questões pessoais que muitas vezes os funcionários não sabem como tratar”, afirma Luana Peçanha, gerente de RH da Chemitec Agro-Veterinária.
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Mesmo antes da atualização da NR-1, algumas empresas vinham reforçando iniciativas de bem-estar e saúde emocional, muitas vezes associadas à retenção de talentos e produtividade.
Na Heineken Brasil, a ‘Diretoria da Felicidade’ foi criada em 2022 com abordagem preventiva.
“Normalmente as empresas reagem quando o problema já apareceu. A ideia foi agir antes”, afirma Mauricio Giamellaro, CEO da companhia. Segundo ele, os afastamentos por saúde mental ficaram em 0,06% e o turnover caiu para 0,6%, abaixo da média do setor.
A Chilli Beans também adotou um programa de felicidade corporativa em 2023, inicialmente como projeto temporário. Após resultados positivos, a iniciativa foi incorporada à estratégia da empresa.
“O objetivo era que cada pessoa entendesse como aplicar ferramentas de bem-estar na própria vida e refletisse isso no ambiente de trabalho”, afirma Denize Savi, diretora de Felicidade. O turnover caiu de 31% para 28% em 2024, enquanto o EBITDA cresceu 33%.
Já a Vivo aposta em uma abordagem que começa dentro da empresa e chega aos dependentes dos funcionários. Além do programa Vivo Bem-Estar, que oferece até massagem no escritório, a companhia lançou o Hospital Púrpura, plataforma digital de atenção primária à saúde para funcionários e dependentes, com atendimento contínuo que começa no WhatsApp.
“Para nós, gente é a nossa melhor tecnologia. Cuidar das pessoas fortalece a empresa no longo prazo”, afirma Fernando Luciano, vice-presidente de Pessoas da Vivo.
Para Brancaccio, da Fairjob, o primeiro impacto concreto dessas iniciativas é reduzir perdas com afastamentos, baixa produtividade e rotatividade, o que ele chama de “stop loss” corporativo. Mas a tendência vai além.
“Muitas empresas estão olhando para inteligência artificial como prioridade, mas o cuidado com as pessoas tende a se consolidar como uma nova forma de inteligência organizacional”, afirma.
A atualização da NR-1 tende a acelerar a entrada definitiva da saúde emocional na agenda estratégica das empresas, mas o movimento ainda levanta dúvidas importantes. Até que ponto as organizações estão realmente preparadas para rever metas, processos e estilos de liderança, e não apenas criar iniciativas simbólicas de bem-estar? Será que as empresas estão dispostas a rever modelos de gestão baseados em pressão constante ou a NR-1 corre o risco de virar apenas mais uma exigência formal a ser cumprida?
A resposta pode definir não só o clima nas empresas, mas também a sustentabilidade dos resultados no longo prazo.
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