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‘Foi como aprender uma nova língua’: executiva mostra por que compliance precisa de finanças

Da comunicação ao compliance, Thatiana Martins defende repertório amplo para decisões mais estratégicas

Thatiana Martins, diretora de compliance da AXIA Energia

Thatiana Martins, diretora de compliance da AXIA Energia

Publicado em 10 de junho de 2026 às 18h00.

Thatiana Martins dos Santos Silva construiu uma carreira em áreas onde reputação, governança e risco caminham lado a lado. Formada em jornalismo, começou sua trajetória na comunicação corporativa da então Eletrobras, em 2006, e passou por funções ligadas à marca, planejamento estratégico, ouvidoria, governança e compliance até chegar à diretoria de compliance da AXIA Energia.

Hoje, ela atua em uma companhia que se apresenta como a maior empresa de energia elétrica do hemisfério sul, com operação em geração, transmissão, comercialização e soluções ligadas à energia renovável. Mas o caminho até essa posição passou por uma das transformações corporativas mais relevantes do setor elétrico brasileiro: a privatização da Eletrobras.

“Eu entrei na ouvidoria em julho de 2014, no meio da confusão”, lembra Thatiana ao citar o contato mais direto com temas de integridade, canal de denúncias e gestão de crises. A partir dali, sua trajetória passou a se aproximar cada vez mais de governança, riscos e compliance.

Da comunicação ao compliance

Antes de chegar à diretoria, Thatiana passou quase sete anos à frente da ouvidoria da Eletrobras. Depois, migrou para governança e compliance em um momento decisivo: a preparação da empresa para deixar de ser uma estatal de economia mista e se tornar uma companhia privada corporation (com controle pulverizado entre milhares de acionistas).

“Foi um divisor de águas também no mercado brasileiro”, afirma. Segundo ela, outras empresas que passaram ou ainda passam por processos semelhantes observam erros e acertos do modelo adotado pela Eletrobras.

Na prática, sua atuação envolveu organizar estruturas de governança, apoiar fluxos de aprovação, rever processos internos e ajudar a companhia a se preparar para um novo modelo de tomada de decisão.

Do ponto de vista de compliance, a mudança exigiu uma virada de cultura. “Uma empresa pública se relaciona com agentes públicos de uma forma, já a empresa privada que tem que se relacionar com agentes públicos é outra história”, diz.

O desafio era ainda maior por se tratar de uma companhia presente em praticamente todo o país, em um setor altamente regulado e com contato constante com órgãos públicos. Para Thatiana, esse foi um dos pontos mais sensíveis da transição para o compliance, junto com a grande virada do modelo de governança em si.

A virada de uma empresa estatal para uma corporation

A privatização ocorreu em junho de 2022. No início de 2023, a companhia já havia lançado um novo programa de compliance, adaptado ao modelo privado de corporation.

"Compliance é muito dia a dia. Ele precisa estar enraizado em todas as ações, em todos os pontos de contato da companhia"Thatiana Martins, diretora de compliance da AXIA Energia

A transformação continuou e, em outubro de 2025, a empresa deixou de usar a marca Eletrobras e passou a se chamar AXIA Energia. A mudança acompanhou um amplo reposicionamento de negócios, com expansão da base de clientes, tratamento de riscos históricos, novas soluções e desafios crescentes na gestão de integridade.

Para Thatiana, esse contexto tornou ainda mais evidente a necessidade de ampliar repertório. Ela já tinha experiência em comunicação, reputação, governança, riscos e compliance. Faltava aprofundar a leitura financeira.

“Me faltava, para essa visão de gestão, um conhecimento mais aprofundado em finanças estratégicas”, diz. “Era o que estava me faltando para ter uma visão mais completa da própria companhia e de como funciona essa engrenagem, em especial nas grandes empresas”, complementa.

Por que estudar finanças?

Foi nessa busca que Thatiana chegou ao FECC, programa de Finanças Estratégicas para C-Level e Conselheiros da Saint Paul. A formação é voltada a líderes que precisam tomar decisões financeiras com impacto estratégico, mesmo sem formação técnica na área.

O curso aborda temas como cenário econômico, governança corporativa, finanças estratégicas, valuation, M&A, funding, riscos financeiros, derivativos, finanças sustentáveis e ESG.

Para Thatiana, a experiência funcionou como uma mudança de lente. “Para mim, foi como aprender uma língua nova. É como se o olhar fosse meio nublado e aí, quando você consegue se conectar com aquela aprendizagem, o céu limpa”, afirma.

A metáfora resume o impacto do curso em sua rotina. Em uma empresa de capital aberto, listada no Brasil e em Nova York, decisões de compliance, governança e risco não podem ser separadas da lógica financeira. Alocação de capital, valuation, estrutura de risco e criação de valor fazem parte do mesmo sistema.

Finanças como linguagem da alta liderança

Entre os temas que mais marcaram sua jornada, Thatiana cita governança, comitês de auditoria e risco, future thinking, M&A, finanças sustentáveis e o módulo sobre startups.

Thatiana Martins, diretora de compliance da AXIA Energia

A parte de empresas menores e startups, segundo ela, abriu uma perspectiva nova. Acostumada a atuar em uma companhia de grande porte, com processos robustos e estruturas complexas, ela passou a observar outras formas de pensar negócios, risco e velocidade.

Outro diferencial foi a diversidade da turma. 

"Era uma turma com pessoas de backgrounds e experiências diferentes, vivendo realidades tão diferentes. Algumas coisas eu sabia mais pela experiência, outras eu sabia menos, e a gente trocava durante os almoços e os momentos juntos"Thatiana Martins, diretora de compliance da AXIA Energia

Essa troca ajudou a conectar o conteúdo à prática. Segundo ela, cada aula permitia relacionar conceitos financeiros a decisões e discussões reais dentro da companhia.

“A aplicação é prática efetivamente”, afirma. “A gente consegue conectar com o que está fazendo naquele momento”, ela traz.

O FECC, diz ela, ajudou a ampliar a compreensão sobre como as decisões próximas à alta administração são construídas. “O curso trouxe para mim uma visão bem mais ampla da tomada de decisão, de como se constrói isso”, Thatiana conta.

A formação ajudou a enriquecer sua leitura sobre movimentos estratégicos da companhia. Para uma executiva de compliance, isso significa entender melhor não apenas os riscos de uma decisão, mas também seus impactos sobre valor, estrutura e futuro do negócio.

O aprendizado contínuo como estratégia de carreira

Thatiana se define como uma aprendiz permanente. Em sua visão, líderes não podem ficar presos apenas ao cotidiano da empresa. É preciso levantar a cabeça, observar o que acontece fora e trazer novas referências para a organização e para a própria carreira.

“Passa um tempinho e eu quero voltar a estudar”, diz. “A gente vive num mundo de muita incerteza, de muita coisa acontecendo ao mesmo tempo.”

Essa disposição para aprender atravessa sua trajetória: da comunicação ao compliance, da governança à diretoria, da estatal à corporation, da reputação ao risco, e agora das finanças à tomada de decisão estratégica.

Em um mercado em que líderes precisam integrar dados, riscos, estratégia e governança, aprender essa língua pode ser o que separa uma participação técnica de uma contribuição realmente estratégica.

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