Cultivar e nutrir sua autenticidade como líder tem a ver com conseguir ocupar o seu papel sem se descaracterizar no processo (MoMo Productions/Getty Images)
Fundadora e Presidente do Conselho Cia de Talentos/Bettha.com
Publicado em 7 de setembro de 2026 às 19h01.
Última atualização em 7 de setembro de 2026 às 19h35.
Há alguns anos, eu tenho esse espaço aqui na Exame. Todo mês, publico um artigo no site e, a cada trimestre, um na revista impressa. Também posto no LinkedIn e no Instagram, dou entrevistas, faço palestras e participo de eventos.
Não estou relacionando essas atividades para me gabar, mas para descrever algo que é parte concreta da rotina de quem ocupa posições de gestão atualmente. Assim como eu, diversas pessoas em cargos de liderança fazem o mesmo: estão constantemente em exposição e interação pública, seja em ambientes digitais, seja em espaços físicos.
Fazemos isso porque gostamos (pelo menos, é esse o meu caso) e também porque faz parte, digamos, do "job description".
Quando alguém se torna líder, vem junto com a posição um aumento significativo de visibilidade e de responsabilidade simbólica, e, por vezes, esse destaque pode gerar certo desconforto. Isso acontece não necessariamente por timidez, mas por conta das expectativas que são depositadas sobre o que você deve dizer, como deve se posicionar e o que passa a representar além de si mesmo.
É a pressão para performar em diversos sentidos.
Para além da performance relacionada aos resultados da empresa, às metas e indicadores que precisam ser constantemente superados, existe certo anseio sobre como a liderança vai representar a empresa em público. Afinal, a imagem projetada por essas pessoas passa a ser percebida como uma extensão direta da cultura e dos valores da organização.
Diante disso, não é incomum que líderes e empresas entrem em um processo de simbiose, associando identidade pessoal à identidade institucional de forma cada vez mais estreita. Se, de um lado, tal movimento é natural, de outro, ele pode comprometer a autenticidade da liderança, dependendo de como esse alinhamento acontece na prática.
Nessa dinâmica, não existem necessariamente culpados. Incorporar e viver profundamente a cultura de uma organização faz parte da jornada executiva.
O problema é quando, em meio a tantos holofotes, expectativas de performance e símbolos de sucesso, lideranças que foram contratadas justamente por sua visão, repertório e forma própria de pensar acabam perdendo esse DNA.
São profissionais que, aos poucos, deixam de lado seu senso crítico, se comunicam de forma impessoal e reproduzem o que consideram ser o “padrão” esperado. No fim, se tornam mais um na multidão.
E isso não é bom nem para a pessoa, nem para a empresa. No primeiro caso, porque a liderança deixa de ser uma extensão coerente de quem ela é e passa a ser um papel difícil de sustentar no longo prazo. Com isso, líderes que deveriam inspirar acabam gerando distanciamento, com uma comunicação pouco genuína e nada motivadora.
Já no caso da empresa, o risco que a perda de autenticidade da liderança traz é a formação de um ambiente excessivamente homogêneo. Precisamos nos lembrar que é a combinação de diferentes formas de pensar, decidir e liderar que levam o negócio para um lugar de superação de desafios e de inovação consistente.
Para evitar esse cenário catastrófico para ambos os lados, é preciso descobrir como sustentar alinhamento sem abrir mão da individualidade na forma de liderar.
Eu sei, não é um processo simples e rápido, mas garanto que é possível.
Comece entendendo com clareza como a empresa se posiciona na prática: o que pode e o que não pode ser dito, qual é o tom esperado nas comunicações e onde existe ou não espaço para adaptação. Liderança exige capacidade de adaptação e ignorar isso não é autenticidade, é desalinhamento.
A partir daí, o próximo passo é identificar quais são os elementos que, de fato, definem o seu estilo. Como você toma decisão? Como constrói relações? Como comunica temas difíceis? É aí que a autenticidade se sustenta.
Em resumo: o que precisa ser ajustado é a forma, não o fundamento.
Você pode (e deve) ajustar a linguagem, o tom e a abordagem dependendo do contexto. Isso faz parte do papel. O que não pode acontecer é a substituição do seu diferencial por um modelo genérico.
No fim, cultivar e nutrir sua autenticidade tem a ver com conseguir ocupar o seu papel sem se descaracterizar no processo. E uma empresa que valoriza sua liderança cria espaço para isso.