Milton Beck, diretor-geral do LinkedIn para Brasil e América Latina: "O dono da sua carreira é você. A empresa pode oferecer ferramentas e oportunidades, mas quem precisa desenvolver as habilidades e construir sua trajetória é você" (Leandro Fonseca /Exame)
Repórter
Publicado em 31 de julho de 2026 às 11h24.
Última atualização em 31 de julho de 2026 às 11h29.
A inteligência artificial está mudando o mercado de trabalho em todos os níveis, mas um grupo sente essa transformação de forma ainda mais intensa: os profissionais em início de carreira. Se antes as vagas de entrada eram voltadas ao aprendizado de tarefas operacionais, agora as empresas esperam que esses jovens entreguem resultados desde o primeiro dia, apoiados pelas ferramentas de IA.
O tema foi um dos destaques da participação de Milton Beck, diretor-geral do LinkedIn para Brasil e América Latina, no Clube CHRO São Paulo, evento realizado pela EXAME no restaurante Dalva e Dito, na capital paulista, na última terça-feira, 21. O encontro reúne exclusivamente executivos de Recursos Humanos (CHROs) que integram o clube, iniciativa da EXAME com patrocínio da Alelo Benefícios e da Elofy Zucchetti.
Segundo Beck, a inteligência artificial está redefinindo o conceito de profissional júnior.
"O cargo continua sendo de entrada, mas a expectativa já é de alguém muito mais produtivo porque ele tem IA disponível. O trabalho mudou", afirma.
Na prática, isso significa que atividades repetitivas, que antes serviam como etapa inicial de aprendizado, passaram a ser realizadas por ferramentas de inteligência artificial. Como consequência, sobra para os profissionais iniciantes um conjunto maior de responsabilidades, exigindo pensamento crítico, capacidade analítica e domínio das novas tecnologias desde o começo da carreira.
Para Beck, a inteligência artificial não elimina a necessidade de contratar jovens profissionais, mas muda completamente a natureza das funções.
Em vez de dedicar horas à consolidação de planilhas, produção de textos padronizados ou pesquisas operacionais, os profissionais passam a atuar como revisores, analistas e tomadores de decisão, utilizando a IA como ferramenta de apoio.
"A produtividade esperada de um profissional de entrada hoje é muito maior do que era há poucos anos", afirma.
Essa mudança exige que recém-formados e estagiários dominem não apenas os conhecimentos técnicos da profissão, mas também saibam utilizar inteligência artificial para ganhar eficiência.
Apesar do receio de muitos profissionais, Beck acredita que o maior risco não está na tecnologia substituir pessoas, mas em deixar de acompanhar sua evolução.
"Vai ter perda de empregos. Algumas funções serão substituídas, principalmente as mais repetitivas. Mas a maior parte dos profissionais precisará se adaptar e desenvolver novas habilidades", afirmou.
Segundo ele, enquanto algumas ocupações deixam de existir, novas funções surgem justamente para desenvolver, supervisionar e integrar sistemas de inteligência artificial às empresas.
Além disso, o executivo lembra que a desaceleração nas contratações observada em alguns setores também reflete fatores econômicos globais, como juros elevados e incertezas internacionais, e não apenas o avanço da IA.
Na avaliação do diretor do LinkedIn, o conhecimento técnico continuará sendo importante, mas deixará de ser suficiente.
Empresas tendem a valorizar cada vez mais profissionais capazes de aprender rapidamente, resolver problemas complexos, trabalhar em equipe e utilizar inteligência artificial para aumentar sua produtividade.
Para Beck, competências como comunicação, criatividade, curiosidade e capacidade de adaptação passam a diferenciar os profissionais que conseguirão crescer em um mercado em constante transformação.
"As pessoas entram nas empresas pelas habilidades técnicas, mas muitas vezes saem pela falta das habilidades interpessoais", afirmou.
Outra consequência desse novo cenário é a mudança na forma como empresas recrutam.
Segundo Beck, cresce o movimento de contratação baseado em competências (conhecido como skills-first) no qual os recrutadores olham menos para o diploma e mais para aquilo que o candidato efetivamente sabe fazer.
"O mercado está deixando de buscar apenas diplomas e passando a procurar competências específicas", afirma.
Na prática, isso abre espaço para profissionais que investem continuamente em cursos, certificações e aprendizado, mesmo que tenham formações diferentes das exigidas tradicionalmente para determinada função. Beck, inclusive é um engenheiro que hoje lidera a plataforma de empregos no Brasil e América Latina.
Para o executivo, a principal mudança provocada pela inteligência artificial é que o aprendizado passa a ser permanente.
Quem ingressa hoje no mercado precisará atualizar conhecimentos ao longo de toda a carreira, incorporando novas tecnologias e desenvolvendo habilidades humanas que dificilmente serão automatizadas.
"O dono da sua carreira é você. A empresa pode oferecer ferramentas e oportunidades, mas quem precisa desenvolver as habilidades e construir sua trajetória é o próprio profissional", afirma Beck.
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