Geração Z, para Rodrigo Dib: a primeira na história inteiramente organizado 'sob demanda' (Freepik)
Especialista em mercado de trabalho
Publicado em 31 de março de 2026 às 18h39.
Quando uma empresa perde um talento jovem no terceiro mês, a narrativa que se instala nos corredores raramente questiona o ambiente. Questiona o jovem. "Ansioso demais." "Não soube esperar." "Essa geração não tem comprometimento."
O diagnóstico se repete com uma uniformidade que deveria, por si só, gerar suspeita — porque quando todo mundo concorda tão rapidamente sobre algo complexo, é sinal de que ninguém está pensando direito. O problema com esse diagnóstico não é que seja completamente falso e sim que para na parte mais cômoda.
Se o problema é só comportamental, a solução é simples: corrigir os jovens, treinar resiliência, pregar paciência.
Mas se o que chamamos de impaciência for, na verdade, uma incompatibilidade estrutural entre um modelo de trabalho desenhado para outro mundo e uma geração formada em condições radicalmente diferentes, então a conversa muda de tom — e de responsável. Esse segundo caminho é o que o debate corporativo brasileiro insiste em não tomar.
Nenhuma geração é resultado só dela mesma. Como sempre falo em fóruns que participo sobre o tema e também no meu livro “O Mundo é seu, mas calma lá”, uma geração é sempre produto direto do contexto em que cresceu.
E esse contexto, no caso da Geração Z, é o primeiro na história humana inteiramente organizado sob demanda: streaming que eliminou a grade fixa, e-commerce que encurtou a espera de semanas para horas, comunicação que tornou distância geográfica irrelevante, e agora inteligência artificial que comprime em segundos o que levaria horas de pesquisa.
Segundo o IBGE, mais de 90% dos jovens brasileiros entre 15 e 24 anos usam a internet diariamente. Não é dado de acesso — é dado de formação. É o ambiente em que aprenderam o que é normal esperar, o que é razoável exigir, o que significa eficiência.
A pergunta que o mercado evita fazer é simples: por que esperaríamos que essa geração chegasse ao trabalho com a mesma relação com tempo e hierarquia que um profissional formado nos anos 1990 — quando conhecimento era escasso, carreira era linear e referências de sucesso eram locais e geracionais?
Não é a mesma base cognitiva. Não é o mesmo repertório. Não é razoável esperar o mesmo comportamento e chamar de defeito quando ele não aparece. A narrativa dominante insiste em falta de comprometimento, mas os números contam uma história diferente.
De acordo com o Deloitte Global Survey 2024, 44% da Geração Z rejeita empregos sem aprendizado contínuo ou desenvolvimento claro. Não é fuga do trabalho — é fuga da estagnação.
Já o Gallup State of the Global Workplace 2024 aponta que apenas 23% dos jovens profissionais se consideram engajados. O número baixo não reflete preguiça, mas desconexão com estruturas que não fazem sentido.
Há ainda o dado que ninguém gosta de colocar na mesma frase que a crítica aos jovens: o Fórum Econômico Mundial estima que 44% das habilidades profissionais devem mudar até 2027.
Isso significa que o mercado que cobra paciência para aprender "o jeito certo" está admitindo que esse "jeito" tem prazo de validade curto. Existe uma incoerência aqui: empresas pedem adaptabilidade como competência, mas resistem quando ela aparece na forma de questionamento do status quo.
Existe uma ironia específica nesse debate. As empresas que mais encantaram essa geração, moldando seus valores sobre cultura e propósito, são as mesmas que nos últimos dois anos protagonizaram as maiores demissões em massa e reverteram políticas de trabalho flexível.
Google, Meta, Amazon: todas voltaram a cobrar presença e controle. A Gen Z sente que comprou um ingresso para um show que foi cancelado na metade. Isso cria uma tensão real: a geração que viu a promessa de que o trabalho poderia ser diferente encontra um mercado que recua dessa promessa.
O que as organizações que funcionam já entenderam é simples: pararam de usar o tempo como principal métrica de valor. Elas adotaram ciclos de feedback mais curtos, critérios de crescimento baseados em entrega e clareza sobre trajetória — não como promessa vaga, mas como contrato transparente.
Oferecem autonomia com responsabilidade e flexibilidade personalizada. O detalhe revelador é que essas mudanças melhoram o desempenho em todas as faixas etárias. Profissionais sêniores também respondem melhor a menos burocracia. O problema nunca foi a geração.
Estamos em 2026. A inteligência artificial generativa já mudou o que significa produzir e gerar valor. Um trabalho que levava um dia pode ser feito em horas. Isso obriga uma revisão que o mercado adia: se a produtividade mudou, por que promoção e salário ainda estão associados a "anos de casa" e não a entrega consistente?
Por que carreira ainda é pensada como espera, e não como evolução verificável? Seguir medindo esforço pelo relógio é ineficiência. Construção de carreira exige consistência e esforço, mas o que a Geração Z desafia é a lógica de que o desenvolvimento precisa ser lento por padrão e que a hierarquia vale mais que a entrega.
A pergunta útil nunca foi "como corrigimos essa geração?". A pergunta útil é: o que o nosso modelo precisa mudar para não perder quem vai sustentar o mercado nas próximas duas décadas? Sinais ignorados viram custo em rotatividade e engajamento perdido.
No final, a pergunta não é sobre eles. É sobre nós. Estamos dispostos a revisar o que sempre foi feito com a mesma velocidade que exigimos deles? Continuar dando respostas antigas a um mundo novo não é sabedoria, é apenas o diagnóstico errado repetido com confiança.