Marcelo de Lucca, sócio da MAIO
Publicado em 21 de maio de 2026 às 17h00.
Última atualização em 22 de maio de 2026 às 09h58.
A carreira executiva costuma ser narrada como uma linha ascendente: analista, coordenador, gerente, diretor, CEO. Na prática, porém, a passagem da média liderança para a alta gestão não é apenas uma promoção — é uma mudança de natureza.
Para Marcelo de Lucca, sócio da MAIO, consultoria dedicada à contratação de altos executivos e conselheiros, esse momento funciona como uma espécie de “processo de provação” para quem deseja ocupar uma cadeira diretiva.
Com quase 30 anos de experiência em executive search, De Lucca começou a trajetória em finanças, passou pelo mercado financeiro e pela área financeira de empresas, até migrar para recrutamento executivo no fim dos anos 1990.
Desde então, acompanhou diferentes ciclos de transformação nas empresas brasileiras — da crise financeira de 2008 à pandemia, passando pela instabilidade política e econômica no Brasil.
Agora, segundo ele, uma nova variável reorganiza o jogo: a inteligência artificial.
Na visão de De Lucca, profissionais que chegam à média gerência normalmente são reconhecidos por sua capacidade técnica: dominam uma área, entregam resultados e se tornam referência em determinado campo. Mas, à medida que assumem equipes maiores, o desafio muda.
Esse é o ponto de virada. Para escalar na carreira, o executivo deixa de ser avaliado apenas pelo que sabe fazer diretamente e passa a ser medido pela capacidade de mobilizar pessoas, remover obstáculos, influenciar decisões e garantir execução por meio de estruturas maiores.
Segundo De Lucca, três competências ganham peso nesse processo:
Mas a liderança, neste caso, não se limita à gestão da equipe direta. Envolve liderar lateralmente, influenciar superiores, gerir stakeholders e construir reputação dentro e fora da organização.
Ao chegar à cadeira diretiva, o conhecimento técnico continua importante, mas deixa de ser o principal diferencial. A alta liderança exige um repertório menos operacional e mais sistêmico. O diretor precisa entender tendências, avaliar riscos, enxergar oportunidades, alocar recursos, orientar times e conduzir mudanças.
“A execução é através das estruturas, mas essa pessoa, diretor ou diretora, tem um papel muito importante nisso”, diz.
Adaptabilidade virou competência central
Além de comunicação, influência e liderança, De Lucca destaca a adaptabilidade como uma das principais competências para quem deseja chegar ao topo. O conceito, para ele, vai além da flexibilidade genérica — inclui adaptabilidade mental, emocional e operacional.
A resiliência também entra nesse conjunto. Não como discurso motivacional, mas como capacidade prática de atravessar ciclos difíceis sem perder consistência na tomada de decisão.
Essa competência, afirma De Lucca, tornou-se ainda mais relevante porque o ambiente corporativo acompanha as mudanças da sociedade.
Para profissionais que desejam sair da média gestão e chegar à alta liderança, De Lucca recomenda buscar mentores que tenham vivido uma transição semelhante alguns anos antes.
Idealmente, esses mentores devem estar na própria empresa ou em companhias do mesmo setor — ou de setores correlatos. Isso porque, além de compartilhar as dores da transição, eles podem trazer leitura de mercado, dinâmica de negócios e aprendizados práticos sobre o caminho até a diretoria.
Mas há outra figura essencial nessa jornada: o sponsor. Diferente do mentor, que aconselha, o sponsor abre portas. Ele ocupa posições de influência dentro da organização e pode defender o nome de um profissional em discussões de sucessão, promoção ou projetos estratégicos.
De Lucca também observa uma tendência de rejuvenescimento da alta liderança. Hoje, segundo ele, já não é raro encontrar CEOs de empresas relevantes na faixa dos 40 e poucos até os 50 anos — algo menos comum há 10, 15 ou 20 anos.
Tecnologia, mudanças culturais e novas dinâmicas geracionais ajudam a explicar esse movimento.
A resposta mais provável, segundo De Lucca, está na diversidade etária. Combinar lideranças jovens e experientes pode trazer benefícios importantes para as companhias.
As empresas hoje convivem com três ou quatro gerações trabalhando ao mesmo tempo. Esse ambiente multigeracional torna a liderança mais complexa — e mais estratégica.
Para De Lucca, saber extrair o melhor de cada geração, conectar perfis diferentes e criar uma dinâmica produtiva entre profissionais com expectativas distintas é uma habilidade cada vez mais valorizada.
Quem consegue fazer isso ganha exposição, amplia influência e pode acelerar a própria carreira.
No fim, a trajetória até a alta liderança parece depender menos de uma fórmula e mais de uma combinação: competência técnica para chegar à média gestão, repertório comportamental para avançar, capacidade de execução para sustentar o cargo e adaptabilidade para continuar relevante.