Wagner não é um outsider que, de repente, chamou a atenção da indústria internacional. Ele vem, há anos, tomando decisões alinhadas à sua visão de mundo (Reprodução/Globo de Ouro)
Colunista
Publicado em 3 de fevereiro de 2026 às 19h44.
Por Renata Vegha, Estrategista de Carreira e Marca Pessoal e Fundadora da Farol RV
A vitória de Wagner Moura no Globo de Ouro tem mais a ver com a sua marca pessoal do que parece. Porque aquele prêmio de Melhor Ator em Drama foi um reconhecimento artístico, é claro, mas, mais ainda, foi o resultado visível de uma marca pessoal construída com coerência ao longo do tempo. Wagner Moura não “ganhou agora”. Ele colheu agora.
Muito se falou – e ainda se falará, com a campanha do Oscar pela frente – sobre O Agente Secreto, mas sugiro olhar além do filme. Wagner não é um outsider que, de repente, chamou a atenção da indústria internacional. Ele vem, há anos, tomando decisões alinhadas à sua visão de mundo, escolhendo projetos que dialogam com suas convicções estéticas e políticas. Como ele mesmo contou na Mesa Redonda de Atores do The Hollywood Reporter, já recusou convites para atuar nos Estados Unidos quando exigiam que falasse inglês sem qualquer sotaque. Preferiu perder espaço em certos circuitos para ganhar densidade simbólica. Por outro lado, escolheu integrar o elenco de O Agente Secreto justamente para trabalhar sob a direção de Kleber Mendonça Filho, com quem já identificava afinidades na forma de ver o mundo desde que assistiu a O Som ao Redor (2012), do mesmo diretor.
Essa clareza na narrativa da carreira fez com que as redes decretassem: “Wagner tem o molho”. E isso pesa ainda mais em um ano em que muitas marcas optam por campanhas “em cima do muro”, muitas vezes insossas, por medo do cancelamento. Marca forte não é, necessariamente, sinônimo de popularidade; mas certamente é de posicionamento claro. Wagner Moura nunca foi o ator que tenta agradar todo mundo.
Esse padrão se repete na história: firmar um posicionamento cobra seu preço, contudo é justamente isso que constrói autenticidade e coerência. Em 1973, Le Duc Tho recusou o Nobel da Paz por considerar que a paz no Vietnã não havia sido, de fato, estabelecida. Mais recentemente, Hayao Miyazaki não compareceu ao Oscar que premiou Oppenheimer, em 2024, mesmo com seu filme O Menino e a Garça levando a estatueta de Melhor Animação, e já havia recusado a premiação em 2003 por A Viagem de Chihiro, por não querer visitar um país que bombardeava o Iraque.
É aqui que entra 2026, um ano em que esperamos muitos ouros pela frente – e torcemos para que não sejam de tolo. Para os mais místicos, a soma dos algoritmos de 2026 resulta em 1, número que carrega a força dos inícios, da mudança e do movimento, associado à identidade, à autoria e à coragem de ser do próprio jeito. Aos céticos, vale ao menos observar os paralelos: teremos um ano politicamente intenso, com eleições, e também um ano de Copa do Mundo, na qual identidade, símbolos e narrativas coletivas ganham força. Não é um ano de “fazer mais”. É um ano de ser mais.
Copa do Mundo é um projeto de longo prazo: anos de treino, estratégia, investimento e uma cadeia inteira de responsabilidades. Ouro não nasce de um lance isolado, assim como um Globo de Ouro não se conquista em uma única noite.
No mundo profissional, líderes, executivos, empreendedores e criadores já não são lidos apenas por seus cargos ou resultados, mas como marcas pessoais inseridas em contextos sociais, culturais e políticos.
A oportunidade reside na autenticidade e no posicionamento, mesmo em tempos frios, quando vemos marcas mornas tentando não desagradar ninguém. O problema é que silêncio também comunica. Ambiguidade pode ser confortável, mas não é estratégica.
Em um país pouco partidário, afinal votamos mais em pessoas do que em projetos, a leitura das marcas pessoais no Congresso é tão decisiva quanto a escolha do nome principal na urna. Quem não aprende a avaliar trajetória, coerência e capacidade de entrega acaba apostando só no marketing de campanha.
Marca pessoal, futebol e eleições não são Fla-Flu, Ba-Vi ou Corinthians e Palmeiras, resolvidos em 90 minutos. São Copa do Mundo: exigem constância e visão de jogo.
Em um ano de disputas simbólicas tão evidentes, o verdadeiro ouro estará na capacidade de agir com consistência, clareza e compromisso contínuo. Quem vive de pico em pico vira refém do próximo escândalo, da próxima onda, do próximo trending topic. O ouro no mercado, no campo, no Congresso e na própria vida, fica com quem ganha o jogo a longo prazo. Avalie, torça e administre marcas pessoais - é bom para o Globo e só isso poderá conquistar o ouro.