Tecnologia e serviços lideram a busca por produtividade na economia brasileira em 2026 (Getty Images)
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Publicado em 3 de março de 2026 às 15h00.
Por Lisandro Vieira*
As projeções para a economia brasileira em 2026 indicam um cenário de crescimento mais moderado, pressionado por juros elevados, crédito caro e um ambiente global mais cauteloso.
Ainda assim, o setor de serviços, especialmente o de tecnologia, tende a seguir como um dos principais vetores de sustentação da atividade econômica.
Segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI), a expectativa é de crescimento de 1,9% para o segmento, impulsionado pela continuidade da transformação digital.
Globalmente, o setor de serviços vem crescendo de forma consistente e ganhando protagonismo em relação ao setor de bens.
No Brasil, esse fenômeno é ainda mais evidente em momentos de restrição de crédito. Diante de um ambiente de juros altos, as empresas passam a priorizar investimentos com retorno mais previsível e impacto direto na eficiência operacional.
Nesse contexto, a tecnologia funciona como uma verdadeira infraestrutura de produtividade: automação de processos, uso intensivo de dados, inteligência artificial e integração de sistemas substituem rotinas manuais.
Essas soluções reduzem desperdícios, aumentam a previsibilidade e fortalecem a competitividade das companhias.
Ou seja, a transformação digital deixou de ser apenas uma estratégia de crescimento e passou a ser, em muitos casos, uma condição de sobrevivência.
Mesmo em anos de desaceleração econômica, a busca por eficiência, redução de custos e ganho de produtividade sustenta a demanda por serviços. Além disso, esse processo também movimenta cadeias inteiras do setor de serviços.
Investimentos recorrentes em cloud, softwares, integrações, serviços gerenciados, cibersegurança e dados impulsionam áreas como logística mais inteligente, meios de pagamento digitais, atendimento ao cliente, compliance e governança.
Em um ambiente de crédito restrito, a tecnologia exerce papel direto na preservação de margens, ajudando companhias de diferentes setores a melhorar giro de caixa e controle de riscos operacionais.
No entanto, o Brasil ainda enfrenta um desafio estrutural importante de grande parte dos serviços de tecnologia consumidos internamente serem importados.
Isso pode custar de 40% a 50% a mais para o país, considerando tributos, câmbio e encargos financeiros, o que gera ineficiências tributárias e cambiais relevantes.
Com o dólar elevado, esse custo se torna um entrave adicional à competitividade das empresas brasileiras.
Diante disto, companhias que dominam operações internacionais, câmbio e tributação passam a desempenhar um papel estratégico ao ajudar outros setores da economia a reduzir custos e melhorar a eficiência financeira.
Portanto, aqueles que entendem como estruturar operações internacionais, aproveitar acordos fiscais e desenhar rotas eficientes de pagamento e recebimento conseguem transformar volatilidade em vantagem competitiva.
Com crescimento interno mais lento, a exportação de serviços e softwares surge como uma das maiores oportunidades para o Brasil.
Serviços digitais escalam sem depender de infraestrutura logística pesada. Além disso, exportar serviços permite diversificar receitas, reduzir a dependência dos ciclos domésticos e ampliar a entrada de moeda forte.
O dólar alto penaliza empresas que apenas consomem tecnologia estrangeira, mas favorece aquelas que exportam.
Internacionalização, nesse contexto, deixa de ser apenas uma estratégia de crescimento e passa a ser uma estratégia de sobrevivência e retenção de capital humano.
O Brasil, porém, explora muito pouco este mercado (menos de 0,1% das empresas brasileiras exportam serviços, um percentual extremamente baixo quando comparado a outras economias).
Fora isso, apesar de representar historicamente mais de dois terços do PIB brasileiro, o setor de serviços ainda precisa de mais protagonismo nas políticas públicas e no debate regulatório.
Serviços digitais, globais e modernos não são um puxadinho da indústria ou do comércio, mas sim um setor autônomo, estratégico e fundamental para a competitividade do país.
Em 2026, o fortalecimento deste mercado se apresenta como uma oportunidade concreta para sustentar a atividade econômica, ampliar a produtividade e preparar o país para ciclos de crescimento mais consistentes.
Criar um ambiente regulatório previsível, estimular a exportação de serviços e incorporar estratégia cambial e tributária ao centro das decisões empresariais são passos essenciais.
É preciso que o nosso país deixe de perder espaço em uma disputa global cada vez mais baseada em serviços, dados e tecnologia.
*Lisandro Vieira é Founder & CEO da WTM, Conselheiro de Administração da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB) e diretor do GT de internacionalização da Associação Catarinense de Tecnologia (ACATE).