PMEs se digitalizaram sem igual dedicação à segurança cibernética (Freepik)
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Publicado em 27 de março de 2026 às 13h00.
O Brasil registrou 315 bilhões de tentativas de ataques cibernéticos em 2025, concentrando 84% das investidas em toda a América Latina, segundo relatório da Fortinet. O volume impressiona, mas o alerta mais urgente está na vulnerabilidade de quem sustenta a economia nacional: as pequenas e médias empresas, PMEs.
Responsáveis por sete em cada dez empregos formais no país, segundo o Sebrae, as elas se tornaram o elo mais frágil da cadeia digital. Em um ambiente de alta conectividade, impulsionado por Pix, e-commerce, sistemas em nuvem e automação financeira, essas empresas avançaram rapidamente na digitalização, mas nem sempre na mesma velocidade em governança e proteção.
Enquanto o crime se profissionaliza e se automatiza, parte relevante das PMEs ainda opera com estruturas básicas de segurança, transformando eficiência tecnológica em exposição estratégica.
“Nos últimos anos, as PMEs digitalizaram processos numa velocidade inédita, mas não amadureceram na mesma proporção em governança e segurança. Criamos empresas altamente conectadas e operacionalmente dependentes da tecnologia, mas estruturalmente frágeis. Os criminosos perceberam isso antes dos próprios empresários”, afirma o especialista em segurança cibernética e CEO da Security First, Fernando Corrêa.
A disparidade também aparece nos investimentos. Enquanto grandes corporações destinam cerca de US$14 milhões anuais à cibersegurança, empresas de menor porte investem, em média, US$275 mil, segundo estudos de mercado compilados pela SBC Horizontes. A diferença não é apenas orçamentária, é estratégica.
Os vetores mais comuns continuam sendo phishing, ransomware e exploração de credenciais comprometidas, ataques que exploram falhas técnicas e comportamentais.
“O ransomware deixou de ser um ataque isolado e virou modelo de negócio. Existe cadeia de suprimento, metas financeiras e especialização técnica do lado do crime. Quando uma PME é atacada, ela não está enfrentando um hacker improvisado, mas uma operação estruturada, com inteligência e escala. E muitas vezes ela sequer possui plano formal de resposta”, explica Corrêa.
O custo médio de recuperação após um ataque no Brasil já chega a milhões de reais. Para muitas PMEs, isso representa valor superior ao próprio faturamento anual, um impacto que pode significar fechamento definitivo.
E quando uma PME fecha, o efeito ultrapassa o CNPJ. A fragilidade digital dessas organizações se transforma, portanto, em risco econômico sistêmico.
O que antes era ação pontual tornou-se indústria altamente automatizada. Com o uso crescente de inteligência artificial, ataques são personalizados em escala, explorando comportamento humano com precisão cada vez maior.
“A assimetria hoje é brutal. O criminoso usa automação, inteligência artificial e dados vazados para escalar ofensivas. Já muitas PMEs ainda dependem de processos manuais, políticas informais e percepção de que ‘isso não vai acontecer comigo’. Esse descompasso é exatamente o que sustenta o crescimento do cibercrime”, alerta o especialista.
Empresas que operam cadeias críticas ou atuam como intermediárias de sistemas financeiros tornam-se portas de entrada estratégicas. A lógica é simples: comprometer o elo mais fraco para atingir estruturas mais robustas.
As vulnerabilidades mais comuns nas PMEs continuam sendo básicas como: ausência de autenticação multifator, senhas frágeis, backups não isolados e equipes sem treinamento contínuo. São falhas conhecidas e evitáveis.
“O maior erro das PMEs é tratar segurança como um projeto pontual ou como responsabilidade exclusiva da TI. Segurança cibernética é continuidade de negócio. É governança. É reputação. É acesso a crédito e a mercado. Ao não incorporar isso à estratégia empresarial, a organização está assumindo riscos existenciais”, afirma Corrêa.
Existe um desalinhamento claro entre discurso e prática. A pesquisa da Hiscox mostra que 34% dos executivos admitem que suas organizações não possuem preparo adequado para lidar com ciberataques, mesmo com 75% classificando a cibersegurança como "muito importante" para os negócios. Portanto, os executivos reconhecem a importância do tema, mas poucos estruturam métricas, orçamento adequado e plano de resposta.
“O custo de prevenção raramente ultrapassa uma fração do impacto de um incidente grave. A pergunta não é mais se a empresa será alvo, mas quando. E a diferença entre sobreviver ou fechar as portas estará diretamente ligada ao nível de maturidade em segurança”, conclui Fernando Corrêa.