Em vez do sistema atual baseado em lotes, o setor passa a um modelo de rastreamento individual com registro informatizado (Getty Images/Getty Images)
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Publicado em 6 de janeiro de 2026 às 17h00.
Por Henrique Galhardo*
Vivemos um momento decisivo para a pecuária brasileira.
A globalização dos mercados, a intensificação das pautas ambientais e sanitárias, bem como as mudanças regulatórias em escala internacional, tornaram a rastreabilidade bovina não apenas uma questão de governança ou reputação, mas de sobrevivência econômica.
O Brasil, maior exportador mundial de carne bovina, não pode mais adiar a transição para sistemas robustos de rastreabilidade, ou ficará para trás.
Nos últimos anos, o Plano Nacional de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos (PNIB) foi estruturado com o objetivo de assegurar a identificação individual de cada animal desde o nascimento até o abate.
Esse plano representa um avanço estruturante: em vez do sistema atual baseado em lotes - que se mostra bem limitado para as necessidades mercadológicas modernas -, passa-se a um modelo de rastreamento individual.
Isso inclui registro informatizado, integração dos sistemas estaduais e federais, e certificação da movimentação dos animais.
E por que isso é urgente?
Primeiro, porque existe uma demanda externa crescente por transparência e responsabilidade socioambiental.
Um exemplo claro é a entrada em vigor da European Union Deforestation Regulation (EUDR), aprovada em 2023 e que irá exigir o cumprimento de critérios ainda mais rigorosos a partir de 30 de dezembro de 2025.
A regulação impõe que produtos agrícolas exportados à União Europeia - o que inclui carne bovina - demonstrem que não provêm de áreas irregulares e exigem rastreabilidade desde a origem.
Para isso, é necessário não só identificar o animal, mas acompanhar seu histórico completo de fazendas por onde passou.
Isso garante que nenhuma dessas áreas incorpore uso da terra ilegal, algo difícil de atender sem rastreabilidade individual e georreferenciamento confiável.
Essa exigência regulatória assume ainda mais importância quando consideramos que a rastreabilidade de gado é, por si só, um instrumento de controle sanitário e ambiental.
A adoção de um sistema como o PNIB, que engloba registro individual e base de dados nacional, melhora drasticamente a capacidade de resposta a surtos de doenças.
Isso aumenta a segurança alimentar e fortalece a credibilidade da carne brasileira no exterior. É um passo fundamental a ser dado.
Além disso, a rastreabilidade pode representar um diferencial competitivo para o Brasil.
Mercados consumidores – e, aqui, não falo apenas da União Europeia, mas também na Ásia e nos EUA, outros players estratégicos para a pecuária nacional - têm demonstrado preocupação crescente com aspectos de sustentabilidade, legalidade fundiária e transparência da origem dos alimentos.
Garantir rastreabilidade completa e confiável pode ser o que separa os players aptos a exportar para mercados mais exigentes daqueles que serão permanentemente excluídos.
No entanto, os desafios técnicos e operacionais para implementar o PNIB de forma eficaz são imensos.
Em um país continental, com uma pecuária fragmentada, sistemas de produção muito diferentes de região para região, e uma cadeia de fornecedores muitas vezes complexa, é difícil consolidar um banco de dados unificado.
Garantir que todas as propriedades adotem a identificação individual e que os dados estejam sempre atualizados exige investimentos em tecnologia, infraestrutura e capacitação.
Há também riscos reputacionais e comerciais: a própria experiência recente da carne bovina brasileira com auditorias internacionais aponta para algumas fragilidades.
Uma auditoria da União Europeia identificou falhas nos controles de rastreabilidade e sanitários em determinados exportadores, o que levou à suspensão temporária de algumas vendas.
Isso evidencia que o sistema atual, até mesmo para os exportadores, é insuficiente diante das exigências externas: a rastreabilidade ainda é um ponto vulnerável e nós temos urgência em corrigir essa rota.
Portanto, a adoção plena e ágil de sistemas como o PNIB não é mais uma opção, mas uma necessidade estratégica.
O Brasil precisa apostar em rastreabilidade individual, tecnologia de monitoramento, sistemas de dados integrados e transparência em toda a cadeia produtiva.
Só assim poderá consolidar sua posição no mercado global de carne com competitividade, atendimento às normas internacionais e confiança de consumidores e importadores.
Adiar esse processo significa correr o risco de perder mercados importantes, enfrentar barreiras sanitárias e ambientais, e comprometer a reputação da carne brasileira.
Em um mundo em que a sustentabilidade e a rastreabilidade passam a ser exigências centrais, indo muito além das exigências de marketing, mas focada também em regulação e compliance, o Brasil não pode mais se dar ao luxo da inércia.
O sucesso e o futuro da pecuária brasileira dependem de atitudes práticas e contundentes.
*Henrique Galhardo é CEO da BoviChain, agtech voltada a garantir transparência e informação na jornada completa da carne bovina.