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Páscoa mais cara pressiona o varejo e eleva exigências operacionais

Com alta nos preços dos ovos e consumidor mais seletivo, empresas enfrentam desafios que vão de conversão digital à prevenção de perdas e gestão de equipes

Especialistas do varejo analisam pormenores da Páscoa 2026 (Emma Farrer/Getty Images)

Especialistas do varejo analisam pormenores da Páscoa 2026 (Emma Farrer/Getty Images)

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Publicado em 31 de março de 2026 às 07h07.

A Páscoa de 2026 acontece sob um novo contexto de consumo: mesmo com a recente queda nas cotações internacionais de cacau e açúcar, os preços dos ovos de chocolate seguem pressionados no varejo, com altas que chegam a mais de 20% em relação ao ano passado. 

Esse descompasso entre o custo das commodities e o valor final nas prateleiras reflete uma cadeia mais complexa, que envolve logística, estoques, câmbio e estratégias comerciais, e impacta diretamente o comportamento do consumidor, cada vez mais sensível a preço e menos fiel a marcas, e exige também uma maior preparação das empresas.

De acordo com o Benchmark de Comércio Unificado (UCB) para a América Latina 2026, desenvolvido pela Manhattan Associates em parceria com a Incisiv

  • 37% das capacidades que diferenciavam varejistas em 2024 já se tornaram básicas em 2026,
  • 65% dos consumidores da região esperam experiências de compra mais rápidas e com menos fricção.

Na prática, isso eleva o nível de exigência justamente em períodos de pico, como a Páscoa, e impacta toda a jornada de consumo, da aquisição e conversão nos canais digitais aos desafios operacionais dentro das lojas físicas, como segurança e prevenção de perdas. 

Datas sazonais expõem a maturidade operacional do varejo

Na avaliação de Stefan Furtado, Gerente Regional da Manhattan Associates, a data evidencia o nível de preparo das operações varejistas. 

“O consumidor está mais exigente, híbrido e menos previsível, o que pressiona as empresas a integrarem canais, estoques e experiências de ponta a ponta. 

Datas como a Páscoa deixam claro quais varejistas já operam com uma lógica de comércio unificado e quais ainda enfrentam rupturas na jornada”, afirma.

Segundo o executivo, embora a maturidade média do varejo latino-americano tenha avançado de 31% para 48% em dois anos, o principal desafio agora está na execução consistente. 

“Não se trata mais de ter determinadas capacidades, mas de conseguir operá-las de forma integrada, com visibilidade e em tempo real, especialmente em períodos de pico. É aí que entram temas como orquestração de pedidos, uso das lojas como hubs logísticos e maior inteligência na gestão de estoque”, completa.

Segurança e prevenção de perdas em períodos de pico

Esse desafio de execução em períodos de pico não se limita à logística e ao atendimento. Com produtos mais caros e maior fluxo de consumidores nas lojas, a Páscoa também amplia a exposição a perdas no varejo físico, adicionando uma nova camada de complexidade à operação.

“Itens mais caros se tornam naturalmente mais visados para furtos e outras ocorrências, especialmente em datas que concentram grande movimentação e produtos de maior valor agregado, o que exige um reforço nas estratégias de prevenção”, afirma Rodrigo Tessari, CEO da Deconve, startup catarinense especializada em prevenção de perdas no varejo físico.

Nesse cenário, o uso de tecnologias como o reconhecimento facial tem ganhado espaço como aliado das operações, utilizando inteligência artificial para apoiar o monitoramento e reduzir incidentes dentro das lojas. 

As soluções analisam imagens captadas por câmeras, identificam comportamentos suspeitos e ajudam a reconhecer padrões recorrentes, permitindo uma atuação mais ágil e estratégica na prevenção de perdas.

Redes sociais como canal de venda

Quando a disputa por atenção e conversão se intensifica no varejo, as redes sociais assumem papéis cada vez mais complementares, mas ainda desiguais em termos de resultado financeiro. 

Dados do Reportei, empresa de relatórios e dashboards de marketing e vendas, mostram que, em média, ações na Meta geraram retorno até 20 vezes maior do que no TikTok, refletindo um ecossistema mais maduro de mídia paga e estratégias de performance já consolidadas. 

“O TikTok é extremamente eficiente para gerar interesse e engajamento, mas a conversão ainda acontece majoritariamente na Meta, que oferece mais previsibilidade e ferramentas robustas para otimização de campanhas”, explica Renan Caixeiro, co-fundador e CMO da Reportei.

Ao mesmo tempo, o avanço do TikTok Shop e o fortalecimento de conteúdos orgânicos indicam uma mudança relevante no comportamento do consumidor, que passa a descobrir produtos de forma mais espontânea e integrada ao entretenimento. 

Esse cenário exige uma estratégia mais sofisticada por parte das marcas, combinando canais de topo de funil com plataformas de conversão mais eficientes. 

Contratações temporárias pressionam eficiência no recrutamento

O aumento da demanda no varejo durante a Páscoa também se reflete na abertura de vagas temporárias, que devem chegar a até 800 mil no Brasil, segundo a Associação Brasileira do Trabalho Temporário (Asserttem). 

Mais do que contratar em volume, o desafio para as empresas está em dar conta da velocidade e da qualidade desses processos em um curto espaço de tempo, evitando gargalos e perdas de candidatos ao longo da jornada.

Nesse cenário, o uso de tecnologia e dados ganha protagonismo para apoiar a triagem em larga escala e tornar a tomada de decisão mais ágil. 

“É importante tratar o assunto com antecedência. Nesses casos,  o que a gente observa é que as empresas que investiram em estrutura e automação antes do pico são as que conseguem contratar com velocidade sem abrir mão da qualidade", afirma Augusto Frazão, CEO da InHire, empresa de tecnologia para recrutamento e seleção.

E se o cliente for o governo?

Para além do varejo tradicional, datas como a Páscoa também movimentam uma cadeia paralela de consumo ligada ao setor público. 

Prefeituras em todo o país realizam programações sazonais que envolvem desde distribuição de alimentos e kits comemorativos até eventos culturais, atividades em escolas e ações comunitárias. E todas são dependentes de processos licitatórios.

Esse tipo de demanda abre espaço para empresas que já atuam com fornecimento padronizado, como alimentos, serviços, estrutura e apoio logístico, mas também impõe um nível de exigência operacional que tende a aumentar em períodos de maior volume.

“Datas sazonais concentram contratações em janelas mais curtas, o que exige preparo prévio das empresas para operar com agilidade e dentro das regras”, afirma Alan Conti, CEO da Effecti, empresa de tecnologia para licitantes.

Segundo o executivo, o desafio não está apenas em encontrar oportunidades, mas em sustentar consistência ao longo do processo. Falhas documentais, prazos mal calculados e propostas desalinhadas continuam entre os principais fatores de desclassificação, especialmente quando há aumento simultâneo de editais. 

“Em momentos de pico, o risco operacional cresce. Empresas mais organizadas e com processos estruturados conseguem capturar melhor essas oportunidades”, conclui.

 

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