Especialistas do varejo analisam pormenores da Páscoa 2026 (Emma Farrer/Getty Images)
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Publicado em 31 de março de 2026 às 07h07.
A Páscoa de 2026 acontece sob um novo contexto de consumo: mesmo com a recente queda nas cotações internacionais de cacau e açúcar, os preços dos ovos de chocolate seguem pressionados no varejo, com altas que chegam a mais de 20% em relação ao ano passado.
Esse descompasso entre o custo das commodities e o valor final nas prateleiras reflete uma cadeia mais complexa, que envolve logística, estoques, câmbio e estratégias comerciais, e impacta diretamente o comportamento do consumidor, cada vez mais sensível a preço e menos fiel a marcas, e exige também uma maior preparação das empresas.
De acordo com o Benchmark de Comércio Unificado (UCB) para a América Latina 2026, desenvolvido pela Manhattan Associates em parceria com a Incisiv,
Na prática, isso eleva o nível de exigência justamente em períodos de pico, como a Páscoa, e impacta toda a jornada de consumo, da aquisição e conversão nos canais digitais aos desafios operacionais dentro das lojas físicas, como segurança e prevenção de perdas.
Na avaliação de Stefan Furtado, Gerente Regional da Manhattan Associates, a data evidencia o nível de preparo das operações varejistas.
“O consumidor está mais exigente, híbrido e menos previsível, o que pressiona as empresas a integrarem canais, estoques e experiências de ponta a ponta.
Datas como a Páscoa deixam claro quais varejistas já operam com uma lógica de comércio unificado e quais ainda enfrentam rupturas na jornada”, afirma.
Segundo o executivo, embora a maturidade média do varejo latino-americano tenha avançado de 31% para 48% em dois anos, o principal desafio agora está na execução consistente.
“Não se trata mais de ter determinadas capacidades, mas de conseguir operá-las de forma integrada, com visibilidade e em tempo real, especialmente em períodos de pico. É aí que entram temas como orquestração de pedidos, uso das lojas como hubs logísticos e maior inteligência na gestão de estoque”, completa.
Esse desafio de execução em períodos de pico não se limita à logística e ao atendimento. Com produtos mais caros e maior fluxo de consumidores nas lojas, a Páscoa também amplia a exposição a perdas no varejo físico, adicionando uma nova camada de complexidade à operação.
“Itens mais caros se tornam naturalmente mais visados para furtos e outras ocorrências, especialmente em datas que concentram grande movimentação e produtos de maior valor agregado, o que exige um reforço nas estratégias de prevenção”, afirma Rodrigo Tessari, CEO da Deconve, startup catarinense especializada em prevenção de perdas no varejo físico.
Nesse cenário, o uso de tecnologias como o reconhecimento facial tem ganhado espaço como aliado das operações, utilizando inteligência artificial para apoiar o monitoramento e reduzir incidentes dentro das lojas.
As soluções analisam imagens captadas por câmeras, identificam comportamentos suspeitos e ajudam a reconhecer padrões recorrentes, permitindo uma atuação mais ágil e estratégica na prevenção de perdas.
Quando a disputa por atenção e conversão se intensifica no varejo, as redes sociais assumem papéis cada vez mais complementares, mas ainda desiguais em termos de resultado financeiro.
Dados do Reportei, empresa de relatórios e dashboards de marketing e vendas, mostram que, em média, ações na Meta geraram retorno até 20 vezes maior do que no TikTok, refletindo um ecossistema mais maduro de mídia paga e estratégias de performance já consolidadas.
“O TikTok é extremamente eficiente para gerar interesse e engajamento, mas a conversão ainda acontece majoritariamente na Meta, que oferece mais previsibilidade e ferramentas robustas para otimização de campanhas”, explica Renan Caixeiro, co-fundador e CMO da Reportei.
Ao mesmo tempo, o avanço do TikTok Shop e o fortalecimento de conteúdos orgânicos indicam uma mudança relevante no comportamento do consumidor, que passa a descobrir produtos de forma mais espontânea e integrada ao entretenimento.
Esse cenário exige uma estratégia mais sofisticada por parte das marcas, combinando canais de topo de funil com plataformas de conversão mais eficientes.
O aumento da demanda no varejo durante a Páscoa também se reflete na abertura de vagas temporárias, que devem chegar a até 800 mil no Brasil, segundo a Associação Brasileira do Trabalho Temporário (Asserttem).
Mais do que contratar em volume, o desafio para as empresas está em dar conta da velocidade e da qualidade desses processos em um curto espaço de tempo, evitando gargalos e perdas de candidatos ao longo da jornada.
Nesse cenário, o uso de tecnologia e dados ganha protagonismo para apoiar a triagem em larga escala e tornar a tomada de decisão mais ágil.
“É importante tratar o assunto com antecedência. Nesses casos, o que a gente observa é que as empresas que investiram em estrutura e automação antes do pico são as que conseguem contratar com velocidade sem abrir mão da qualidade", afirma Augusto Frazão, CEO da InHire, empresa de tecnologia para recrutamento e seleção.
Para além do varejo tradicional, datas como a Páscoa também movimentam uma cadeia paralela de consumo ligada ao setor público.
Prefeituras em todo o país realizam programações sazonais que envolvem desde distribuição de alimentos e kits comemorativos até eventos culturais, atividades em escolas e ações comunitárias. E todas são dependentes de processos licitatórios.
Esse tipo de demanda abre espaço para empresas que já atuam com fornecimento padronizado, como alimentos, serviços, estrutura e apoio logístico, mas também impõe um nível de exigência operacional que tende a aumentar em períodos de maior volume.
“Datas sazonais concentram contratações em janelas mais curtas, o que exige preparo prévio das empresas para operar com agilidade e dentro das regras”, afirma Alan Conti, CEO da Effecti, empresa de tecnologia para licitantes.
Segundo o executivo, o desafio não está apenas em encontrar oportunidades, mas em sustentar consistência ao longo do processo. Falhas documentais, prazos mal calculados e propostas desalinhadas continuam entre os principais fatores de desclassificação, especialmente quando há aumento simultâneo de editais.
“Em momentos de pico, o risco operacional cresce. Empresas mais organizadas e com processos estruturados conseguem capturar melhor essas oportunidades”, conclui.