Quem ama o clube protege o ativo mais valioso que ele tem: a própria torcida
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Publicado em 14 de janeiro de 2026 às 13h50.
Última atualização em 14 de janeiro de 2026 às 13h51.
Por Alexandre Loures, sócio-controlador e head da área privada da FSB Holding.
Os clubes de futebol só existem porque milhões de pessoas amam um escudo. Esse amor financia ingressos, camisas, produtos licenciados, audiência, patrocínios e direitos de transmissão.
Mas, nas redes sociais, o combustível que mais gera alcance, cliques e dinheiro não é o amor. É a indignação. A crítica raivosa. O ataque. A desgraça. Se isso não for entendido a tempo, o torcedor pode acabar ajudando a destruir, por engajamento, aquilo que diz amar.
No Brasil, o futebol é uma indústria bilionária sustentada diretamente pela atenção do torcedor. Bilheteria, sócio-torcedor, consumo de produtos, audiência em TV e streaming e exposição de patrocinadores dependem de um ativo escasso e valioso: atenção qualificada e recorrente. Não por acaso, clubes com torcidas maiores tendem, no longo prazo, a ser mais competitivos esportiva e financeiramente. Amor vira receita. Receita vira estrutura. Estrutura vira performance.
Ao mesmo tempo, o ecossistema de comunicação do futebol mudou radicalmente. As redes sociais se tornaram o principal hub de consumo diário de conteúdo esportivo no país. O Brasil está entre os países que mais passam tempo nas redes (quase quatro horas por dia). Nesse ambiente, influenciadores digitais já concentram mais audiência e engajamento do que canais oficiais de clubes e, muitas vezes, mais do que a própria imprensa esportiva tradicional.
E aqui está o ponto crítico: os algoritmos não premiam equilíbrio, contexto ou análise. Estudos mostram que conteúdos negativos, emocionais, agressivos e polarizadores performam significativamente melhor do que conteúdos informativos ou analíticos. Raiva engaja mais do que razão. Ataque gera mais alcance do que explicação. Crise rende mais cliques do que processo.
Forma-se um incentivo econômico claro para que parte relevante dos influenciadores que precisam monetizar audiência opere permanentemente no modo crise. O erro vira catástrofe. A derrota vira humilhação. O dirigente vira vilão. O técnico vira incompetente. Não importa o contexto, os dados, a comparação histórica ou o projeto esportivo. O algoritmo recompensa quem grita mais alto.
Ou seja: o amor sustenta o clube, mas o ódio monetiza o debate sobre ele.
Essa dinâmica não é trivial de resolver. Ela nasce do choque entre duas forças gigantescas: a paixão pelo futebol e o modelo de negócios das plataformas digitais. Não há solução simples, nem resposta pronta. Mas há um alerta fundamental para quem ama futebol de verdade:
Cuidado para não financiar, com sua atenção, canais que lucram com a desgraça do seu próprio time. Cuidado para não confundir crítica legítima com indignação industrializada.
Quem olha com calma consegue identificar. Quem ama o clube protege o ativo mais valioso que ele tem: a própria torcida.
Porque sem amor, não há futebol. Mas com ódio demais, pode não haver futuro..