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Opinião: na era da IA, Xingu mostra que ancestralidade é o futuro

Não venceremos as máquinas sendo mais rápidos ou mais eficientes, mas sendo mais humanos

Marcos Menezes ao lado de lideranças femininas das aldeias do Xingu (Divulgação)

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Publicado em 30 de janeiro de 2026 às 11h05.

Por Marcos Menezes*

Sempre que entro no Território Indígena do Xingu, uma convicção se reforça: na era da Inteligência Artificial, o futuro da humanidade será, paradoxalmente, cada vez mais ancestral. 

À medida que a tecnologia avança em velocidade exponencial, somos empurrados a reencontrar aquilo que nenhuma máquina é capaz de reproduzir — a nossa humanidade radical.

A IA já supera o ser humano em cálculo, escala e eficiência

O nosso valor, porém, não está na performance, mas na imperfeição. Ele reside na imprevisibilidade, no erro, na singularidade e na fragilidade que dão sentido à vida. É nesse território impreciso, impossível de ser plenamente codificado, que habitam a escuta verdadeira, o cuidado e o pertencimento.

No Parque Indígena do Xingu, que abriga cerca de 6,2 mil indígenas de mais de 16 etnias, distribuídos em dezenas de aldeias em uma área de aproximadamente 2,6 milhões de hectares, essa lição se manifesta de forma concreta. 

Ali, a natureza impõe ritmos próprios. A chuva interrompe planos e agendas, lembrando que há tempos que não se negociam. As conversas seguem o mesmo compasso: não há pressa nem interrupção. 

Cada pessoa fala até concluir seu pensamento. Esperar o outro terminar é um gesto profundo de respeito e reconhecimento da dignidade da fala.

Mulheres e idosos se expressam primeiro em sua língua materna, antes de qualquer tradução, num ato simbólico e político de afirmação cultural. 

Essa desaceleração contrasta com o modelo urbano exaurido, marcado por ansiedade crônica, hiperconexão e ruído permanente. 

E é justamente ali, longe dos grandes centros tecnológicos, que emerge uma lição essencial para o nosso futuro coletivo.

A ancestralidade é o futuro

É nesse cenário que a ancestralidade deixa de ser passado e se transforma em projeto de futuro. 

Um exemplo concreto dessa convergência é o Xingu+Catu, uma iniciativa estruturada e conduzida por voluntários, comprometida com a erradicação do câncer do colo do útero entre a população indígena do Parque Indígena do Xingu, no estado de Mato Grosso — a maior reserva indígena do Brasil — até 2030.

Em seus primeiros doze meses de atuação, o projeto alcançou uma taxa de cobertura de rastreamento de 87%, um resultado sem precedentes em territórios indígenas remotos, e introduziu o teste molecular para detecção do HPV por meio da autocoleta. 

Trata-se de uma metodologia culturalmente adequada, que superou barreiras históricas de acesso ao cuidado, ao permitir que as próprias mulheres realizem o exame de forma autônoma, segura e respeitosa.

A iniciativa vai além do rastreamento. Fortalece a liderança das mulheres indígenas por meio da educação em saúde, promove a vacinação universal contra o HPV, capacita agentes indígenas de saúde e gera dados colaborativos inéditos, construídos de forma ética e compartilhada. 

Ao integrar rastreamento clinicamente eficaz, estratégias lideradas pela comunidade e soluções de telemedicina para o acompanhamento longitudinal, o Xingu+Catu busca transformar a prevenção e o tratamento do câncer em uma das regiões mais desassistidas do Brasil.

Do ponto de vista técnico, o projeto utiliza o PT-PCR, um exame molecular mais sensível do que o tradicional Papanicolau. A coleta é simples, feita pela própria paciente com um aplicador semelhante a um cotonete, sem a necessidade de exame ginecológico presencial. 

O teste permite identificar com maior precisão a presença do HPV e lesões associadas ao câncer do colo do útero. Quando há alterações, as pacientes são encaminhadas para acompanhamento e tratamento na rede pública de saúde, em integração com o SUS.

O impacto é claro: o Xingu+Catu busca eliminar o risco de câncer do colo do útero no Parque Indígena do Xingu e, ao mesmo tempo, estabelecer um modelo sustentável e replicável de equidade em saúde indígena, validado por sua alta aceitação e pelos resultados iniciais de cobertura.

Mais do que inovação médica, trata-se de um encontro virtuoso entre ciência e ancestralidade. Na era da Inteligência Artificial, essa talvez seja a maior lição do Xingu: não venceremos as máquinas sendo mais rápidos ou mais eficientes, mas sendo mais humanos. O futuro não está apenas nos algoritmos, mas na capacidade de ouvir, cuidar e respeitar.

*Marcos Menezes, médico radiologista intervencionista do Hospital das Clínicas da FMUSP e do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp), é fundador da ONG Xingu+Catu.

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