Para 2026 a tendência é de uma consolidação ainda maior do setor renovável, que já oferece preços competitivos dentro do mercado energético (Tirachard/Getty Images)
Plataforma de conteúdo
Publicado em 29 de janeiro de 2026 às 17h00.
Por Felipe Vignoli*
2025 foi diferente para a agenda climática. Depois de anos colhendo debates progressistas e propostas pró-clima, o globo entrou em uma espiral negativa.
O movimento, que começou com a posse do novo mandatário norte americano, passou pelo retardo de muitas iniciativas climáticas de multinacionais.
Culminou na flexibilização de normas climáticas em vários cantos do mundo ocidental.
Foi um ano de conflitos e, inclusive, de sinais negativos também para a agenda de financiamento climático.
Foi a primeira vez em muitos anos que o mundo apresentou sinais de redução do capital privado disponível para a agenda.
Os efeitos sentidos na agenda climática estão diretamente relacionados a outras agendas geopolíticas.
Tais como disputas territoriais, segurança energética e outras disputas de poder.
Não é de hoje que o mundo oscila entre tendências multilaterais ou bilaterais.
Mas 2025 foi definitivamente uma ruptura de um mundo que se organizava, mais ou menos harmonicamente, em torno de uma agenda de globalização.
Pasmem, liderada pelos próprios agentes promotores da atual ruptura, ou seja, EUA.
Por este quadro, é normal esperar um 2026 refletido nos acontecimentos do ano passado, ao menos quando falamos de clima.
A pauta geopolítica, como visto nos primeiros dias do ano na Venezuela, ameaças à soberania da Groenlândia e movimentos no Irã, deve ditar a regra do debate.
É improvável imaginar grandes planos e gastos governamentais na pauta climática frente às tensões políticas.
A realocação de recursos para armamento e gastos militares irá impactar no orçamento dos governos.
Podendo diminuir recursos para urgências climáticas ou temas relacionados.
O assunto se estende para a agenda interna, onde as eleições para a presidência irão carregar, de alguma forma ou de outra, as tensões globais.
Por aqui, inclusive, o tema ambiental tende a ficar escanteado.
São poucos os brasileiros que entendem a importância do assunto - nada favorável para os debates eleitorais.
O caso recente da invasão venezuelana também é assunto relevante para o mercado de óleo e gás.
Ninguém ao certo sabe quais serão os próximos passos na exploração da maior reserva de petróleo do mundo.
O que tem mexido nos preços da commodity nos mercados no mundo todo.
O excesso de oferta do petróleo alinhado a uma demanda que tende a desacelerar no curto prazo só torna o cenário mais incerto.
Para piorar, investimento e tensão geopolítica são normalmente antagônicos.
As empresas norte-americanas realmente vão lutar por um óleo de menor qualidade em uma estrutura de extração sucateada pelo sistema chavista enquanto se apertam no delírio expansionista trumpista?
Ninguém sabe. Entretanto, é certo que qualquer avanço extrativista na região torna os avanços climáticos ainda piores.
Compreender os próximos passos do mercado de óleo e gás é crucial para também compreender os próximos passos da agenda climática global.
Com os atuais impactos globais, ninguém consegue prever os resultados a curto, médio ou longo prazo.
Do outro lado da moeda no arcabouço energético, os preços no setor de óleo e gás também têm sofrido influência do avanço das renováveis.
Desta vez, para 2026 a tendência é de uma consolidação ainda maior do setor renovável.
Que já oferece preços competitivos dentro do mercado energético.
A expansão conta com grande força dos segmentos eólico e solar, que tiveram queda de preço nos últimos anos pela massiva produção chinesa.
A maior acessibilidade tecnológica tem permitido, inclusive, que países no sul global cresçam na agenda.
Com ações de peso em países como Etiópia e Bangladesh.
Atento a esses movimentos, o setor privado também tem mantido a aposta nos segmentos renováveis de maior competitividade.
Em especial pelo aumento da demanda energética em data centers e carregamento de carros elétricos.
Estes últimos têm ganhado espaço no mercado global, especialmente na China e recentemente também no Brasil.
Por fim, a última grande tendência que deve ser lembrada para 2026 é a maior atenção que será dada aos riscos físicos originados das mudanças climáticas.
Em outras palavras, caminhamos a passos largos para o novo período de adaptação aos desastres ambientais.
O tema tende a se tornar cada vez mais presente no cálculo de exposição de ativos, preço de seguros, resseguros e resiliência climática para cidades no geral.
No que tange o sistema financeiro, isso inclui impacto direto em indicadores de rendimento.
Mas também em indicadores macroeconômicos, como inflação, crescimento, balança comercial, entre outros.
O ano de 2026, portanto, deve ser de mais ação nos bastidores do que nos holofotes do palco principal.
Não conseguimos ver uma agenda de eficiência energética, energia renovável, eletrificação dos transportes e agricultura sustentável se reverter facilmente.
Pois a viabilidade em cada uma delas já se provou (ou está perto de se provar).
É, portanto, uma janela de oportunidade, indo além das visões de curto prazo que a ofuscam.
Entre vitórias e derrotas, a principal mensagem que vale a pena compreender é que agora o cenário tenderá a ser mais tangível, concreto e real.
Se por um lado isso facilita o entendimento de quais iniciativas são efetivamente climáticas, por outro também nos relembra que os impactos físicos estarão ainda mais presentes.
*Felipe Vignoli é CEO do Impacta Finanças Sustentáveis.