Em 2026, a gestão de riscos estratégicos exige visibilidade total sobre as cadeias globais. (Charday Penn/Getty Images)
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Publicado em 18 de fevereiro de 2026 às 17h00.
Por Felipe Ramos*
Em 2026, cadeias de suprimentos deixaram definitivamente de ser um assunto técnico restrito à área de operações para se tornarem um dos principais riscos estratégicos dos negócios.
Não se trata apenas de atrasos, custos ou eficiência logística. Trata-se da incapacidade crescente das empresas de enxergar, governar e antecipar riscos distribuídos ao longo de cadeias cada vez mais longas, interdependentes e expostas a fatores externos.
"O Global Risks Report 2025, do Fórum Econômico Mundial, aponta falhas nas redes globais de fornecimento como um dos vetores com maior potencial de impacto sistêmico sobre empresas e economias." Esse dado revela que o problema já não está na execução pontual, e sim no próprio modelo de gestão de riscos adotado.
A complexidade estrutural dessas cadeias de suprimentos ajuda a explicar esse deslocamento.
Segundo a Organização Mundial do Comércio, mais de 70% do comércio global ocorre por meio de cadeias de valor fragmentadas entre diferentes países. Isso expande a superfície de risco e reduz o controle direto das empresas sobre fornecedores, contratos e garantias.
O dado é revelador porque mostra que eficiência isolada perdeu valor estratégico. Quando decisões dependem de múltiplos elos e jurisdições, operar bem já não significa operar de forma previsível.
Sem visão integrada, empresas acumulam riscos que só se tornam visíveis quando o impacto financeiro já é inevitável.
O maior equívoco, portanto, é tratar rupturas como eventos extraordinários. Em 2026, o risco mais relevante não é o choque externo em si, e sim a invisibilidade que o antecede.
Um estudo da McKinsey publicado em 2024 mostra que empresas com baixa visibilidade sobre fornecedores de segundo e terceiro nível demoram até duas vezes mais para reagir a crises, ampliando perdas e efeitos em cascata.
Esse dado expõe um problema estrutural do modelo atual, que ainda opera com dados fragmentados, monitoramento tardio e decisões reativas. Cadeias não colapsam de repente; elas se deterioram em silêncio.
A busca histórica por eficiência extrema também gerou um efeito colateral perigoso: a concentração excessiva de fornecedores.
Dados da OCDE indicam que cadeias concentradas são até três vezes mais vulneráveis a choques externos do que estruturas diversificadas. O número evidencia que a lógica do menor custo funciona apenas em ambientes estáveis.
Fora deles, concentração não gera eficiência, gera fragilidade. Ainda assim, muitas empresas continuam excluindo fornecedores tecnicamente competentes por critérios rígidos ou ultrapassados, reduzindo concorrência e eliminando alternativas.
Essa prática não reduz risco; ela remove opções, e opções são o que sustenta a resiliência.
Nesse cenário, a burocracia deixou de ser um simples entrave operacional para se tornar um risco estratégico disfarçado de controle.
Processos excessivamente manuais, exigências documentais desconectadas da realidade contratual e análises fragmentadas corroem a velocidade de resposta das empresas.
Segundo o Banco Mundial, atrasos e rigidez regulatória afetam diretamente a competitividade e a capacidade de adaptação das cadeias, mesmo quando esses impactos não aparecem de imediato nos balanços.
Enquanto compradores pressionam por prazos confiáveis e menor exposição jurídica, fornecedores enfrentam capital imobilizado, acesso restrito e lentidão. O modelo atual cria tensão permanente, não governança.
O que precisa mudar é a lógica de gestão. Cadeias de suprimentos exigem abordagem sistêmica, governança integrada e visibilidade contínua ao longo de todos os elos.
Iniciativas como o Granto Suppliers apontam esse caminho ao tratar risco, garantia e relacionamento contratual como partes de um mesmo sistema, e não como etapas isoladas.
Neste ano, competitividade não estará nas cadeias mais baratas ou mais rápidas, e sim naquelas capazes de enxergar riscos antes que eles ganhem escala.
Persistir no modelo atual não é conservador; é assumir um risco que já não pode mais ser ignorado.
*Felipe é empreendedor com mais de 18 anos de experiência e fundador da Granto, insurtech e corretora 100% digital especializada em Seguro Garantia. Atua no desenvolvimento de soluções que ajudam empresas a substituir cauções em dinheiro, depósitos judiciais e bloqueios financeiros por modelos mais eficientes de gestão de riscos e capital.