Bússola
Um conteúdo Bússola

Opinião: é preciso compromisso com a universalização do saneamento no Brasil

Universalizar o saneamento é a mais eficaz política de inclusão social e de combate à pobreza

Apesar dos avanços, a velocidade é crucial (Getty Images/Getty Images)

Apesar dos avanços, a velocidade é crucial (Getty Images/Getty Images)

Bússola
Bússola

Plataforma de conteúdo

Publicado em 31 de março de 2026 às 06h00.

Última atualização em 31 de março de 2026 às 17h41.

Priorizar nos meus resultados Google

Por Luciana Costa*

O mês de março, ocasião que celebramos o Dia Mundial da Água, é o momento ideal para a reflexão sobre pilares inegociáveis para a dignidade, a inclusão social e o desenvolvimento econômico: água limpa e saneamento básico. No Brasil, estamos no ponto de inflexão de uma jornada histórica, impulsionada pelo Novo Marco Legal do Saneamento Básico (Lei nº 14.026/2020).

Desde a aprovação do Marco em 2020, o país assumiu um compromisso ambicioso e irrenunciável: garantir que, até 2033, 99% da população brasileira tenha acesso à água potável e 90% à coleta e tratamento de esgoto, data limite para redimir uma dívida social que se arrasta por décadas. Por muito tempo, as áreas mais vulneráveis e os bolsões de pobreza foram deixados à margem, consolidando um abismo de desigualdade.

O BNDES tem atuado na vanguarda para transformar a letra da lei em realidade. Nossa experiência de mais de 20 anos em modelagem de infraestrutura nos permitiu estruturar grandes projetos de concessão e Parcerias Público-Privadas (PPPs). Desde 2020, os projetos de saneamento estruturados ou apoiados pelo BNDES resultaram em leilões que já atraíram mais de R$ 110 bilhões em investimentos estimados e impactarão diretamente cerca de 55 milhões de brasileiros.

E esse esforço já começa a dar resultado. O investimento médio anual no setor nos últimos 5 anos foi de mais de R$ 30 bilhões, um incremento de quase 50% em relação ao valor médio observado entre 2011 e 2020, que foi de R$ 20 bilhões.

Estes avanços são inegáveis e representam um salto de qualidade na infraestrutura nacional. Casos emblemáticos de grandes concessões como o Rio de Janeiro, estruturado com o apoio técnico e financeiro do BNDES, demonstram a viabilidade e a força de um modelo que permite a mobilização de recursos privados para o bem público. Tais iniciativas são a prova cabal de que é possível e necessário aliar a eficiência do setor privado com a função social inerente à universalização do saneamento.

O desafio que temos pela frente é tão gigantesco, que todo esforço é bem-vindo. Devemos concentrar nossa energia em levar a água tratada e o esgoto coletado e tratado para a próxima casa, o próximo bairro, o próximo município. O que importa é o resultado na ponta, a inclusão de milhões de brasileiros no sistema.

Nesse cenário, o BNDES é protagonista para evolução do setor, atuando em todos os elos que compõem os investimentos, desde a identificação das oportunidades de estruturar projetos, passando pela negociação com o poder concedente e com os investidores. Com essa visão de desenvolvimento social e ambiental, o BNDES estruturou os maiores leilões de saneamento do Brasil, como os 4 blocos do Rio de Janeiro, que proporcionarão investimentos de quase R$ 35 bilhões, beneficiando mais de 13 milhões de pessoas com a universalização dos serviços, e com projetos estruturantes em regiões carentes e com maior déficit de saneamento básico, como Sergipe, Pernambuco e Pará.

Mas não é só na estruturação de projetos que o BNDES tem papel de destaque. Nos últimos anos, o banco se consolidou como o principal financiador do saneamento. Entre 2011 e 2021, a sua aprovação média anual para o setor girava em torno de R$ 1 bilhão. Entre 2022 e 2025, essa média saltou para quase R$ 10 bilhões. Com isso, o BNDES viu sua carteira de crédito saltar de R$ 5 bilhões, em 2020, para mais de R$ 35 bilhões, em 2025. Em sua missão, o banco traz estruturas de financiamento modernas e seguras, que tem atraído parceiros da iniciativa privada, como bancos comerciais e o mercado de capitais, além de outros bancos públicos e de organismos multilaterais.

Essa é uma política de Estado, e não de governo. A universalização exige um horizonte de planejamento de longo prazo, estabilidade regulatória (com o papel fundamental da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico, ANA) e segurança jurídica para o investidor. Precisamos manter a coesão nacional em torno desse objetivo, independente de períodos eleitorais.

Apesar dos avanços, a velocidade é crucial. O Instituto Trata Brasil alerta que se fosse mantido o ritmo de ampliação das coberturas de água e esgoto observado entre 2018 e 2022, a universalização do saneamento só ocorreria por volta de 2070, um atraso de 37 anos em relação à meta legal. Significa que, a cada ano de atraso, milhões de crianças continuarão a adoecer, e a produtividade econômica de nosso país será subtraída. Além disso, é preciso olhar para os quase 10 milhões de brasileiros em municípios que, por sua situação econômico-financeira, enfrentam os maiores gargalos para cumprir as metas. São esses os locais que mais precisam da nossa atenção e dos mecanismos de regionalização previstos no Marco.

Universalizar o saneamento é a mais eficaz política de inclusão social e de combate à pobreza. É um investimento que se paga em saúde, em educação, em produtividade e, sobretudo, em igualdade.

*Luciana Costa é Diretora de Infraestrutura, Transição Energética e Mudança Climática do BNDES.

Acompanhe tudo sobre:Saneamento

Mais de Bússola

Apenas 9% das empresas estão preparadas para a reforma tributária

Opinião: O conselho de administração não pode ignorar a saúde mental do CEO

Segurança: trocar de fornecedor só pelo preço pode gerar riscos operacionais

Recessão dos influenciadores? Não para quem aposta no terceiro setor