O Brasil reúne condições únicas para liderar uma agenda robusta de economia circular (Ambev/Divulgação)
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Publicado em 15 de agosto de 2026 às 07h00.
Por Victor Bicca Neto*
O Brasil gosta de afirmar que é um dos países líderes em reciclagem no mundo. Em alguns casos, essa afirmação é verdadeira.
O país possui cadeias de reciclagem importantes — especialmente em materiais como alumínio e papel — e construiu ao longo das últimas décadas uma experiência singular baseada na atuação de catadoras e catadores que estruturaram, com enorme resiliência, uma rede de recuperação de materiais em praticamente todo o território nacional.
No entanto, quando se olha para o sistema como um todo, é inevitável reconhecer que a reciclagem brasileira ainda convive com fragilidades estruturais relevantes.
Passados mais de quinze anos da promulgação da Política Nacional de Resíduos Sólidos, o país continua enfrentando desafios básicos: infraestrutura limitada de coleta seletiva, baixa capacidade de triagem em muitas regiões, fragmentação regulatória entre estados e municípios e sistemas pouco padronizados de comprovação da logística reversa.
Esse cenário revela uma contradição importante. Ao mesmo tempo em que a agenda da economia circular ganha centralidade nas políticas públicas e nas estratégias empresariais, o sistema institucional que sustenta a reciclagem ainda carece de maior robustez, transparência e governança.
A reciclagem deixou de ser apenas uma questão ambiental. Ela passou a ocupar espaço crescente nas agendas de competitividade industrial, segurança de cadeias produtivas e compromissos climáticos das empresas.
Investidores, consumidores e reguladores demandam cada vez mais evidências concretas de desempenho ambiental.
Nesse contexto, a credibilidade dos sistemas de logística reversa torna-se um elemento central.
Nos últimos anos, o país assistiu ao surgimento de diferentes modelos de compensação de embalagens e créditos de reciclagem. Essas iniciativas trouxeram dinamismo ao setor, mas também levantaram questionamentos importantes sobre rastreabilidade, adicionalidade e padronização de métricas.
Se a economia circular pretende consolidar-se como política pública estruturante, será necessário avançar para uma nova etapa institucional.
Isso significa construir mecanismos mais robustos de governança e verificação dos resultados ambientais. Cadeias produtivas complexas não se sustentam apenas com boas intenções ou declarações voluntárias. Elas exigem regras claras, padrões técnicos e sistemas confiáveis de auditoria.
Experiências internacionais mostram que setores como o florestal ou o mercado de carbono avançaram significativamente quando passaram a adotar modelos estruturados de certificação e verificação independente.
A reciclagem brasileira pode seguir caminho semelhante.
Instituições técnicas como a Associação Brasileira de Normas Técnicas e o Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia possuem capacidade institucional para contribuir com a criação de referenciais que fortaleçam a credibilidade do sistema.
Ao mesmo tempo, programas públicos recentes, como o Programa Nacional de Reciclagem Popular, reforçam uma dimensão essencial da reciclagem brasileira: seu papel social. Diferentemente de muitos países, a cadeia de reciclagem no Brasil foi construída com base no trabalho de milhares de catadores e cooperativas que desempenham função central na recuperação de materiais.
Fortalecer essa rede é fundamental para ampliar a capacidade de reciclagem do país. Mas isso também exige políticas públicas consistentes, investimentos em infraestrutura e integração efetiva entre municípios, empresas e cooperativas.
O Brasil reúne condições únicas para liderar uma agenda robusta de economia circular na América Latina. Possui um marco legal estruturado, um setor empresarial cada vez mais comprometido com a sustentabilidade e uma rede social de reciclagem que não encontra paralelo em muitos países.
Mas para transformar esse potencial em realidade será necessário dar um passo adicional.
Mais do que estabelecer metas ambiciosas, o país precisa consolidar um sistema institucional moderno, transparente e tecnicamente consistente para a gestão de resíduos e embalagens.
A economia circular exige confiança.
Confiança de investidores, confiança das empresas e confiança da sociedade.
E confiança, como se sabe, não se constrói apenas com discursos. Ela depende de governança, transparência e credibilidade.
A reciclagem brasileira já demonstrou sua força social e econômica. O desafio agora é garantir que essa força seja acompanhada por um modelo institucional à altura da ambição do país.
*Victor Bicca Neto é especialista em economia circular e políticas públicas ambientais e ex-presidente do CEMPRE – Compromisso Empresarial para Reciclagem.