LGBTQIA+ não é o pink money da pandemia

Inclusão precisa acontecer o ano todo e da porta pra dentro, em posições de liderança

Por Rizzo Miranda

Criadora de conteúdo desde o Orkut, Beta Boechat é um dos nomes proeminentes na popularização do ativismo corporal. Do Youtube à Midia Ninja, Beta atua hoje na produção de conteúdo sobre gênero, corpo e diversidade, além de trabalhar conectando marcas e influenciadores na FALA.agency. Beta é um símbolo de diversidade que a gente precisa ouvir em tempos de covid-19.

Bússola: Beta, a questão da diversidade parece ter vindo à tona com mais força para as marcas durante a pandemia. Isso aconteceu mesmo?

Beta Boechat: O objetivo desta celebração é mostrar que nós existimos e que estamos convivendo na sociedade. Com a pandemia e a ocupação física impossibilitada, a estratégia foi passar a ocupar o digital, e as marcas notaram esse movimento. Do improviso de 2020, quando a pandemia chegou três meses antes da festa, conseguimos chegar em um 2021 com muito mais corpo, tanto dos ativistas e organizações quanto das empresas, que perceberam a oportunidade de falar com mais pessoas e também iniciar uma descentralização da comemoração do eixo Rio-SP.

Bússola: Uma das questões mais sérias sobre o debate LGBTQIA+ é que muita marca faz movimentos de "brain washing" (rainbow washing). Como você vê isso?

Beta Boechat: A gente brinca que pessoas LGBTQIA+ parecem só existir em junho para algumas marcas. Não há programas de inclusão e diversidade nas empresas, pessoas LGBTQIA+ em posição de liderança ou mesmo posicionamentos que protejam essa comunidade durante o ano todo. Mas é só chegar junho que tudo fica colorido.

E não adianta tentar disfarçar para parecer consciente, a comunidade sabe quais marcas realmente estão juntas e tentando fazer a diferença e quais estão usando o mês em busca do “pink money”, o dinheiro LGBT. É claro que fazer campanhas e se posicionar publicamente, mesmo que uma vez no ano, já é um começo. Mas nada disso se sustenta se os LGBTs só estão da porta pra fora. Precisamos estar da porta para dentro.

Diversidade hoje não é caridade, é diferencial competitivo. As marcas que ainda não entenderam isso, estão perdendo hoje e vão perder mais. As novas gerações e o mundo pandêmico estão cada vez mais conectados ao propósito, e é fácil perceber quando esse propósito não é verdadeiro.

Bússola: Cancelamento se tornou um movimento de ódio que a pandemia parece ter ampliado. Você acha que isso veio da nossa condição de saúde mental ou de outra situação de comportamento das pessoas?

Beta Boechat: Não acho que o cancelamento aumentou na pandemia, mas com certeza ganhou novas cores. O cancelamento é só um novo nome para o que nós chamávamos de “linchamento”, seja ele social ou até físico, mas agora nas redes. Não é novidade que a pandemia e todo o contexto do país ajudaram a agravar a saúde mental de quem está minimamente atento.

Estamos em tempos difíceis, mais difíceis ainda por estarmos hiperconectados e lidando com a dor 24 horas por dia. O cancelamento tem um caráter conectado ao sentimento pessoal de superioridade, nos sentimos melhores quando descobrimos e expomos a falha do outro. Em alguns momentos, a exposição é justa, mas perdemos a mão quando somos radicais e esquecemos que todos nós estamos abertos a cometer deslizes e que, mesmo errando, ainda podemos melhorar. Se não acreditarmos nisso, na mudança e na melhoria, então pra que estamos lutando?

*Rizzo Miranda é sócia-diretora Digital&Inovação da FSB Comunicação

Este é um conteúdo da Bússola, parceria entre a FSB Comunicação e a Exame. O texto não reflete necessariamente a opinião da Exame.

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