Globalização em terra plana

Coluna semanal do analista Márcio de Freitas comenta os temas mais debatidos entre os poderes em Brasília

As Nações Unidas começaram a nascer ainda durante a Segunda Guerra Mundial. Formulada para frear os ímpetos belicosos de alguns países, criar mecanismos de contenção a confrontos e estabelecer instâncias de negociação para evitar novas guerras generalizadas. Mesmo com pequenas derrotas em batalhas significativas, a ONU tem vencido a luta pela paz há 75 anos.

O papel dessa reunião de nações em Nova York é justamente esse. Falar a esse público tem de ser entendido como uma busca pelo consenso mínimo, apesar de tantas diferenças étnicas, regionais, religiosas, culturais e econômicas. É uma babel que se entende pelo instinto de sobrevivência da raça humana.

Um dos pais da ONU foi Winston Churchill, que liderou o governo britânico no enfrentamento do terrorismo estatal de Adolf Hitler. Ao lutar para sobreviver, proteger sua ilha e seu povo, Churchill se uniu ao presidente dos Estados Unidos Franklin D. Roosevelt e ao soviético Josef Stalin, a quem chamava de urso. Teve de suportar também Charles De Gaulle, o irascível líder mobilizador do que restava de resistência francesa.

Essas uniões momentâneas geraram boas tiradas por parte do primeiro-ministro inglês. “Se Hitler invadisse o inferno, eu faria alguma menção favorável ao diabo na Câmara dos Comuns”, disse certa vez. Se falava de seu abraço ao urso comunista, não se pode ter certeza.

Ao perder a paciência com o inflexível De Gaulle, mandou essa: “Ouça! Eu sou líder de uma nação forte e invicta. E, no entanto, todas as manhãs, quando acordo, meu primeiro pensamento é como poderei agradar ao presidente Roosevelt e meu segundo pensamento é como poderei cativar o marechal Stalin. Sua situação é muito diferente. Por que, então, seu primeiro pensamento ao acordar é como desafiar britânicos e americanos?” Não adiantou muito, pois o francês sempre foi um prato intragável para o inglês.

O pragmatismo permite conseguir aliados para os bons momentos e para superar a luta pela sobrevivência nas crises. É uma lição que não se notou no discurso de Donald Trump, o presidente dos Estados Unidos. Talvez a gênese seja o próprio isolacionismo dos Estados Unidos, surgido de 13 colônias autogeridas e, em certo sentido, abandonadas à sua própria sorte na fundação do país.

Trump falou na tribuna mundial da ONU para um público votante em 3 de novembro nas eleições presidenciais. São moradores de pequenas cidades e condados, onde há uma maioria de brancos de classe média, mas cujos empregos migraram para outros países e as oportunidades de futuro não são claras como foram no passado. Ao perderem perspectiva, primeiro culparam o Nafta, tratado com o Canadá e o México.

Hoje miram a China, onde o crescimento econômico robusto dos últimos anos criou uma classe média maior que toda população americana. O país se isola e renega as regras limitadoras de atividades industriais poluentes ou busca barrar o livre comércio que já fez dos Estados Unidos o líder mundial no desenvolvimento econômico. Daí Trump bater na China, com acusação de espalhar o coronavírus pelo mundo. Fechou-se ao mundo para tentar ficar na Casa Branca e terraplanou a globalização.

O líder Xi Jinping fez caminho inverso. Pregou a paz. Quase parecia um democrata a apoiar os protestos em Hong Kong. Defendeu a colaboração para superar o Sars-CoV-2, prometeu ajuda financeira para superar a pobreza em outros países, propôs a colaboração entre povos, emulou o intercâmbio mundial no comércio. Xi abriu as portas da China ao mundo com boa vontade para realizar negócios e efetivar parcerias, enquanto concentra cada vez mais poder em suas próprias mãos.

Seria interessante ver a reação de Churchill a esses discursos tão deslocados no tempo e na história. A China há 500 anos se fechou para o mundo e destruiu sua frota naval para se isolar dos bárbaros; agora se abre. E os Estados Unidos, que nasceram há meio milênio e se tornaram o porto seguro para todos os povos em busca de liberdade, erguem muros para fechar suas fronteiras.

Perpassa todo esse comportamento a discussão sobre o futuro da humanidade. A ONU tem a missão de defender nossa sobrevivência. Se, no passado, a guerra era um inimigo óbvio a ser evitado, hoje a tensão é por preservar o planeta. O líder chinês lançou o desafio de enfrentar o problema, até porque sabe ser a China o país com as maiores emissões de gás carbônico na atmosfera. Xi prometeu ao mundo mudar completamente esse quadro até 2060. O passado recente chinês no processo de industrialização recomenda que se leve a sério o discurso na ONU.

É proposta uma revolução ambiental sobre a revolução tecnológica vivida neste início de século 21. É bom prestar atenção nesta agenda. Ela impacta todos, mas também importa por trazer mudanças no processo produção nos próximos anos, nas formas de gerar energia, de transporte e de abastecer cidades. Não se pode negar o problema e enterrar a cabeça na areia enquanto o fogo arde em volta de nossa sociedade ou fugir de carro para paraísos artificiais a queimar combustível fóssil.

O tema do meio ambiente será onipresente nos próximos anos. É agenda do futuro, da sobrevivência da raça humana. E, nessa luta, o único caminho é ser pragmático e buscar aliados. Mesmo que isso signifique abraçar algum urso panda.

*Analista Político da FSB

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