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Esforços pontuais são bem-vindos, mas é preciso transformar o dia a dia

Passado um mês da empatia demonstrada pelas corporações comunidade volta a ser minoria no mercado de trabalho formal

Por Priscila Cardoso* 

Há um mês, numa simples passada pelas principais redes sociais de empresas e marcas, víamos as cores do arco-íris tomando conta de logomarcas, muitas delas carregando um certo ar de sisudez ao longo do ano em sua identidade visual. O boom das cores é uma maneira das companhias materializarem o seu apoio ao mês do orgulho LGBTQIAP+, surgido em decorrência dos confrontos da comunidade com a polícia de Nova York durante a invasão do bar Stonewall Inn, no dia 28 de junho de 1969.

Passados 52 anos desse marco da celebração pelos direitos LGBTQIAP+, e passados trinta dias após a osmose empática das corporações, posso dizer, como mulher lésbica e preta, que, mesmo diante de avanços legais e sociais conquistados pela e para a comunidade ainda somos minoria quando o assunto é mercado de trabalho formal. De acordo com uma pesquisa do Center for Talent Innovation, divulgada em 2016, 61% dos profissionais LGBTQIAP+ não se sentiam confortáveis para se assumirem no ambiente de trabalho, além de 41% dos entrevistados que relataram ter sofrido algum tipo de discriminação no expediente.

São evidentes e bem-vindos os esforços hercúleos das companhias em abrir frentes de diversidade e inclusão, criar cargos para buscar ações sustentáveis focadas no bem-estar de grupos LGBQIAP+ e, até mesmo (por que não?) alterar sua identidade visual por um mês. Afinal, como diz a música: “toda forma de amor vale à pena”.

Entretanto, chegamos a um patamar de ascensão na qual a presença de pessoas desta comunidade não pode resumir a uma agenda sazonal para atender anseios primários de um marketing corporativo. Trazer a equidade para o centro da roda contribui no engajamento do colaborador. Pessoas engajadas e alinhadas com os propósitos da empresa favorecem a inovação e o crescimento, itens vitais para os negócios hoje em dia. Aquela frase que diz: “gente feliz não enche o saco de ninguém”, pode ser adaptada aqui como: “gente feliz pensa melhor”. Ou seja, trabalhar livre de amarras ajuda a fluir a capacidade criativa do ser-humano e ajuda, de certa forma, a corporação a ser mais inovadora, colaborativa e ter mais senso real de comprometimento.

Quebrar estigmas sociais para a inclusão de pessoas da comunidade LGBTQIA+ no ambiente de trabalho é uma solução.  O respeito e a celebração das diferenças estão no dia a dia da operação. De nada adianta, curtir no Instagram as postagens do Gil do Vigor, do BBB 21, se você chama o amigo do lado de “viadinho” porque ele não consegue pedir aumento para o chefe.

Não vale nada você comentar o textão da influencer digital lésbica com emojis de aplausos se você coloca a sexualidade da sua gestora em xeque toda vez que ela pede para você redobrar a atenção na execução do trabalho. Já parou para pensar que ela não está a fim de você e que só está gerenciando uma atividade cuja responsabilidade é dela? Fica a dica.

Todo esse preconceito cria um local restritivo à discussão e à inclusão. É preciso acabar com esse hábito do brasileiro de fazer piadas com expressão de gênero ou orientação sexual do colega de trabalho por meio de comentários ofensivos. Ser bicha, sapatão, travesti ou qualquer outra denominação popular não é xingamento, mas também não é roteiro de show para gente preconceituosa.

Para isso, as empresas, que têm um papel fundamental na sociedade e também na construção do empoderamento social, precisam concentrar seus esforços cotidianos em treinamentos para compreensão e conscientização da causa; na qualificação da mão de obra trans – que dentre as pessoas do universo LGBTQIAP+ são as mais marginalizadas no mercado de trabalho; em políticas de tratamento igualitário; no aumento de oportunidades formais; além de implementar programas de benefícios e de desenvolvimento profissional para os aliados LGBTQIA+.

Assim, quem sabe, o final do arco-íris poderá ser o início de um lugar com mais respeito, equidade e diversidade dentro da vida real. Muito além de junho.

*Priscila Cardoso é lésbica, preta e líder da frente de Diversidade & Inclusão na Certsys, empresa especializada em soluções para Transformação Digital e inovação.

 

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