Entenda a trajetória
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Publicado em 7 de janeiro de 2026 às 17h00.
Por Flávio Bittencourt*
Falar sobre crescimento costuma remeter, quase automaticamente, à ideia de investimento. No imaginário do empreendedor brasileiro, escalar um negócio parece estar sempre atrelado à entrada de capital externo, rodadas, sócios e estruturas cada vez mais complexas.
Para se ter uma ideia, em 2024, os aportes em startups brasileiras voltaram a crescer e elas captaram US$ 2,14 bilhões, um crescimento de 13,83% em relação ao ano anterior (2023), quando o volume foi de US$ 1,88 bilhão, segundo pesquisa Inside VC, realizada pelo Distrito, uma empresa brasileira de estratégia e tecnologia focada em transformação de negócios por meio de inteligência artificial (IA) e inovação.
A experiência de construir uma empresa ao longo de mais de uma década sem aporte me levou a uma conclusão diferente: liberdade, quando bem administrada, pode ser um dos ativos mais poderosos para escalar um negócio.
Empreender no Brasil já é um exercício constante de adaptação. Fazer isso sem investidores adiciona uma camada extra de responsabilidade, mas também abre espaço para algo raro no ambiente corporativo atual: a autonomia real de decisão.
A ausência de pressão por metas irreais, de conselhos desconectados da operação ou de estratégias pensadas mais para agradar investidores do que clientes cria um ambiente onde o "foco" pode ser direcionado para o que realmente importa.
Liberdade não significa falta de disciplina. Pelo contrário. Quando não existe um colchão financeiro garantido por terceiros, o empreendedor é obrigado a conhecer profundamente cada área da empresa. Produto, tecnologia, vendas, caixa, operação e mercado deixam de ser conceitos abstratos e passam a ser partes vivas do dia a dia.
Esse nível de proximidade com a operação gera decisões mais conscientes, menos vaidosas e muito mais alinhadas à realidade do negócio. Outro ponto pouco discutido é a relação direta entre liberdade e velocidade. Empresas que crescem sem investidores não precisam de longos ciclos de aprovação ou de consenso entre múltiplos interesses.
A tomada de decisão se torna mais ágil, permitindo testar ideias rapidamente, corrigir rotas e ajustar estratégias no ritmo que o mercado exige. Em setores altamente dinâmicos, como tecnologia, imobiliário e automotivo, essa capacidade de resposta é um diferencial competitivo relevante.
Ao longo do tempo, aprendi que escalar não é apenas crescer em tamanho, mas crescer com consistência. Isso exige foco extremo. E, além de priorizar esse “foco”, há outro ponto crucial para qualquer empresa ser bem sucedida: ter uma área de vendas forte, pois sem dúvida é ela que sustenta todas as outras.
Não há tecnologia, cultura ou propósito que se mantenha de pé sem uma operação comercial eficiente. Vendas geram o capital mais saudável que uma empresa pode ter, aquele que vem diretamente do cliente.
Quando esse recurso é bem administrado, ele cria fôlego financeiro, segurança para investir e liberdade para escolher caminhos. Essa lógica muda completamente a relação com o crescimento. Em vez de correr atrás de capital para depois estruturar a empresa, o negócio passa a se estruturar a partir da própria receita.
Isso gera uma expansão mais orgânica, menos dependente de modismos e mais conectada às necessidades reais do mercado. O resultado costuma ser uma empresa mais resiliente, preparada para atravessar ciclos econômicos adversos e menos vulnerável a decisões precipitadas.
Liberdade também impacta diretamente a cultura: permite crescer sem abrir mão da identidade da empresa, dos valores e da visão de longo prazo, o que é um privilégio raro. Quando o crescimento acontece no ritmo certo, sustentado por caixa, eficiência e clareza estratégica, a cultura deixa de ser um discurso e passa a ser prática diária.
No meu caso, ao olhar para trás, fica claro que a ausência de investimento externo não foi um obstáculo, mas uma escolha que moldou a forma como o negócio foi construído. Transformar escassez em estratégia exige coragem, disciplina e resiliência, mas entrega algo difícil de quantificar: a capacidade de escalar sem perder o controle do próprio destino.
Se existe uma mensagem central nessa trajetória, é que liberdade não é o oposto de crescimento. Quando combinada com foco em vendas, domínio da operação e capacidade de adaptação rápida, ela se torna justamente o que permite que um negócio escale de forma sustentável, consciente e duradoura.
*Flávio Bittencourt é fundador e CEO do Chaves na Mão, plataforma especializada em anúncios online de imóveis e veículos. Com mais de 22 anos de experiência no setor de mídia exterior e trajetória marcada pela atuação em gestão e tecnologia, foi um dos primeiros executivos do país a apostar na digitalização do mercado de classificados.