O potencial do futebol Brasileiro (FG Trade/Getty Images)
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Publicado em 9 de março de 2026 às 09h53.
Última atualização em 9 de março de 2026 às 09h58.
Por Bruno Pimenta*
O futebol global mudou de patamar. Nos últimos dez anos, as grandes ligas deixaram de ser apenas competições esportivas e passaram a ser tratadas como plataformas globais de mídia, tecnologia e entretenimento. Esse novo status atraiu capital institucional, profissionalização de gestão e estratégias comerciais cada vez mais sofisticadas.
O resultado é visível: as ligas esportivas se tornaram alguns dos ativos de mídia mais valiosos do mundo. Os exemplos são claros.
Nos Estados Unidos, a National Football League (NFL) e a National Basketball Association (NBA) deram recentemente um passo histórico ao permitir que fundos institucionais adquirissem participações minoritárias em franquias. A medida ampliou o acesso a capital e abriu novas avenidas de crescimento para duas das propriedades esportivas mais valiosas do planeta.
Na Europa, a La Liga estruturou um acordo de cerca de €2 bilhões com o fundo CVC Capital Partners, voltado para infraestrutura, inovação tecnológica e expansão internacional.
Já a Premier League consolidou-se como o campeonato nacional mais valioso do mundo, com receitas superiores a £10 bilhões por ciclo de direitos domésticos e internacionais.
O padrão global é claro: organização coletiva, governança profissional e acesso a capital de longo prazo multiplicam o valor econômico das ligas esportivas.
No Brasil, esse movimento começou a ganhar forma com a criação da Futebol Forte União (FFU).
Hoje, o grupo reúne aproximadamente 75% dos clubes das Séries A e B do Campeonato Brasileiro, formando o maior bloco já organizado pelos próprios clubes no país.
Mesmo sem uma liga formalmente constituída, os resultados já começaram a aparecer.
As receitas de direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro cresceram 110% quando se compara o ciclo 2019–2024 com o ciclo 2025–2029, primeiro ciclo negociado pelo novo modelo coletivo.
Há um dado particularmente revelador nesse processo.
Os clubes que integram a FFU — mesmo após venderem uma participação minoritária de seus direitos comerciais para o investidor — passaram a receber mais do que clubes que mantiveram 100% dos seus direitos individuais.
Em outras palavras: uma parcela do novo modelo passou a valer mais do que a totalidade do modelo antigo.
Além do aumento das receitas, o novo modelo também ampliou a concorrência e modernizou a distribuição de mídia.
A comercialização coletiva trouxe ao campeonato brasileiro players globais de tecnologia e streaming, como Amazon e Google (YouTube), ao lado de grupos tradicionais da mídia brasileira como Grupo Globo e Record.
Para o torcedor, o resultado é um modelo multiplataforma, que amplia o acesso aos jogos e democratiza a audiência — inclusive com mais partidas disponíveis gratuitamente em TV aberta e plataformas digitais do que no passado.
O potencial econômico do futebol brasileiro sempre existiu. O que faltava era coordenação institucional, escala comercial e organização estratégica.
É nesse contexto que movimentos de convergência entre clubes ganham relevância.
A possível entrada do Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense na FFU pode representar mais um passo importante na construção de uma liga nacional efetivamente unificada.
Uma estrutura de liga consolidada permitiria avanços decisivos:
Com escala e coordenação institucional, o futebol brasileiro teria condições reais de posicionar seu campeonato entre as três maiores ligas de futebol do mundo no próximo ciclo de direitos.
Poucos mercados reúnem simultaneamente:
O país já esteve perto de dar esse salto antes. Nos anos 1980, o futebol brasileiro chegou a discutir a criação de uma liga organizada pelos clubes — antes mesmo do surgimento da Premier League. Mas faltou continuidade institucional.
Hoje, o futebol brasileiro volta a ter uma oportunidade semelhante. Nenhuma grande liga do mundo foi construída sem divergências, conflitos ou resistência do status quo. Transformações estruturais raramente são lineares. Mas há uma lição clara observando o futebol internacional: quando os clubes se organizam, o valor do campeonato cresce.
O futebol brasileiro tem agora a chance de fazer o mesmo. E oportunidades históricas raramente aparecem duas vezes.
*Bruno Pimenta é CEO da Sports Media.