Tecnologia e monitoramento manual garantem a eficiência no acompanhamento de projetos de lei (gremlin/Getty Images)
Advogado e articulista convidado
Publicado em 9 de março de 2026 às 11h29.
Costumo falar que existem princípios orientadores para quem trabalha com monitoramento de projetos de lei, principalmente em estados e municípios.
Todos os dias são apresentados novos PLs nas mais de 5.700 casas legislativas do país.
Independentemente se estamos tratando de um município da grande São Paulo ou do interior do Amazonas, a existência da casa legislativa – seja no nível estadual ou municipal – já pressupõe a edição de projetos de lei.
Ou seja, as informações existem e, pelo princípio da publicidade da administração pública, estão abertas ao público, passíveis de monitoramento.
Toda informação vinculada no monitoramento deve ser oficial, proveniente do processamento do projeto, publicada no site ou no Diário Oficial, dando oficialidade ao ato.
No Brasil encontramos casas com estruturas administrativas assimétricas.
Em um extremo, algumas com aporte financeiro no seu orçamento para ter uma estrutura de monitoramento integrada com tecnologia.
E no outro, casas em que o profissional de Relações Governamentais (Relgov) precisará recorrer ao bom e velho contato telefônico para obter as informações.
O profissional eficiente é aquele que consegue transitar nesses dois ambientes e captar informações oficiais e seguras para seus clientes.
Digo isso para reforçar um conceito que defendo com convicção de que desenvolver uma ferramenta tecnológica ajuda na segunda fase do monitoramento, que é a gestão das informações.
Mas, por si só, a tecnologia não garante a captação dos dados.
Em algumas ocasiões, a tecnologia acelera essa captação, mas nas casas com menor infraestrutura, o multiplicador de forças é o profissional de Relgov.
Ele precisa realizar um trabalho de formiguinha, pegar o telefone e saber o que perguntar.
Para obter as informações desejadas, é fundamental dominar o funcionamento de cada casa, entender o regimento interno, conhecer o setor de processamento e saber como essa dinâmica entre pessoas e sistemas funciona.
Com os dados em mãos, aí sim, é hora de colocar em sua base tecnológica de gestão.
Via de regra, fazemos uma triangulação.
Em um vértice está o profissional responsável pela captação dos dados.
No segundo, o profissional de Relgov que vai analisar as informações e desenvolver uma linha de ação de acordo com o interesse de seu cliente final.
Este é o último vértice do triângulo – e que poderá tomar a decisão com base nas informações estratégicas a que teve acesso.
Isso é o que tenho feito há vinte anos: extrair o melhor da conexão entre pessoas e sistemas. Em resumo, o fluxo consiste em captar dados, analisar, transformar em informação e, por fim, em uma inteligência de ação que pode ser adotada como estratégica na interação entre o cliente e a casa legislativa de interesse.
Um ponto importante a considerar sobre o ambiente de Relgov, é que, como qualquer ambiente, vivemos sob influência de dois conceitos de mundo distintos.
Podemos facilmente fazer uma analogia entre o ambiente legislativo brasileiro e o mundo VUCA.
Esse conceito, desenvolvido no período pós-Guerra Fria, caracterizava a sociedade como volátil, incerta, complexa e ambígua.
Ele é facilmente comparável à espinha dorsal do nosso ambiente legislativo.
Onde coexistem a Câmara Municipal de São Paulo, que é a casa legislativa mais tecnológica e mais avançada do Brasil, e casas legislativas do interior, que funcionam meio expediente.
No período pós-pandemia de Covid19, o conceito de VUCA tornou-se obsoleto, evoluindo para o que foi chamado de mundo BANI, sigla em inglês para as palavras frágil, ansioso, não linear e incompreensível.
Essas características também são muito presentes dentro das casas legislativas.
O fato de que a cada eleição existe uma troca de toda a estrutura – não só de profissionais, mas de filosofia de trabalho – pode ser apontado como fragilidade.
A ansiedade é vista no parlamentar, em relação aos anseios de quem o elegeu e à realidade que a sociedade apresenta, mas que pode mudar no meio do mandato.
Isso não é linear e, muitas vezes, é incompreensível.
Essa tradução livre que a gente faz do mundo BANI para o mundo do processo legislativo e do monitoramento ajuda a tornar os desafios mais concretos.
Outros conceitos importantes ao falar de monitoramento de projetos de lei são a performance e a confiança.
Para que uma equipe de Relgov tenha alta performance, é imprescindível que exista confiança entre os membros.
Mas esses atributos nem sempre andam juntos.
Nem todo profissional de alta performance inspira confiança ou confia em seu time. E vice-versa.
Quem fala muito bem disso é o autor inglês Simon Sinek, que transformou o modo como pensamos sobre liderança e propósito.
Em sua matrix de performance versus confiança, ele defende que é preferível que você tenha um time onde a confiança seja mais elevada e você possa desenvolver a performance com o treinamento e com a aplicação do conhecimento, do que o contrário. ## O perfil do profissional de Relgov
Na minha empresa, costumamos dizer que contratamos o caráter e ensinamos a habilidade. As equipes que trabalham com Relações Governamentais, na maioria das vezes, são reduzidas e contam com aporte tecnológico e recursos financeiros limitados.
Isso ocorre por estarem restritas a outras estruturas dentro da companhia.
São pessoas que precisam de uma sinergia para entregar um resultado e ter alta performance.
Pela minha experiência, características como vontade, resiliência, adaptabilidade, humildade, integridade, inteligência efetiva, habilidade de time, curiosidade e força emocional fazem parte do perfil que o profissional da área deve ter ou buscar.
Na prática, o trabalho de Relgov, que na verdade é um trabalho de transparência democrática, não acontece sem vontade de alcançar o objetivo final.
Como o caminho normalmente não é fácil, é preciso ter resiliência para ter êxito, seja na captação da informação ou na redefinição dos parâmetros de monitoramento.
Adaptabilidade e humildade são a base para buscar aprender o que você não sabe.
Porque você aprende todo dia e, posso garantir, não é uma troca de conhecimento linear.
Integridade anda lado a lado com a lealdade, ética profissional, inteligência efetiva, que são parte do ofício de RELGOV.
E a habilidade de time é você saber jogar com a equipe, entender que a missão é o maior propósito. Não o individualismo.
Por fim, a curiosidade pode levar à nuance perdida de um projeto, ao detalhe que faz toda a diferença no resultado.
O plano nunca é perfeito e não existe receita para o sucesso.
Mas estar preparado e ter um equilíbrio emocional para lidar com a oscilação do exercício da sua profissão é fundamental.
O resto é trabalho duro.