Reestruturar não significa apenas cortar custos (Ippei Naoi/Getty Images)
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Publicado em 8 de janeiro de 2026 às 15h00.
Por João Chebante*
Em 2026, as Pequenas e Médias Empresas brasileiras vivem um dilema estrutural que já não pode ser tratado somente como efeito colateral do cenário econômico. Crescer deixou de ser uma ambição estratégica e passou a ser uma necessidade para sobreviver.
Ao mesmo tempo, o acesso ao crédito segue restrito, caro e altamente seletivo, especialmente para quem não apresenta um nível mínimo de organização financeira e governança.
O resultado é um impasse que paralisa investimentos, compromete a geração de empregos e limita o potencial de retomada de milhares de negócios.
Diante disso, muitas dessas empresas precisam se reinventar, ou seja, passar pelo processo de Turnaround para dar a volta por cima e reverter o cenário de declínio operacional e financeiro para alcançar a sustentabilidade financeira, o que exige maturidade e planejamento.
As PMEs representam cerca de 93,6% das empresas ativas no Brasil e respondem por mais da metade dos empregos formais, segundo o Sebrae. Ainda assim, esse protagonismo não se traduz em acesso proporcional ao crédito.
Dados oficiais indicam que os pequenos negócios acessam apenas cerca de 20% do mercado de crédito brasileiro. Em números absolutos, isso significa que, dos quase 23 milhões de micro e pequenas empresas existentes no país, apenas cerca de 6,5 milhões conseguiram obter recursos junto ao sistema financeiro em períodos recentes.
A maioria permanece à margem, seja por negativa direta, seja por desistência diante das exigências impostas.
Nos primeiros meses do último ano, mais de 6,5 milhões de pequenos negócios tomaram crédito, movimentando aproximadamente R$109 bilhões, o melhor resultado em oito anos.
Ainda assim, esse avanço não altera o quadro estrutural. Pesquisa da Serasa Experian mostra que 95% das PMEs não buscaram ou sequer tinham conhecimento de pacotes emergenciais de crédito disponíveis, o que revela um problema que vai além da oferta: falta informação, orientação e, sobretudo, confiança no sistema financeiro.
Parte desse bloqueio é conjuntural, mas outra parte é resultado de fragilidades internas. Muitas PMEs ainda operam sem controle rigoroso de fluxo de caixa, misturam finanças pessoais e empresariais, não produzem demonstrativos confiáveis e tomam decisões sem base em dados.
Em um ambiente de crédito mais restritivo, essas práticas se tornam impeditivas. Bancos, fundos e fintechs passaram a exigir previsibilidade, organização e capacidade de demonstrar sustentabilidade financeira. O faturamento isolado já não é suficiente.
O problema não é exclusivo do Brasil. Relatórios internacionais indicam que pequenas e médias empresas enfrentam restrições semelhantes em economias desenvolvidas. Na Europa, pesquisas mostram queda no número de empresas que sequer tentam negociar crédito.
Globalmente, o Banco Mundial estima um déficit de financiamento de cerca de US$5,7 trilhões para micro, pequenas e médias empresas, com aproximadamente 40% dos negócios formais enfrentando algum tipo de restrição de acesso a capital. Ou seja, o crédito existe, mas está cada vez mais condicionado à maturidade do negócio.
Nesse contexto, falar em crescimento sem falar em reestruturação do processo de Turnaround é ignorar a raiz do problema. Reestruturar não significa apenas cortar custos ou renegociar dívidas, mas reorganizar o negócio para voltar a ser financiável.
Isso passa por profissionalizar a gestão financeira, revisar contratos, separar pessoa física de pessoa jurídica, estruturar indicadores claros e entender qual tipo de capital faz sentido para cada estágio da empresa.
Vale lembrar que nem todo recurso precisa vir de um banco tradicional. O ecossistema de crédito evoluiu, com fintechs, FIDCs (Fundos de Investimento em Direitos Creditórios) e plataformas alternativas avaliando risco com base em dados operacionais e não apenas em garantias patrimoniais.
Também é preciso reconhecer que crédito, hoje, é uma relação de confiança. Empresas que demonstram controle, transparência e planejamento têm mais chances de renegociar passivos, alongar prazos e reconstruir relacionamento com financiadores.
As que insistem em operar na informalidade gerencial tendem a ficar presas a ciclos de endividamento caro e improdutivo.
Por fim, o aperto de crédito não deve desaparecer no curto prazo. Mas a ideia de que ele é simplesmente inacessível mascara uma verdade mais incômoda: o mercado está menos tolerante à desorganização.
Em 2026, crescer exige, antes de tudo, arrumar a casa e ter maturidade para assumir riscos. Para as PMEs que entenderem isso, o capital volta a ser uma alavanca. Para as que ignorarem, continuará sendo um obstáculo permanente e com o risco de morrerem na praia antes mesmo do tempo.
*João Chebante é CEO da Sinergis, empresa brasileira especializada em revenda de software e consultoria estratégica para a transformação digital.