Empresas brasileiras avançam no uso de IA, integrando dados, processos e tecnologia para transformar operação em resultados mensuráveis (VesnaArt/Shutterstock)
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Publicado em 10 de setembro de 2026 às 07h00.
A inteligência artificial já deixou de ser uma tecnologia restrita à experimentação nas empresas brasileiras. Pesquisa da Endeavor com 133 empreendedores de 125 empresas mostra que 70% das companhias reorganizaram áreas ou times em resposta à IA nos últimos 12 meses, enquanto 84% pretendem ampliar os investimentos na tecnologia no próximo ano.
A adoção, porém, ainda não se traduz na mesma proporção em resultados financeiros. Segundo o levantamento, 40% dos empreendedores percebem impacto na satisfação e retenção de clientes, 29% em margem ou EBITDA e 25% em receita. A falta de dados integrados aparece como a principal barreira para avançar no uso da tecnologia.
A transformação exige mais do que disponibilizar ferramentas de IA nas empresas. Segundo a pesquisa, ela começa quando a tecnologia entra na operação, acompanhada por dados, integração de sistemas, arquitetura, governança e redesenho de processos.
Um exemplo é o Templo, que atua nessa frente com o Orchestra, plataforma que materializa o Gêmeo Digital operacional para líderes e equipes. A solução combina agentes autônomos e skills estruturadas aos fluxos de trabalho, usando o contexto vivo das companhias, como e-mails, transcrições de reuniões, documentos, conversas de WhatsApp e integrações com ferramentas de uso diário.
Na Ypê, a IA já está presente na operação logística. Caminhões autônomos de Nível 4 utilizam inteligência artificial, visão computacional e sensores no Centro de Distribuição 4.0, em Amparo (SP), para operar em ambientes controlados, identificar obstáculos e executar manobras, contribuindo para reduzir riscos e aumentar a segurança e a eficiência dos processos.
Na Ultracargo, Big Data, analytics, modelagem estatística e simulações digitais apoiam decisões de investimento, novos ativos e antecipação de cenários. Em parceria com universidades, a empresa também desenvolve uma solução para combater a corrosão em sistemas de ácido fosfórico, com potencial de reduzir em mais de 50% os custos de manutenção corretiva.
A Unipar utiliza IA para otimizar fornos de pirólise e antecipar interrupções não programadas no processo de eletrólise. A companhia também incorporou conteúdos de inteligência artificial à Academia Unipar, voltada à formação e ao desenvolvimento dos colaboradores.
Em outras empresas, a tecnologia está diretamente ligada à experiência do consumidor. Na Livelo, o Expert Livelo analisa hábitos de consumo para recomendar estratégias de acúmulo de pontos. Em 2026, a ferramenta registrou alta de 138% em novos usuários e estruturou cerca de 40 mil planos de viagem. No Shopping Livelo, 22 agentes de IA integrados alcançam 98% de acurácia nas buscas.
Na Autopass, cerca de 1,3 milhão de transações com cartões de gratuidade foram analisadas por biometria facial desde maio, identificando possíveis divergências entre o passageiro e o titular do benefício. A tecnologia amplia a escala da verificação, sem substituir a análise humana.
No agronegócio, a Syngenta utiliza IA na plataforma Cropwise, que reúne soluções para gestão das fazendas, identificação de pragas, monitoramento de lavouras, otimização do plantio e rastreamento de máquinas.
Já a Merck Life Science combina IA e conhecimento científico no SYNTHIA®, software de retrossíntese, e no AIDDISON™, plataforma SaaS que utiliza IA generativa para acelerar a descoberta de fármacos e analisa mais de 60 bilhões de possibilidades.
A adoção também muda a forma como as equipes trabalham. No Canva, nove em cada dez colaboradores utilizam IA semanalmente, em áreas que vão do Jurídico ao Marketing. A tecnologia é usada para aprimorar ideias, otimizar fluxos e reduzir repetições, funcionando como acelerador da criatividade e da produtividade, sem substituir o contexto e o pensamento crítico das pessoas.
Na Positivo Tecnologia, são 123 iniciativas corporativas em produção e 200 especialistas capacitados em IA. A automação já economizou mais de 42 mil horas por ano. No atendimento B2B, a Pietra, assistente de Service Desk, registrou 318 mil interações no setor de seguros e 100% de resolução nos serviços automatizados.
Na Danone Brasil, sensores de condutividade ajudam a otimizar processos e reduzir perdas de matéria-prima na fábrica de Poços de Caldas (MG). A unidade também conta com 11 impressoras 3D para produzir componentes plásticos utilizados nos equipamentos fabris.
A evolução, contudo, depende de uma base capaz de sustentar essas aplicações. Na pesquisa da Endeavor, “dados não integrados” aparecem como o principal desafio para a adoção, citado por 30% dos empreendedores, seguido por falta de talento qualificado e qualidade dos outputs.
Com a evolução dos sistemas de agentes, o desafio também passa a ser administrar o contexto: oferecer a informação necessária no momento certo, manter processos documentados e estabelecer responsabilidades claras.
A questão, portanto, deixa de ser apenas onde aplicar IA e passa a envolver quais processos podem ser redesenhados a partir dela. Para as scale-ups brasileiras, a tecnologia já ultrapassou a fase dos primeiros testes. O próximo passo é transformar essa adoção em resultados que possam ser percebidos e medidos no negócio.