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84% das empresas brasileiras usam IA "aos pedaços": o que o dado revela sobre a maturidade digital (Magnific/Reprodução)
Jornalista
Publicado em 11 de agosto de 2026 às 17h15.
Última atualização em 12 de agosto de 2026 às 09h43.
A inteligência artificial já deixou de ser apenas uma aposta tecnológica para entrar na agenda das empresas brasileiras. O desafio agora é outro: transformar o uso pontual em resultado para o negócio.
Uma pesquisa da Amcham Brasil em parceria com a Humanizadas mostra que 84% dos executivos ouvidos afirmam que suas empresas já utilizam inteligência artificial. O levantamento ouviu 629 executivos, sendo 60% em cargos de alta liderança, e 72% representantes de empresas de médio e grande porte. Juntas, essas companhias empregam cerca de 592 mil pessoas.
O número, porém, precisa ser lido com cuidado. Ele não significa que 84% de todas as empresas brasileiras usem IA. O universo da pesquisa é formado principalmente por organizações médias e grandes.
Em uma amostra mais ampla, a TIC Empresas 2025, do Cetic.br, entrevistou 4.174 companhias com mais de dez funcionários e encontrou uma taxa de adoção de IA de 17% em 2025. Entre as grandes empresas, com mais de 250 funcionários, o índice chegou a 50%.
O que os dois levantamentos mostram, em universos diferentes, é que a adoção da tecnologia avança, mas isso não significa necessariamente maturidade digital.
No levantamento da Amcham, a maioria das empresas que usa inteligência artificial ainda não a incorporou de maneira transversal. A pesquisa aponta que a tecnologia permanece concentrada em iniciativas isoladas, sem integração completa aos processos e à estratégia.
O nível de investimento ajuda a explicar o cenário. Segundo o estudo, 77% das empresas não investem em IA ou destinam até 2% do orçamento à tecnologia. Apenas 9% afirmam direcionar mais de 5% do orçamento para a área.
Na prática, isso significa que uma empresa pode ter funcionários usando ferramentas generativas para produzir textos, resumir documentos ou analisar informações sem que a tecnologia esteja conectada aos sistemas e processos que determinam seus principais resultados.
Esse tipo de utilização pode gerar ganhos individuais de produtividade, mas é diferente de redesenhar um processo inteiro com IA.
O principal sinal de baixa maturidade aparece quando a pesquisa mede o impacto sobre os negócios.
Em 2025, 34% dos entrevistados disseram que a IA produziu resultados pontuais, sem efeito relevante no negócio. Outros 27% afirmaram não ter obtido nenhum resultado relevante. Somados, os dois grupos representam 61% dos respondentes.
Apenas 28% relataram ganhos operacionais, como eficiência ou redução de custos. Outros 8% identificaram impacto visível em produtos e serviços. Só 3% disseram ter transformado a IA em novas receitas e vantagem competitiva.
O dado sugere que o principal desafio não está mais em experimentar a tecnologia, mas em integrá-la ao modelo de negócio.
A concentração por área também ajuda a entender esse estágio.
Atendimento e experiência do cliente aparecem em primeiro lugar, citados por 59% dos respondentes. Marketing e vendas vêm na sequência, com 54%.
Já áreas como estratégia de negócio e finanças aparecem com 38% cada. Recursos humanos e sustentabilidade ficam em 29%.
Isso indica uma utilização mais próxima de aplicações específicas e visíveis do que de uma transformação ampla da operação.
Para profissionais, a mudança significa que saber usar uma ferramenta de IA é apenas uma parte da competência necessária. Entender processos, dados, objetivos de negócio e limites da tecnologia passa a ser igualmente relevante.
A pesquisa da Amcham aponta três principais obstáculos para ampliar os resultados da IA.
O próprio levantamento coloca a capacitação técnica da equipe como o principal fator crítico para avançar com IA, citado por 64% dos respondentes. Na sequência aparecem uma estratégia clara de uso, com 52%, e a qualidade dos dados internos, com 43%.
O cenário mostra por que maturidade digital não pode ser medida apenas pela quantidade de ferramentas adotadas. Uma empresa pode ter acesso a modelos avançados e, ainda assim, não conseguir conectá-los aos dados, sistemas e decisões que sustentam sua operação.
Para quem trabalha em uma organização que está adotando inteligência artificial, alguns sinais ajudam a identificar em que estágio ela está:
O desafio apontado pela pesquisa está justamente na passagem dos primeiros estágios para os níveis de integração e escala.
Para o profissional, isso também muda a natureza das habilidades valorizadas. Além de conhecer ferramentas, ganha importância a capacidade de identificar problemas que podem ser resolvidos com IA, avaliar resultados, trabalhar com dados e conectar tecnologia às metas da área.
A inteligência artificial, portanto, não é necessariamente um indicador isolado de maturidade digital. O que importa é como a empresa utiliza a tecnologia e se consegue incorporá-la aos processos que produzem valor.