Cinema gera bons resultados para quem for além de product placement

Na era em que marketing e entretenimento se confundem, participar do financiamento de projetos audiovisuais rende conteúdo e gera visibilidade

Por André Sobral*

A produção audiovisual no Brasil vive um momento de crise profunda, com o acesso ao FSA (Fundo Setorial do Audiovisual) e à Lei do Audiovisual dificultado pela falta de transparência, alta burocracia e lentidão para liberar recursos a contratações já contempladas em editais por parte da Ancine (Agência Nacional de Cinema). Com isso, uma das saídas para destravar o setor parece estar nos modelos de financiamento privado, nos quais algumas produtoras independentes têm se engajado com mais ênfase.

Esse contexto representa uma grande oportunidade para marcas e pessoas físicas dispostas a investir no cinema nacional. Do ponto de vista desses players, não é de hoje que o cinema gera bons resultados financeiros, mas os modelos de parceria já vão muito além de product placement ou patrocínio. Já não é suficiente simplesmente ter o nome nos créditos de um sucesso de bilheteria. As novas relações com os consumidores exigem que as empresas invistam em histórias que conversem com seus valores e propósitos e gerem conexão com suas audiências.

Principalmente em um momento em que o audiovisual tornou-se parte indispensável da rotina dos consumidores, e o vídeo cresce como nunca, investir em filmes e séries gera diversos tipos de conteúdos originais e autênticos que podem ser usados em uma estratégia transmídia. Além disso, é vantajoso participar de uma indústria que gera renda, empregos e funciona como vitrine para o Brasil no exterior. E agora isso funciona para investidores empresariais de todos os níveis.

A marca mineira de camisetas Chico Rei, por exemplo, encontrou uma confluência de narrativas e entrou na pós-produção do documentário Chico Rei Entre Nós (2020), produzido pela Abrolhos Filmes, cujo financiamento foi privado, com expectativa de retorno a partir do licenciamento nacional e internacional.

A coprodução teve um desdobramento transmídia, com a gravação de uma adaptação da história do longa em vídeo-dança, material que foi exibido como websérie nas redes sociais da loja virtual durante o Mês da Consciência Negra. A ideia caiu como uma luva para a Chico Rei,  já que essa temática está intrinsecamente ligada ao seu DNA de busca das raízes históricas de Minas Gerais.

Entre os resultados estão 45 mil de alcance, mais de 11 mil views e mais mil interações, com aumento do engajamento da audiência. Saindo do digital, o documentário ainda foi exibido em uma penitenciária de Juiz de Fora onde a marca mantém um projeto social.

Outros modelos

Para empresas que preferem manter um envolvimento menor na produção dos projetos, existem outros modelos vantajosos. As distribuidoras, por exemplo, podem ser catalisadoras de parcerias, direcionando o investidor a projetos de maior apelo comercial. Foi o caso do longa Turma da Mônica Laços (2019), produzido pela Biônica Filmes, que anexou investimento privado ao fomento público.

É importante que o investidor observe se o projeto está de acordo com as demandas atuais do mercado, que é cada vez mais digital e moldado pelos consumidores. Temas mais universais, personagens fortes cujas histórias são guiadas mais por ações e menos por caráter, e foco no streaming são fatores valiosos para ter sucesso.

Investir em filmes mais autorais ou de arte é um pouco mais arriscado em termos de retorno, mas sua relevância é indiscutível no tocante à diversidade de temáticas intrínsecas à condição humana e ao seu caráter experimental. A solução seria procurar uma produtora que ofereça uma carteira de projetos que misture esses títulos a outros mais comerciais, para garantir que “uma pague a outra”. É uma lógica semelhante à utilizada no setor de startups: para diluir o risco, o mais prudente é colocar verba em mais de um player.

Uma forma de ter mais segurança no retorno é optar pelo empréstimo para o desenvolvimento do projeto – fase de pesquisa e produção do roteiro. Nesses moldes, o valor precisa ser retornado, independentemente do sucesso da produção, com juros, correção e tudo o que for acordado entre as partes. Também é possível pré-fixar uma rentabilidade, formato que é muito utilizado nos EUA.

Na terra de Hollywood, inclusive, utiliza-se um formato de sociedade não personificada (dependente de outra sociedade) para incubar a operação de produções audiovisuais, semelhante à SCP (Sociedade em Conta de Participação) que temos no Brasil – aqui, entretanto, ela ainda é mais empregada em outros setores, como construção civil. Esse modelo permite que os parceiros aportem recursos financeiros e materiais e que os lucros sejam divididos, sem que haja tributação na distribuição desses resultados.

Fernando Quintino, advogado especialista no setor do escritório Cesnik, Quintino, Salinas, Fittipaldi e Valério Advogados, explica que as vantagens são societárias, fiscais e contábeis. Esse modelo traz mais transparência para toda a operação, deixa as obrigações mais amarradas sob a ótica contratual e traz maior segurança jurídica para o sócio participante. É indicado para produções de médio ou grande porte, em função do orçamento do projeto.

É indiscutível a relevância da indústria do cinema no mundo e os benefícios que fortalecer esse setor traria para uma cadeia extensa da economia brasileira. O papel do fomento público é essencial para essa mudança, mas diante dos entraves dos últimos anos, urge a necessidade de outros setores da sociedade se levantarem para salvar nossa produção.

*André Sobral é formado em Direito com pós-graduação em Marketing pela FGV e Direção de Cinema pelo Maine Media College. É produtor da Abrolhos Filmes, por onde produziu seu primeiro longa, o documentário “Chico Rei Entre Nós” (Joyce Prado, 2020), premiado na 44ª Mostra Internacional de São Paulo. Foi produtor associado de três filmes realizados por meio de coproduções internacionais, entre eles “Call Me By Your Name” (Luca Guadagnino, 2017), indicado ao Oscar 2018.

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