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Apesar da crise, pedidos de demissão no Brasil batem recorde

Os últimos dois anos têm sido intensos em transformações em vários setores da economia global
Relação entre o profissional e o trabalho mudou (Anchalee Phanmaha/Getty Images)
Relação entre o profissional e o trabalho mudou (Anchalee Phanmaha/Getty Images)
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Publicado em 28/09/2022 às 16:00.

Última atualização em 28/09/2022 às 16:12.

Por Marcelo de Sá* 

A experiência do home office trouxe outras perspectivas. Novas maneiras de trabalhar como o anywhere office tomaram corpo. O que esperar das organizações e, principalmente, dos profissionais, que já não enxergam mais seus empregos exercendo o papel central em sua vida? 

Houve claramente uma mudança de comportamento dos profissionais. Entre julho de 2021 e julho de 2022, o país registrou cerca de 6,5 milhões de pedidos de demissão de trabalhadores com carteira assinada. Trata-se de um recorde histórico, apesar do alto índice de desemprego, inflação persistentemente alta e uma taxa de juro fortemente contracionista. Em relação aos mais de 4,5 milhões de demissões de um ano atrás, houve aumento de 42,5% dentro do acumulado de 12 meses. 

A busca por realização pessoal, além da profissional, através de mais flexibilidade no trabalho, e da priorização da saúde mental, mantendo distância de ambientes corporativos tóxicos, estão entre as principais motivações de quem decide pedir demissão de forma voluntária no Brasil. 

Evidentemente, segundo levantamento do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), grande parte dessas demissões ainda é de um grupo privilegiado, geralmente de perfil jovem, masculino e com escolaridade alta, que não teria dificuldades de se recolocar no mercado de trabalho. 

De toda forma, o movimento do mercado deixa claro que a relação dos profissionais com o trabalho mudou, tanto as prioridades quanto a tolerância com condições de trabalho ruins diminuíram, obrigando as empresas a repensarem seus modelos de negócios, levando em consideração, cada vez mais, a experiência do colaborador. 

Investimento em programas de bem-estar e estímulos à promoção da saúde, com ênfase na saúde mental cresceram entre as organizações brasileiras, nos últimos anos, com objetivo de incentivar a qualidade de vida dos colaboradores. Movimentos como o #MenteEmFoco impulsionaram boas práticas em empresas como a Nestlé, que hoje oferece a seus colaboradores o direito a um profissional especializado para aconselhamento e orientação de crises, assim como o treinamento dos líderes para a conquista de boas condutas. 

Além disso, é prática na empresa a adoção do home office, horários flexíveis e novas rotinas de trabalho. O gigante de alimentos passou a oferecer ainda acompanhamento individualizado para os profissionais, incluindo uma rede de apoio permanente, e lançou uma plataforma online que reúne conteúdo de nutrição, saúde física e mental aos colaboradores e familiares.

Grande renúncia e quiet quitting: fenômenos mundiais 

A máxima do sociólogo alemão Max Weber, de que “o trabalho dignifica o homem” parece não ter mais o mesmo peso nos tempos atuais, em que o quiet quitting avança no universo corporativo global. 

Pedir demissão no meio de uma crise econômica pode parecer loucura, porém é mais natural para os que vivem em países desenvolvidos, como os Estados Unidos, cujo índice de desemprego é baixo e o mercado de trabalho está aquecido. 

Mais de 4 milhões de americanos deixam seus empregos voluntariamente. Por mês! O fenômeno que começou em 2021, após mudanças no comportamento da força de trabalho decorrentes da pandemia, ganhou tanto peso, que além do nome Great Resignation, ganhou o mundo e alcançou o Brasil. 

Por aqui, apesar das condições adversas, o país também vive sua onda. Todos os meses, quase 500 mil trabalhadores brasileiros pedem demissão. É o dobro do registrado nos anos anteriores à pandemia, de acordo com o estudo encomendado pela Você S/A ao estúdio de inteligência de dados Lagom Data. 

A cada mês, mais brasileiros jogam seus crachás fora e, em nome de mais qualidade de vida, registram seus CNPJs. Isso significa que, diante do esgotamento e dos altos níveis de ansiedade da maioria dos trabalhadores, muitos decidiram atuar de forma autônoma, mesmo que seja para ganhar menos, financeiramente. 

O artigo, que pode ser traduzido para o português como A era da Anti-Ambição, publicado no The New York Times, afirma que “quando 25 milhões de pessoas pedem demissão, não é apenas burnout”. O autor chama a atenção para modelos desgastados de gestão nas grandes corporações e para as mudanças de comportamento das novas gerações. 

Os trabalhadores estão menos dispostos a gastar tempo e todas as suas energias com uma rotina de trabalho exaustiva sem um "propósito”. A maioria dos profissionais que pediram demissão no Brasil abriram mão de maiores salários e de assumir mais responsabilidades no trabalho em troca de “viver mais simples”. 

Eu me demito! Eu também! E eu! 

Se refletirmos a respeito desse comportamento, vamos notar que, assim como acontece com outras situações envolvendo pessoas, a rotatividade em uma empresa é influenciada por questões sociais. Isto significa dizer que um pedido de demissão pode gerar um efeito contágio na organização e provocar uma reação em cadeia. 

Segundo uma pesquisa sobre contágio e rotatividade, realizada na Universidade de Nova Gales do Sul, em Sydney, na Austrália, quando um indivíduo pede demissão do trabalho e sai, ele involuntariamente sinaliza aos demais que não há perigo naquela ação. 

Fazendo um paralelo com o universo selvagem, em uma manada de búfalos, a maioria dos animais espera os mais corajosos pularem no rio e atravessarem, antes de fazerem o mesmo. Colegas de trabalho agem parecido em um pedido de demissão, que pode ter como consequência um êxodo em massa. E quanto mais elevada for a posição hierárquica de quem sai, maior propensão tem de influenciar os outros. 

Sofrer uma debandada repentina poderia ter consequências muito ruins nas empresas brasileiras, que têm sido desafiadas a diminuir o turnover por já sofrerem com carência de mão de obra qualificada (Olha a educação aí de novo!). A notícia ruim é: o fenômeno das demissões deve continuar até que a economia se estabilize e volte a crescer, gerando empregos de forma consistente, o que, segundo as previsões mais otimistas, vai ocorrer lá para 2025. 

A legislação trabalhista no Brasil reserva alguns benefícios a quem fica sem emprego. Porém, o trabalhador deixa de receber alguns ao pedir demissão: multa de 40% sobre o saldo do FGTS; saque do saldo total do FGTS; e seguro-desemprego. 

Para se manterem competitivas, a tendência é as empresas investirem em políticas para atrair e reter talentos de forma sustentável. Organizações mais inovadoras já estão repensando novos modelos de trabalho, sem as jornadas de trabalho duras e imutáveis. 

Certamente, vivemos o início de um novo nível de consciência no mundo do trabalho, algo que nós brasileiros estamos apenas começando a experimentar. Para as empresas, no final das contas, ter um profissional que percebe e exerce esse equilíbrio entre vida pessoal e trabalho tende a elevar a produtividade, o engajamento e, principalmente, lealdade à empresa. Assim, o fantasma do pedido de demissão deve ficar para trás e a relação entre empresa e empregador voltar a se fortalecer, em um movimento em que todo mundo sai ganhando. 

*Marcelo de Sá é CFO do Grupo Petrópolis, fabricante das marcas de cerveja Itaipava, Petra, Black Princess, Cacildis, Crystal, Lokal e Weltenburger Kloster, do refrigerante it!, do energético TNT e da água mineral Petra 

 

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