Advogado discute o tema da IA em detalhes (AndreyPopov/Getty Images)
Colunista Bússola
Publicado em 18 de março de 2026 às 10h17.
A tese de que a inteligência artificial substituirá advogados rapidamente tornou-se comum no debate tecnológico. O argumento parece intuitivo: se sistemas de IA conseguem ler milhares de decisões judiciais, resumir precedentes, comparar contratos e redigir textos complexos, então grande parte do trabalho jurídico poderia desaparecer.
Quando se observa o funcionamento real da profissão, porém, essa conclusão se mostra precipitada. O mercado jurídico não está encolhendo com a chegada da IA. Ao contrário, continua crescendo e se sofisticando.
O autor deste artigo é um advogado, sim, de fato. Mas, vamos aos dados: Nos Estados Unidos, os lucros por advogado nas maiores bancas aumentaram cerca de 54% desde 2019, segundo levantamento do Thomson Reuters Institute. Ao mesmo tempo, as taxas horárias cobradas pelos escritórios cresceram a mais do que o dobro da inflação.
No Brasil, o cenário também revela um setor robusto e em expansão. O país possui mais de 1,4 milhão de advogados registrados na Ordem dos Advogados do Brasil, o que representa aproximadamente um advogado para cada 144 habitantes, a maior proporção do mundo.
Além disso, o mercado jurídico brasileiro movimentou cerca de US$ 43,5 bilhões em 2024 e pode atingir US$ 57,4 bilhões até 2030, com crescimento anual estimado em 4,7%.
Se a inteligência artificial estivesse prestes a eliminar a profissão, seria difícil explicar esse crescimento. Na prática, três fatores estruturais continuam protegendo a advocacia de uma substituição direta por IA: a complexidade econômica do trabalho jurídico, as barreiras regulatórias para exercer a profissão e o fato de que a própria inteligência artificial está criando novos conflitos jurídicos.
Grande parte da economia moderna depende de estruturas jurídicas complexas. O setor de private equity ilustra bem essa realidade.
Antes mesmo de uma aquisição ocorrer, advogados estruturam fundos, definem direitos de investidores, organizam cláusulas de governança e negociam os termos de financiamento. Em uma transação corporativa relevante, praticamente todos os aspectos jurídicos são discutidos e redigidos com grande detalhamento.
Esse papel estrutural explica por que alguns escritórios se tornaram extremamente lucrativos. O escritório Kirkland & Ellis, por exemplo, recebeu quase 200 milhões de dólares apenas da gestora Blackstone nos últimos dois anos.
A inteligência artificial já auxilia na revisão de contratos, na organização de documentos e na pesquisa de precedentes. Ainda assim, a estruturação de transações envolve negociação estratégica, avaliação de riscos regulatórios e desenho institucional de governança. Essas decisões continuam dependendo de julgamento humano e responsabilidade profissional.
Outro fator decisivo é institucional. Advogar não se resume à elaboração de argumentos jurídicos ou à redação de peças processuais. Trata-se, antes de tudo, do exercício de uma atividade profissional regulada pelo Estado.
Em outras palavras, conhecer a lei ou produzir um texto juridicamente plausível não é suficiente. Para representar clientes perante tribunais, negociar formalmente em nome de terceiros ou assumir responsabilidade jurídica por determinada posição processual, é indispensável possuir autorização profissional.
No Brasil, por exemplo, o exercício da advocacia depende de aprovação no Exame de Ordem e inscrição ativa na Ordem dos Advogados do Brasil. Sem essa inscrição, mesmo um bacharel em Direito não pode atuar como advogado perante tribunais ou prestar serviços jurídicos profissionalmente.
Esse requisito cria uma barreira institucional importante para a substituição por inteligência artificial. Um software pode produzir textos jurídicos sofisticados, mas não pode se inscrever na ordem profissional, assumir responsabilidade disciplinar ou representar formalmente um cliente perante o Poder Judiciário.
A advocacia, portanto, não depende apenas de conhecimento técnico. Ela depende de autorização institucional, responsabilidade profissional e reconhecimento processual.
Existe ainda um fenômeno curioso: a expansão da inteligência artificial está criando novos conflitos jurídicos.
A empresa de inteligência artificial Anthropic, cujo diretor executivo afirmou que suas ferramentas de IA em breve poderiam substituir advogados juniores, está envolvida em disputas regulatórias relevantes com o governo americano.
Já a OpenAI enfrenta múltiplos processos simultaneamente. Entre eles está a ação movida por Elon Musk questionando mudanças na estrutura societária da empresa, além de disputas relacionadas a direitos autorais e responsabilidade civil.
Há ainda um episódio curioso envolvendo a seguradora japonesa Nippon Life. A empresa processou a OpenAI alegando que um ex-funcionário apresentou dezenas de reclamações que teriam sido geradas por inteligência artificial. Segundo a ação, responder a essas demandas custou cerca de 300 mil dólares.
Esse caso revela um efeito inesperado da tecnologia. À medida que ferramentas de IA tornam mais fácil produzir petições, reclamações ou notificações jurídicas, empresas podem enfrentar um volume maior de disputas. Isso não elimina advogados. Ao contrário, aumenta a necessidade de profissionais capazes de estruturar defesas e estratégias jurídicas.
A inteligência artificial certamente transformará a advocacia. Ferramentas tecnológicas já ajudam advogados a pesquisar jurisprudência, revisar contratos e organizar grandes volumes de informação.
Essas funções aumentam produtividade e reduzem tempo gasto em tarefas repetitivas. Ainda assim, o núcleo da profissão permanece humano.
Advogar envolve interpretar normas ambíguas, negociar interesses conflitantes, construir estratégias institucionais e avaliar riscos regulatórios em ambientes complexos. Em muitas situações, não existe uma resposta jurídica automática.
Clientes sofisticados não procuram apenas alguém que conheça a lei, mas procuram profissionais capazes de tomar decisões jurídicas sob incerteza e assumir responsabilidade por essas decisões.
Por essa razão, a tendência mais plausível não é o desaparecimento da advocacia, mas sua transformação. A inteligência artificial tende a automatizar tarefas rotineiras, enquanto aumenta o valor do aconselhamento estratégico.
No final, a conclusão é quase irônica: A tecnologia frequentemente apontada como ameaça à profissão pode acabar reforçando sua importância. Quanto mais complexa se torna a economia digital, maior tende a ser a necessidade de interpretação jurídica, regulação institucional e resolução estruturada de conflitos.
Autor: Rafael Albuquerque é advogado, especialista em Governança Corporativa e fundador da Calix Family Office