O CFO de 2026 atua como orquestrador da estratégia e da transformação tecnológica (Getty Images)
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Publicado em 27 de fevereiro de 2026 às 17h00.
Por Talita Braga*
Durante muito tempo, a liderança financeira esteve ligada a funções de controle, fechamento e conformidade.
No entanto, esse papel mudou e, em 2026, essa transformação atinge um novo estágio.
O CFO contemporâneo assume uma função decisiva na estratégia, no ritmo de operação e na resiliência das empresas.
Trata-se de uma transição do operacional para o estrutural, impulsionada por tecnologia, regulação, dados e, sobretudo, pela necessidade de decisões mais rápidas e bem-informadas.
O movimento é comprovado por dados recentes. Segundo a Deloitte, 74% dos CFOs brasileiros pretendem adotar inteligência artificial generativa em suas operações até 2026, mas apenas 15% já o fizeram.
Isso revela não apenas intenção, mas também um gap significativo entre ambição e capacidade de execução.
A mesma pesquisa aponta desafios como integração de sistemas e capacitação de equipes como entraves centrais. Ou seja, o papel do diretor financeiro deixou de ser técnico e passou a ser, também, orquestrador de transformação.
Um dos maiores vetores dessa mudança é a aplicação prática da inteligência artificial em finanças.
Se antes falávamos apenas de automação de tarefas, agora entramos na era dos agentes de IA — sistemas autônomos capazes de planejar, executar e ajustar processos complexos com mínima intervenção humana.
A previsão do Gartner é de que, até 2028, 33% das aplicações empresariais terão agentes de IA embarcados.
As implicações são evidentes: ciclos de fechamento mais curtos, menos erros, planejamento proativo com simulações em tempo real e monitoramento contínuo de riscos como fluxo de caixa, fraudes e capital de giro.
No entanto, embora 63% dos líderes já tenham iniciado esse processo, apenas 21% conseguem demonstrar retorno mensurável sobre o investimento.
O que separa intenção de resultado é governança: "casos de uso bem definidos, métricas claras e integração real entre áreas." Nesse ponto, a relação entre o CFO e o CIO ganha uma nova centralidade. De acordo com a KPMG, 93% dos executivos de finanças e tecnologia afirmam que a adoção de IA aumentou o nível de colaboração entre os dois setores.
Isso se deve à crescente complexidade mercadológica que hoje exige decisões conjuntas sobre arquitetura, interoperabilidade e segurança. Já não é mais viável aprovar projetos financeiros sem que a camada tecnológica esteja presente desde a origem.
O sucesso — ou fracasso — da digitalização depende dessa aliança.
Além da tecnologia, o cenário macroeconômico tem colocado pressão sobre a liquidez. Com juros elevados, inflação persistente e oscilações na cadeia de suprimentos, o capital de giro voltou ao centro da estratégia.
Estudos da PwC e da KPMG indicam que empresas que gerenciam o capital de forma proativa podem liberar entre 10% e 20% da receita em caixa capturável.
Antecipação de recebíveis com análise de risco, alongamento inteligente de contas a pagar e visibilidade de caixa em tempo real são três alavancas que se destacam.
Isso se torna ainda mais crítico em setores como o varejo e a manufatura, onde o peso do estoque é significativo.
Segundo relatório da Infor, os custos logísticos no Brasil podem ultrapassar R$ 940 bilhões por ano — o que reforça a importância da visibilidade financeira nas decisões operacionais.
No campo regulatório, a agenda também se intensifica. A adoção obrigatória das normas IFRS S1 e S2 no Brasil, aliada à chegada do IFRS 18 em 2027, transforma a conformidade em um processo contínuo.
Não basta mais estar em dia com as obrigações ao final de um trimestre: é preciso garantir rastreabilidade, transparência e governança em tempo real.
A CVM e a ABRASCA, por exemplo, já vêm orientando companhias listadas a se prepararem para esses padrões, que exigirão mudanças significativas na forma como dados contábeis e de sustentabilidade são reportados.
A Reforma Tributária brasileira adiciona outra camada de complexidade, exigindo integração total entre áreas financeira, fiscal e contábil.
A consequência direta é que o compliance, antes visto como um fim, agora se consolida como infraestrutura estratégica.
Por fim, a digitalização não pode mais se sustentar apenas em narrativas tecnológicas. A exigência é clara: apresentar ROI real.
Governança desde o início, dados limpos, sistemas integrados e pessoas capacitadas são os pré-requisitos para transformar intenção em resultado.
A Codio aponta que 80% dos líderes financeiros pretendem ampliar os investimentos em requalificação até 2027. Isso não é apenas uma questão de RH, mas um pilar estratégico para lidar com a velocidade da mudança.
O Fórum Econômico Mundial reforça que a inteligência artificial deverá afetar milhões de empregos, inclusive nas funções gerenciais e administrativas.
O impacto maior, porém, estará na forma como líderes escolhem reagir a essa transição. As próximas decisões moldarão o perfil dos profissionais financeiros e o grau de resiliência das empresas para a próxima década.
Em 2026, a liderança financeira não será medida apenas por sua capacidade de controlar custos ou entregar relatórios.
Ela será avaliada por sua habilidade de formar alianças, antecipar riscos, acelerar decisões e construir vantagem competitiva com tecnologia, dados e pessoas no centro da estratégia.
O novo CFO já chegou — e sua agenda é, mais do que nunca, uma agenda de futuro.
*alita Braga é diretora Executiva Financeira para Infor América Latina.