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Testemunhas dizem que polícia inventou provas em Carandiru

A defesa alega que sem provas técnicas de balística é impossível determinar que agentes dispararam e mataram, pois participaram 284 policiais militares


	O julgamento, que começou depois de mais de 20 anos do massacre, foi reiniciado hoje, uma semana depois da data prevista, com a escolha de um novo júri popular
 (Marcelo Camargo/ABr)

O julgamento, que começou depois de mais de 20 anos do massacre, foi reiniciado hoje, uma semana depois da data prevista, com a escolha de um novo júri popular (Marcelo Camargo/ABr)

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Da Redação

15 de abril de 2013, 20h42

São Paulo - As primeiras testemunhas de acusação no julgamento que começou nesta segunda-feira de 26 dos 79 agentes indiciados pelo "massacre do Carandiru", ocorrido em 1992 em São Paulo, afirmaram que a polícia plantou provas falsas para justificar a morte de 111 presos.

O ex-detento Antonio Carlos Dias, o primeiro a ser escutado na audiência, afirmou que a polícia "pôs armas nas celas" e que o número de mortos era tão alto que os detidos tinham que "escalar" os corpos amontoados no pátio número 9 da extinta penitenciária paulista.

A defesa alega que sem as provas técnicas de balística é impossível determinar que agentes dispararam e mataram, pois participaram da operação 284 policiais militares.

Nenhum dos 284 agentes morreu, e os 11 feridos do organismo de segurança foram atacados com facas e pedaços de madeira, apesar de a polícia ter alegado que invadiu o complexo porque os detentos tinham armas de fogo.

A segunda testemunha, Marco Antonio de Moura, outro ex-detento, relatou por sua vez que teve que fingir estar morto, mas conseguia ver um dos agentes acusados matar com golpes de cassetete os presos que tentavam sair por um elevador e pelas escadas de emergência.

"Ele (o policial) contava 1, 2, 3 e dava um golpe, e assim matou muitos no elevador, mas eles também faziam com que os cachorros mordessem muita gente", contou a segunda testemunha ouvida no primeiro dia do julgamento.

Moura também afirmou que a polícia perguntou aos presos reunidos no pátio por quem estava ferido, e muitos dos que levantaram a mão e que aparentemente não tinham lesões de gravidade depois apareceram mortos.

"Graças a Deus não levantei a mão, pois quem a levantava foi levado e nunca mais visto com vida", disse o sobrevivente.


O julgamento, que começou depois de mais de 20 anos do massacre, foi reiniciado hoje, uma semana depois da data prevista, com a escolha de um novo júri popular, pois no último dia 8 uma das escolhidas teve problemas de saúde e o processo foi suspenso. O novo júri foi integrado por seis homens e uma mulher.

O juiz José Augusto Nardy Marzagão voltou a ler a lista de acusações a 24 dos 26 acusados pela morte de 15 dos 111 presos, pois dois deles não se apresentaram por problemas de saúde.

O massacre ocorreu em 2 de outubro de 1992, quando a Polícia Militar invadiu o complexo penitenciário do Carandiru em resposta a uma desordem interna entre os detentos.

Está previsto que nos próximos dias compareçam outros ex-presidiários, juízes e o governador de São Paulo quando ocorreu o massacre, Luiz Antônio Fleury Filho.

A Justiça processará 79 policiais em quatro fases, devido a seu alto número.

O coronel da Polícia Militar que dirigiu a operação, Ubiratan Guimarães, foi condenado em 2001 a 632 anos de prisão, mas nunca ficou detido e se dedicou à vida política como deputado estadual até 2006, quando foi absolvido em uma apelação.

Meses depois, foi assassinado em estranhas circunstâncias dentro de seu apartamento e sua namorada, a principal suspeita, foi declarada inocente do crime por falta de provas.

Além disso, o diretor da penitenciária na época do massacre, José Ismael Pedrosa, foi assassinado a tiros em 2005 após votar em um referendo sobre a proibição do comércio de armas de fogo no país.

O complexo de Carandiru foi parcialmente demolido em 2002 para a construção de um parque ecológico, duas escolas técnicas e uma biblioteca.