Trump e Lula: tarifaços americanos e sanções amargam a diplomacia com o Brasil (Andrew Reynolds/AFP/AFP)
Estagiária de jornalismo
Publicado em 4 de agosto de 2026 às 19h29.
A revogação do visto da embaixadora do Brasil nos Estados Unidos, Maria Luiza Ribeiro Viotti, nesta terça-feira, 4 de agosto, elevou mais um degrau na crise diplomática entre Brasília e Washington.
Segundo o Departamento de Estado americano, a medida foi adotada em razão da falta de concessão do agrément pelo governo brasileiro ao novo embaixador indicado pelos Estados Unidos para atuar em Brasília, Daniel "Danny" Perez.
Apesar da decisão, Viotti poderá permanecer em território americano enquanto o impasse diplomático não for resolvido. Segundo autoridades americanas, a revogação do visto não equivale à expulsão do país e poderá ser revertida caso o governo brasileiro conceda o agrément ao diplomata escolhido por Donald Trump.
O episódio ocorre poucos dias após o Brasil negar visto a dois diplomatas americanos que pretendiam discutir o processo eleitoral brasileiro e se reunir com o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), ampliando uma sequência de disputas comerciais, políticas e diplomáticas entre os dois países. Entenda a crise em cinco pontos.
A primeira grande escalada ocorreu em 15 de julho, quando o governo de Donald Trump confirmou uma tarifa adicional de 25% sobre parte das exportações brasileiras, que passou a vigorar na semana seguinte, sob a justificativa de práticas comerciais consideradas prejudiciais aos interesses americanos.
O governo brasileiro contestou a medida desde o início. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que "não há justificativa" para a cobrança e declarou que o país não abrirá mão de defender temas considerados estratégicos, como o Pix, a soberania nacional e os produtores brasileiros.
Em 23 de julho, Washington anunciou uma nova tarifa de 12,5% sobre produtos brasileiros e de outros 59 parceiros comerciais, alegando que esses países não adotariam mecanismos suficientes para impedir a comercialização de bens produzidos com trabalho forçado. A cobrança entrou em vigor em 24 de julho. O Brasil rejeita essa acusação.
Segundo levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI), a combinação das duas medidas fez com que 3.985 produtos brasileiros passassem a enfrentar uma tarifa total de 37,5%. Ao todo, 48,7% das exportações brasileiras destinadas aos Estados Unidos passaram a estar sujeitas a algum tipo de sobretaxa.
Em 29 de julho, o governo americano renovou por mais um ano a emergência nacional declarada contra o Brasil em julho de 2025.
A medida havia sido adotada com base na Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional (IEEPA), no contexto da prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado.
Embora a tarifa de 40% originalmente vinculada a essa emergência tenha sido derrubada pela Suprema Corte dos Estados Unidos, tornando a renovação sem efeitos econômicos imediatos, o governo brasileiro reagiu afirmando que Washington voltou a repetir alegações "infundadas e inverídicas" de que o Brasil representaria uma ameaça à segurança nacional americana.
Também em 24 de julho, o Itamaraty negou visto a Riley Barnes, secretário-assistente para Democracia, Direitos Humanos e Trabalho do Departamento de Estado, e a Samuel Samson, subsecretário-adjunto.
Os dois diplomatas pretendiam viajar ao Brasil para tratar das eleições de 2026. Segundo informações divulgadas anteriormente, eles fariam questionamentos sobre as urnas eletrônicas e produziriam um relatório sobre o processo eleitoral brasileiro. A agenda também previa uma reunião com o senador Flávio Bolsonaro.
O governo brasileiro entendeu que a missão poderia reforçar teorias conspiratórias sobre o sistema eleitoral e decidiu impedir a entrada dos representantes americanos.
A resposta dos Estados Unidos veio nesta terça-feira, 4 de agosto, com a revogação do visto da embaixadora Maria Luiza Ribeiro Viotti, primeira mulher a comandar a missão diplomática brasileira em Washington.
Segundo o Departamento de Estado, a medida foi tomada porque o governo brasileiro ainda não concedeu o agrément ao novo embaixador americano indicado para Brasília, o republicano Daniel "Danny" Perez, escolhido por Donald Trump em 1º de junho. Autoridades americanas afirmam que concluíram que essa autorização provavelmente só será concedida após as eleições presidenciais brasileiras de outubro.
Washington ressaltou que a decisão não representa a expulsão da diplomata brasileira. Viotti poderá permanecer nos Estados Unidos durante o impasse, mas sem visto válido. O governo americano afirmou ainda que, caso a situação seja normalizada e o agrément seja concedido, o visto poderá ser restabelecido.
Os Estados Unidos também indicaram que poderão adotar novas medidas recíprocas caso persistam restrições a seus diplomatas, embora tenham afirmado que essa não é a solução desejada. Enquanto isso, o governo brasileiro segue defendendo a soberania nacional, o sistema eleitoral e a independência de suas instituições diante da deterioração das relações entre Brasília e Washington.