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Tarifa zero e 'bonde digital': como o transporte pode entrar na disputa presidencial

Pré-candidatos têm divulgado projetos e propostas na área, que envolvem mudanças de cobrança e novas tecnologias

Tarifa zero: medida em São Paulo vale aos domingos e em alguns feriados

Tarifa zero: medida em São Paulo vale aos domingos e em alguns feriados

Rafael Balago
Rafael Balago

Repórter de internacional e economia

Publicado em 4 de fevereiro de 2026 às 06h01.

Projetos relacionados ao transporte público têm sido defendidos por candidatos que devem disputar a Presidência nas eleições de 2026, como o presidente Lula e os governadores Ratinho Jr. e Ronaldo Caiado. As medidas incluem tarifa zero, passagem congelada, renovação de frota e a adoção de novas tecnologias, como a de um "bonde digital".

O presidente Lula, que deve buscar a reeleição, pediu estudos sobre a viabilidade do governo federal adotar um programa de tarifa zero nos transportes públicos do país.

"Nós estamos, neste momento, fazendo uma radiografia do setor a pedido do presidente Lula. Ele sabe que esse tema é importante para os trabalhadores, para o meio ambiente e para a mobilidade urbana", disse o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, em entrevista à TV Record, em outubro.

No entanto, Haddad ponderou que ainda será preciso resolver a questão de como custear a medida sem prejudicar as contas públicas. Segundo a Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos (NTU), a adoção nacional da tarifa zero pode custar em torno de R$ 90 bilhões por ano. O valor pode subir para R$ 110 bilhões se houver aumento da demanda.

Em janeiro, o deputado federal José Guimarães (PT-CE), líder do governo na Câmara, disse, em evento, que Fortaleza e o Rio de Janeiro poderão receber projetos-piloto para implantar a tarifa zero em parceria com a União.

"O Brasil precisa enfrentar esse debate. Hoje, a tarifa zero está sendo discutida no Congresso Nacional e é uma vontade do presidente Lula", afirmou o parlamentar ao jornal "O Povo". Guimarães é pré-candidato ao Senado pelo Ceará.

O prefeito de Fortaleza, Evandro Leitão (PT), defendeu a ideia e disse, na última segunda-feira, 2, que irá a Brasília para negociar verbas.

“Nos próximos dias, provavelmente depois do Carnaval, devo ir para Brasília. Vou solicitar uma audiência com o presidente, no sentido de podermos discutir e, quem sabe, Fortaleza ser a primeira capital a ter a tarifa zero para o transporte coletivo”, disse, em entrevista coletiva.

O presidente Lula, durante entrega de ônibus elétricos da Eletra, em 2024, ao lado do vice-presidente Geraldo Alckmin (Ricardo Stuckert/PR)

Caucaia, cidade da Grande Fortaleza, com 400 mil habitantes, realiza o maior experimento de tarifa zero do país. O fim da cobrança foi adotado em 2021, e a proximidade dessa experiência também favorece Fortaleza a avançar no tema.

Dados da NTU apontam que, no Brasil, 171 cidades possuíam tarifa zero no final de 2025. Dentre eles, 132 têm tarifa zero universal, durante todos os dias e para toda a população. A maioria deles, no entanto, tem até 50 mil habitantes. A adoção de tarifa zero aumentou após a pandemia. Em 2020, o modelo era utilizado em apenas 40 cidades brasileiras.

Dentre as capitais, Belo Horizonte, Curitiba, Brasília, São Paulo, Cuiabá, Belém, Florianópolis, Maceió e Palmas oferecem gratuidade de alguma forma, como em algumas linhas e regiões ou em determinados dias da semana.

Tarifa congelada em Goiânia

Em Goiás, o governador Ronaldo Caiado (PSD) tem destacado que a tarifa dos ônibus em Goiânia e região está congelada em R$ 4,30 desde 2017. Ele trocou de partido em janeiro, em busca da candidatura presidencial.

"As pessoas não têm ideia do custo do transporte na cidade, que é de R$ 1,5 bilhão por ano. O passageiro paga R$ 500 milhões, e os outros R$ 1 bilhão são pagos pelo Estado de Goiás e pelas prefeituras de Goiânia e de outros municípios", disse Caiado, durante a entrega de uma frota de ônibus elétricos, em 30 de janeiro.

Em Goiânia, o governo estadual participa da administração da rede de ônibus e tem investido na renovação da frota. A cidade fará uma compra total de 130 veículos elétricos, de vários tamanhos, que deverão custar, ao todo, R$ 450 milhões, segundo o Consórcio BRT, empresa que opera os veículos.

O governador Ratinho Jr, do Paraná, durante lançamento do Bonde Urbano Digital (Roberto Dziura Jr/AEN/Divulgação)

Bonde digital

No Paraná, o governador Ratinho Júnior (PSD) lançou, no ano passado, o projeto de um bonde sem trilhos, chamado de Bonde Urbano Digital (BUD), que será o primeiro da América do Sul e vai operar em Curitiba. Ele também é cotado como presidenciável.

O veículo, criado na China, lembra um bonde moderno, como o VLT do Rio de Janeiro, mas operará com pneus sobre o asfalto. Ele seguirá "trilhos virtuais", marcações magnéticas feitas no asfalto.

Cada um deles tem 30 metros de comprimento e capacidade para levar até 280 passageiros. A linha inicial terá cerca de 13 quilômetros e a operação deve começar em novembro de 2026.

“Fomos atrás de um veículo que pudesse ser sustentável, que é 100% elétrico e é movido a energia renovável, que ao mesmo tempo ampliasse a capacidade no transporte de passageiros e que pudesse ser moderno, a ponto de competir com o metrô e o VLT”, afirmou Ratinho, no lançamento do projeto.

Em São Paulo, o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) entregará duas novas linhas de metrô e de monotrilho este ano, a 6-laranja e a 17-ouro, que estavam atrasadas desde a década passada. Tarcísio disse que buscará a reeleição em São Paulo, mas caso opte pela disputa nacional, poderá destacar essas entregas na campanha, em um país onde poucas capitais possuem sistemas de metrô.

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