Brasil

Preços nos restaurantes vão subir até 10% com fim da 6x1, diz presidente da Abrasel

Presidente da Abrasel afirma que redução da jornada pode pressionar preços, agravar disputa por mão de obra e atingir setor ainda endividado pela pandemia

Bares e Restaurantes: setor afirma que tem dificuldades para atrair mão de obra qualificada ( Fernando Frazão/Agência Brasil)

Bares e Restaurantes: setor afirma que tem dificuldades para atrair mão de obra qualificada ( Fernando Frazão/Agência Brasil)

André Martins
André Martins

Repórter de Brasil e Economia

Publicado em 15 de fevereiro de 2026 às 09h00.

A proposta de redução da jornada semanal reacendeu o debate sobre custos, produtividade e impacto social no Brasil.

Em meio à discussão sobre o fim da escala 6x1 e a fixação da carga em 40 horas semanais no Congresso, Paulo Solmucci, presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), afirma que os preços em bares e restaurantes podem subir entre 8% e 10% caso a mudança avance sem medidas compensatórias.

“Quem vai pagar essa conta é o consumidor”, afirma, ao citar debate recente com representantes sindicais.

A estimativa parte da conta apresentada pelo setor: ao reduzir um dia de trabalho por funcionário, os estabelecimentos teriam de contratar mão de obra extra para manter o funcionamento pleno, o que elevaria em cerca de 20% o custo com pessoal.

Solmucci ressalta que a discussão ocorre em um momento de fragilidade financeira para parte do setor: 16% dos negócios ainda operam no prejuízo e cerca de 40% trabalham no limite do equilíbrio.

“Essas empresas não conseguem pagar nem as dívidas que têm da pandemia”, afirma.

Segundo ele, além do impacto financeiro, há risco de redução da qualidade e da oferta de serviços caso a proposta avance sem transição e sem ganho de produtividade.

O setor soma cerca de 500 mil vagas abertas e 88% das empresas relatam dificuldade para preencher postos.

“Não há mão de obra sobrando”, diz.

Confira a entrevista completa com Paulo Solmucci, presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel)

Como a associação vê a discussão sobre a redução da jornada, especialmente diante da possibilidade de aprovação em ano eleitoral?

Obviamente temos um princípio que podemos trabalhar menos e ganhar mais. É o desejo razoável de todo mundo, da sociedade. Agora, o que imaginamos é que essas coisas têm que acontecer dentro de um ambiente claro de quem tá pagando a conta e da viabilidade. É preciso olhar primeiro se é viável, segundo quanto custa. E terceiro, se quem vai pagar a conta tá disposto. Eu participei de um debate com o presidente da UGT, o Ricardo Patá, e ele abre a fala dele e fala assim: "Olha, quero primeiro deixar bem claro que quem vai pagar essa conta não é o empresário, é o consumidor." Eu acho que ele faz uma fala muito importante, transparente, porque hoje o consumidor brasileiro tá mal informado. Todo mundo tende a achar bom trabalhar um pouco menos, jornadas menores e ganhar igual. Lindo. Mas como é que isso viabiliza? Como é que isso paga a conta?

Na prática, como esse custo apareceria para bares e restaurantes?

Você pega, por exemplo, um funcionário de um bar e restaurante que trabalha 6 dias e custa R$ 1.000 por semana. Ele vai passar a trabalhar 5 dias e cada dia dele R$ 200. Para eu cobrir esse sexto dia, porque o consumidor quer os bares, restaurantes abertos, se possível, todos os dias, eu vou precisar contratar uma pessoa por R$ 200, pelo menos, um extra. Esses R$ 200 significam aumentar em 20% o custo da mão de obra. Vai parar onde esse aumento de custo? No cardápio. Então, quem vai pagar isso, como corretamente alerta o presidente da UGT, Ricardo Patá, é o consumidor. O consumidor tá sabendo que ele vai pagar 8%, 10% a mais para ir num restaurante? Ele tá sabendo disso? Eu tenho para mim que não tá.

O setor tem condições de absorver esse aumento?

Nós estamos hoje com 16% das empresas ainda operando com prejuízo, mais outros 40% operando no equilíbrio. Essas empresas não conseguem pagar nem as dívidas que têm da pandemia. Um terço delas está com dívidas em atraso. Se a gente aumentar o custo, ainda que a gente tente repassar, é um processo doloroso para quem está numa situação ainda muito difícil. Sobre o ponto de vista do custo é muito elevado.

E do ponto de vista da viabilidade, há mão de obra disponível?

Nós temos hoje um setor em que 80% das empresas estão tendo dificuldade de contratar. Não há mão de obra. O Brasil tá vivendo no pleno emprego. As pessoas imaginam: “Ah, você vai contratar um garçom”. Mas você precisa de uma cozinheira. Não tem cozinheira sobrando. Você precisa de um sushiman, não tem sushiman sobrando. Você precisa de um médico no posto de saúde. Não tem médico sobrando. E ainda que conseguissemos fazer uma parte dessa transição, ela seria muito cruel com os mais pobres e com as regiões mais pobres do Brasil.

Por que seria mais cruel com as regiões mais pobres?

Se eu preciso contratar mais um e não tem esse profissional sobrando no mercado, eu vou buscar aonde? Eu vou tomar de alguém. E de quem é que eu vou tomar? Da região mais pobre, porque ele não vai conseguir pagar os R$ 200 ou R$ 250. Ele não vai conseguir competir com as regiões mais ricas. Então, você tem uma tendência a precarização da qualidade de serviço nas regiões mais pobres.

Há também impacto na competitividade do país?

Nós já temos uma indústria muito pouco competitiva. O Brasil produz 1/4 do que o americano produz. Produz 1/3 a 1/4 e até 1/5 de algumas economias europeias que têm jornada um pouco menor, mas produtividade quatro, cinco vezes maior. Como que a gente vai ficar ainda menos competitivo? Pode provocar perda de competitividade, piorar exportações, cair o superávit. Isso é ruim para a sociedade como um todo.

Como o senhor vê as declarações recentes de integrantes do governo sobre o tema?

Em dezembro o presidente Lula fala no conselhão que este não é assunto para correr, que é para debater com calma. O ministro Marinho fala que não é razoável resolver essa questão com canetada. Que é assunto para negociação entre as partes no sindicato. E o ministro Haddad deu uma declaração que o governo sequer fez as contas, avaliou os ônus. Como é que a gente pode pensar em colocar em votação em urgência, se o próprio presidente fala que não é para resolver assoldadamente, se o ministro do Trabalho fala que não é para canetada e se o ministro da Fazenda fala que nem as contas foram feitas?

Você vê que tem um viés eleitoral muito danoso para o país.

Alguns economistas argumentam que o impacto no PIB seria de cerca de 1%. Se a sociedade quiser pagar esse preço, não seria uma escolha legítima? Quando o Duque fala em queda de 1%, tudo bem. Mas quem vai pagar de verdade esse 1%? Não é só uma questão financeira, é uma questão de disponibilidade ou não do serviço. Será que ele sabe que pode não ter um médico, um intensivista, o cara que faz a segurança num shopping? Esse 1% não é só número. É qualidade de serviço, disponibilidade e justiça social.

Algumas empresas adotaram redução voluntária de jornada. Isso é um caminho?

Eu acho isso perfeito. A livre iniciativa é isso. Você toma a decisão do seu negócio. Mas uma rede de farmácias no interior de São Paulo adotou 5x2. O que não foi noticiado é que várias lojas passaram a não abrir no domingo, ou reduziram horário. Então eu saio do trabalho às 20h e ia buscar o remédio às 21h. Agora não tenho mais. Será que eu quero pagar esse custo? Será que eu tô ciente desse custo?

Há discussão sobre compensações ou incentivos fiscais para viabilizar a mudança?

Primeiro, nós temos um governo quebrado. Não tem dinheiro para incentivar nada. Uma das maiores preocupações do país hoje é o déficit público. Ainda que houvesse, nós somos contra subsídio do Estado. O bar e restaurante não pede subsídio. Mas se o único caminho fosse esse, a minha sugestão seria a desoneração da folha de pagamento. Porque aí você teria redução de custo com INSS e poderia bancar esse aumento de custo.

Quantas vagas o setor tem hoje e qual é o nível de dificuldade de contratação?

Nós temos hoje 88% das empresas buscando funcionários e tendo dificuldade de encontrar. E o setor tem em torno de 500.000 vagas abertas. Especialmente nas funções mais qualificadas, como gestor, cozinheiro, maître, sushiman. Quanto mais qualificada a função, mais difícil encontrar.

O que o setor tem feito para atrair e reter profissionais?

Os dados mostram que a remuneração inicial tem subido no Brasil muito por conta dessa dificuldade. O setor foi o que mais subiu mão de obra nos últimos cinco trimestres. Mas o primeiro grande desafio é produtividade. É produtividade que enriquece um povo, uma empresa, as pessoas. Nós precisamos de quatro brasileiros para produzir o que um americano produz. Precisamos de quase cinco para produzir o que um sueco produz. Então, o primeiro desafio é ganhar produtividade. No curto prazo, a gente busca subir salário um pouco, melhorar jornada, conforto. Trabalhar numa cozinha seis dias é pesado. Buscamos tratamento térmico, ar-condicionado, qualificação, benefícios, flexibilidade. Mas mesmo com tudo isso, estamos com praticamente 10% de mão de obra não preenchida. Você imagina se a gente tiver que correr atrás de mais 20%. De quem que nós vamos tomar?

Acompanhe tudo sobre:BaresRestaurantesJornada de trabalho

Mais de Brasil

Michelle Bolsonaro deve ser candidata ao Senado, diz Flávio

Moraes vota para rejeitar recursos de militares condenados por trama golpista

Carnaval 2026: confira a programação dos desfiles do Grupo Especial do Rio

PT proíbe manifestações de cunho eleitoral em desfile sobre Lula