PF coloca Michel Temer na berlinda — de novo

Prisão do núcleo de amigos do presidente na Operação Skala, deflagrada nesta quinta, gera ameaça de terceira denúncia e nova paralisia do governo

Depois de duas denúncias criminais, por corrupção passiva, obstrução de Justiça e organização criminosa, o presidente Michel Temer é atingido em novo escândalo. A prisão nesta quinta-feira do ex-coronel da Polícia Militar de São Paulo João Batista Lima Filho, de seu amigo e ex-assessor especial José Yunes e do ex-ministro da Agricultura Wagner Rossi (MDB-SP) coloca praticamente todos os homens de confiança do presidente que não têm foro privilegiado na cadeia, ao menos temporariamente.

Estão detidos também o ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha (MDB-RJ), a quem Temer disse que confiava a resolução de todos os seus problemas, Henrique Eduardo Alves (MDB-RN), seu ex-ministro do Turismo e parceiro dos tempos de Câmara, e Rodrigo Rocha Loures (MDB-PR), também ex-assessor de Temer que foi flagrado com uma mala de 500.000 reais em dinheiro vivo que aliados garantem que nada tem a ver com o presidente. Ainda neste grupo, há Geddel Vieira Lima (MDB-BA), ex-ministro-chefe da Secretaria de Governo, a quem se atribui a responsabilidade por 51 milhões de reais em dinheiro vivo encontrados em um apartamento em Salvador no ano passado.Livres estão Temer, o ministro da Secretaria da Presidência, Moreira Franco (MDB-RJ), e o ministro-chefe da Casa Civil, Eliseu Padilha (MDB-RS).

Nesta quinta, o inquérito dos portos deu mais um passo em direção à possível culpa do presidente. EXAME conversou com parlamentares da base e consultores políticos de Brasília para entender os efeitos. Todos pediram anonimato, pois estão ainda formulando suas análises oficiais. O temor no Planalto é que Polícia Federal e a Procuradoria-Geral da República, ao prender um núcleo extremamente próximo do presidente, tenham reunido indícios suficientemente fortes para a chegada de uma terceira denúncia. A extensão da operação é incerta, pois as investigações estão sendo conduzidas em sigilo de Justiça pela PF e PGR. Tudo indica que o ex-diretor-geral da Polícia Federal Fernando Segóvia estava errado quando disse que a PF já teria apresentado denúncia contra o presidente se houvesse provas. As prisões e os mandados de prisão têm por objetivo juntar mais documentos para comprovar o envolvimento dos suspeitos. No limite, uma terceira denúncia por corrupção pode surgir contra Michel Temer.

A Procuradoria-Geral da República informou em nota à imprensa que os mandados foram pedidos ao Supremo pela procuradora-geral, Raquel Dodge, no inquérito dos portos. A autorização para as prisões foi dada pelo relator do caso, ministro Luís Roberto Barroso, por indícios de corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa. Temer e a trupe são investigados por recebimento de propina na edição do decreto em troca de benefícios a empresas do setor portuário em Santos, porto que é zona de influência de Temer há anos. Foi preso também Antônio Celso Grecco, dono da Rodrimar, empresa que está no centro da negociação do decreto.

É com pouca informação que a Casa Civil se reuniu nesta quinta para medir o ânimo dos parlamentares para cumprir as agendas que o governo manda ao Congresso. O custo político das delações e ações controladas dos sócios do grupo J&F, em maio do ano passado, atrasou de forma determinante a tramitação da reforma da Previdência. Parlamentares venderam caro o apoio para salvar o mandato do presidente e viraram as costas quando a Previdência voltou para a pauta. Com a nova operação, o mesmo pode acontecer neste ano com a agenda de reformas microeconômicas e de privatizações propostas pelo governo.

Sem votos para aprovar a reforma das aposentadorias e precisando de popularidade, o Planalto convocou a intervenção federal na segurança pública do Rio de Janeiro. Em pesquisas internas, quatro de cada cinco brasileiros indicaram apoiar a medida. Calcado nessa agenda popular e em pautas como a privatização da Eletrobras, Temer passou a sinalizar que poderia ser candidato à reeleição em 2018 se as medidas dessem certo.

A intervenção já enfrenta dificuldades. O general Walter Souza Braga Netto, escolhido como chefe da operação, recebeu um terço do dinheiro que avaliou necessário para colocar o policiamento do Rio em ordem, cerca de 1 bilhão de reais. Nesta semana, foi anunciado que o exército ajudaria no patrulhamento apenas durante o dia — justamente quando há menos índice de perigo. A sensação de segurança dos cariocas da periferia mudou pouco.

Agora, a ameaça se estende ao Congresso. Com as eleições próximas, o custo de barganha dos parlamentares para aprovar reformas difíceis sobe pela iminência de se associarem a pautas de um governo enterrado em corrupção. Ainda que o constrangimento não seja da magnitude das denúncias do ano passado, será mais difícil que parlamentares comprem a briga do governo em votações mais controversas como a reoneração da folha de pagamentos. “Tão perto das eleições, um parlamentar não vai se indispor com setores produtivos da economia se não tiver pretensões de uma aliança no futuro. Com o MDB tão embrenhado em casos de corrupção, essa vontade se dissipa”, diz um analista de Congresso. A análise geral é de que Temer perde força como possível candidato.

A tendência, portanto, é que parlamentares prefiram a agenda de segurança pública, uma das principais preocupações do eleitorado para este ano, em ações localizadas em seus currais eleitorais. Da agenda de medidas do governo, a privatização da Eletrobras deverá ter preferência, uma vez que para ela ocorrer é preciso apenas uma aprovação por maioria simples no Congresso. O risco da privatização afundar fez as ações da estatal fecharem o dia em queda de 0,52%.Uma nova denúncia, contudo, enterrraria todos os planos e colocaria o governo em um custoso banho-maria, sem força para nada, até o fim do mandato.

A articulação política já começou: o ministro Carlos Marun (MDB-MS) apressou-se em dizer que o presidente “não tem nada a ver com isso”. Ontem, o ministro dos Transportes, Portos e Aviação Civil, Maurício Quintella, disse que a área da Rodrimar seria relicitada. “Não haverá prorrogação [da concessão] em relação à área da Rodrimar”, disse Quintella. A tentativa de tirar importância da pauta não adiantou. Menos de uma semana após Temer dizer à revista Istoé que quer ser candidato em outubro, os esquemas voltam a explodir em seu colo.

Obrigado por ler a EXAME! Que tal se tornar assinante?


Tenha acesso ilimitado ao melhor conteúdo de seu dia. Em poucos minutos, você cria sua conta e continua lendo esta matéria. Vamos lá?


Falta pouco para você liberar seu acesso.

exame digital

R$ 3,90/mês
  • R$ 9,90 após o terceiro mês.

  • Acesse quando e onde quiser.

  • Acesso ilimitado ao EXAME Invest, macroeconomia, mercados, carreira, empreendedorismo e tecnologia.
Assine

exame digital anual

R$ 99,00/ano
  • R$ 99,00 à vista ou em até 12 vezes. (R$ 8,25 ao mês)

  • Acesse quando e onde quiser.

  • Acesso ilimitado ao EXAME Invest, macroeconomia, mercados, carreira, empreendedorismo e tecnologia.
Assine

Já é assinante? Entre aqui.