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O incrível Brasil paralímpico

Thiago Lavado

Ouve-se um baque seco vindo do ginásio. É o som das cadeiras de rodas do rúgbi se chocando. São quatro jogadores de cada lado, podendo ser homens ou mulheres, se movendo velozmente em cadeiras compactas para o ataque, ou cadeiras maiores, com grades, para a defesa. O objetivo é passar com a bola e as duas rodas da cadeira pela linha de 8 metros de largura, localizada do outro lado do campo inimigo. Com 40 segundos para finalizar a jogada, o esporte é rápido, estratégico e de contato, com elementos do basquete e do futebol americano.

EXAME Hoje acompanhou um dos últimos treinos da seleção brasileira, no Centro Paralímpico de São Paulo, antes de o time estrear nas Paralimpíadas, no Rio de Janeiro, no dia 14. Será o primeiro jogo do Brasil na modalidade que se tornou oficial em Sidney 2000. O Brasil não é favorito à medalha, mas busca melhorar sua classificação no ranking global da modalidade — o que garantiria ao time presença confirmada em eventos como o campeonato mundial.

Se a expectativa do Rúgbi é apenas competir, o Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB) tem ambições bem maiores. Depois de ficar em 9º lugar em Pequim 2008, com 16 ouros e 47 medalhas, e em 7º em Londres 2012, com 21 ouros e 43 medalhas, a meta para 2016 é terminar entre os cinco primeiros colocados. As chances para atingir esse objetivo são maiores, uma vez que os brasileiros chegam ao Rio de Janeiro com a maior delegação dos jogos (e também a maior que o Brasil já teve). Serão 504 pessoas, sendo 285 atletas e participação confirmada em todos os esportes.

A melhora da performance nas últimas edições dos jogos é fruto do aumento dos investimentos. Desde que a Lei Agnelo/Piva foi sancionada em 2001, o orçamento paralímpico brasileiro só cresce. A legislação estabelece que 2% do montante arrecadado nas loterias federais deve ser repassado para os comitês Olímpico (COB) e Paralímpico. No ano passado, uma mudança na lei ampliou de 2% para 2,7% o valor repassado ao COB e ao CPB, e mudou de 15% para 37,04% a fatia destinada ao Comitê Paralímpico. Este ano, até julho o CPB já havia recebido 110,8 milhões de reais, sendo que 58% desses recursos vieram da lei. O restante foi conseguido por meio de um contrato de patrocínio com a Caixa Econômica Federal, que pela primeira vez fechou apoio por um ciclo de quatro anos para os atletas paralímpicos. Há também parcerias com prefeituras do Rio de Janeiro e São Paulo, que financiam o esporte em cerca de 4 milhões de reais. Diante dos jogos Rio 2016, um reforço de 5,7 milhões do Ministério do Esporte ainda ajudou na preparação.

Segundo o diretor técnico do CPB, Edilson Alves, antes de a legislação entrar em vigor o desporto paralímpico era rodeado de incertezas financeiras, tendo que captar recursos ano a ano, sem saber como seria entre um ciclo olímpico e outro. “Com a entrada de recursos garantida, pudemos estabelecer planejamentos específicos, ter uma rotina de treinos, investir em centros de treinamento e de esportes”, disse.

O Brasil já era tradicional em alguns esportes, criando ídolos como André Brasil, Daniel Dias e Clodoaldo Silva na natação, e Terezinha Guilhermina e Alan Fonteles no atletismo. Bocha e futebol de 5 também são prata da casa. Além destes, com mais recursos o CPB pôde investir em esportes menos conhecidos por aqui como halterofilismo, esgrima e o rúgbi. 

A ideia veio da Grã-Bretanha. O país conta desde 1994 com um fundo que repassa o dinheiro da Loteria Nacional para caridade, educação, artes, e esporte. Até hoje já foram cerca de 34 bilhões de libras investidos. Por aqui, o Brasil busca trilhar o caminho do investimento e do preparo. Em 2028 a ideia é ter um ciclo de atletas totalmente formado em centros de treinamento especializado, com a ajuda de equipes técnica, médica, psicológica e nutricional.

O mapa paralímpico 

Assim como nas Olimpíadas, nas Paralimpíadas o sucesso dos países é definido pelo montante de investimento nos centros e no preparo de atletas. Estados Unidos, Alemanha, Grã-Bretanha, Rússia e, mais recentemente, a China são os grandes vencedores. Embora o investimento paralímpico dos países à frente do Brasil seja quatro ou cinco vezes maior, a disparidade de infraestrutura e suporte é menor do que nos Jogos Olímpicos. Assim, países emergentes conseguem disputar com os grandes no quadro de medalhas. Nas duas últimas Paralimpíadas, por exemplo, países como África do Sul, Ucrânia e Brasil figuraram entre os 10 melhores. 

É normal que entre uma edição e outra das Paralimpíadas alguma modalidade ou categoria de competição deixe de fazer parte dos jogos, alterando a disposição de medalhas disponíveis. Os Estados Unidos são o maior vencedor dos jogos, com 697 medalhas de ouro e quase 2.000 medalhas totais. Apesar disso, o país sentiu os investimentos de outras nações e terminou em 6º na última edição. A China é o grande destaque dos jogos paralímpicos recentes, liderando o quadro de medalhas nas últimas três edições dos jogos — em apenas 8 participações nos jogos paralímpicos, os chineses já angariaram um total de 335 medalhas de ouro. Outros grandes nomes são Austrália, Grã-Bretanha, Canadá e Alemanha.

O rúgbi em cadeiras de rodas é um exemplo dos investimentos e do crescimento recente brasileiro. Criado em 1977 no Canadá, até hoje uma das potências na modalidade, o esporte só veio para o Brasil em 2008. O país estava em 2009 na última posição do ranking mundial, como 25º colocado. Desde então conseguiu galgar posições, ocupando atualmente a 19ª. Nas Paralímpiadas são convocadas as 8 melhores seleções do mundo e o Brasil conseguiu uma vaga por ser o dono da casa. Desde que surgiu por aqui, o esporte já conta com 11 times, jogando duas divisões do campeonato nacional.

Segundo os dados do Ministério do Esporte, 6.100 atletas no Brasil recebem uma bolsa do Governo Federal. Na seleção de rúgbi, 11 recebem o auxílio, de cerca de 3.100 reais. Um deles é o capitão do time, José Higino, que começou a jogar em 2010, depois de tentar outros esportes, como o hipismo. Atualmente jogando no time BSB, de Brasília, ele disputou o primeiro campeonato brasileiro dois meses depois de começar no rugby. “Viajei o mundo para jogar e competir. Pude morar nos Estados Unidos e jogar por um time de lá. O rúgbi foi essencial na minha recuperação”, afirma Higino, que diz que o Brasil vem para brigar por uma medalha.

Rafael Hoffmann, colega de equipe, também joga profissionalmente, no time Gladiadores, de Curitiba. Ele começou no rugby em 2009, cerca de 5 meses depois de sua lesão. Hoje treina todos os dias, em dois turnos. “Eu era atleta do futebol antes e fui apresentado ao esporte por um amigo, que era acadêmico de educação física. Foi algo que mudou a minha vida”, diz.

A chave brasileira nos jogos não será fácil: Canadá, Austrália e Grã-Bretanha estão entre as 5 melhores seleções do mundo na modalidade. O técnico do time, Rafael Gouveia, é quatro vezes campeão brasileiro e bronze no jogos Pan-americanos de 2011. Ele espera fazer bons jogos contra grandes seleções e melhorar a classificação brasileira. “É um benefício social enorme. A maior vitória é mudar a vida desses caras”.

Os jogos começam dia 7, quarta-feira. Será a chance de sentir mais uma vez o gostinho olímpico. A competição tem tudo para ser o sucesso que foram as Olimpíadas. Os problemas estão solucionados: a preocupação com os ingressos sobrando sumiu nas últimas semanas, especialmente quando o comitê organizador anunciou no final de agosto que os ingressos vendidos passaram de 1 milhão. Até mesmo o presidente Michel Temer pode comparecer à abertura. Mas, nas Paralimpíadas, os protagonistas serão os Josés e Rafaels do rúgbi, da natação, do atletismo. São o retrato de um Brasil que, apesar de tudo, dá certo.  

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